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Personalidade e autoconhecimento

Autoavaliação - como você se vê e como os outros veem você

Efeito Dunning-Kruger, pontos cegos da personalidade e por que a autoavaliação é tão imprecisa. Como construir uma autoimagem mais realista.

O quanto você se conhece? A maioria das pessoas diria “bastante bem”, e é exatamente aí que está o problema. Décadas de pesquisa psicológica mostram que a nossa autoavaliação é sistematicamente distorcida. Você se vê de um jeito diferente de como os outros veem você, e muitas vezes não faz ideia de onde estão as maiores diferenças.

Este artigo mostra por que a autoavaliação é tão imprecisa, quais mecanismos produzem essa imprecisão e, principalmente, como construir um retrato mais realista de quem você é de verdade.

Por que a autoavaliação é tão imprecisa?

O cérebro humano não é um observador objetivo. A evolução não se importou se você se entendia com exatidão. Ela se importou se você sobrevivia. E a sobrevivência às vezes se beneficia de uma dose de autoengano.

O efeito Dunning-Kruger

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger publicaram um estudo que se tornou um dos artigos mais citados da psicologia social. Eles descobriram que as pessoas com menor competência em uma determinada área tendem a superestimar drasticamente as próprias capacidades, enquanto quem é realmente especialista tende a se subestimar um pouco.

Por quê? Porque reconhecer o quanto você entende pouco de algo exige justamente a competência que falta. Quem tem dificuldade com lógica não consegue avaliar que o próprio raciocínio lógico é fraco. Quem lê mal as emoções acredita ser empático, porque falta exatamente a habilidade que mostraria o contrário.

O efeito Dunning-Kruger não tem a ver com burrice. Ele vale para todos nós, apenas em áreas diferentes. Uma pessoa brilhante na programação pode superestimar enormemente a própria habilidade de gestão. Uma terapeuta empática pode superestimar a própria educação financeira.

Superioridade ilusória

A maioria das pessoas se considera motorista acima da média, acima da média em inteligência e acima da média em moralidade. Estatisticamente, isso é impossível. O fenômeno se chama superioridade ilusória e é um dos achados mais robustos da psicologia.

Um estudo clássico de Svenson (1981) constatou que 93% dos motoristas americanos se avaliavam acima da média. Resultados parecidos aparecem em estudos sobre inteligência, desempenho no trabalho, atratividade e comportamento ético. Nós simplesmente acreditamos ser melhores do que somos, em quase todos os traços valorizados positivamente.

Pontos cegos da personalidade

Cada um de nós tem pontos cegos de personalidade: aspectos do nosso comportamento e do nosso caráter que não conseguimos ver, mas os outros conseguem. Você pode achar que é uma pessoa paciente, e os seus colegas percebem como você trava o maxilar toda vez que um projeto atrasa. Você pode se considerar alguém que sabe escutar, e o seu parceiro sabe que você interrompe na terceira frase.

Esses pontos cegos não são resultado de burrice nem de falta de introspecção. Eles vêm do modo como a mente humana funciona. Você tem acesso privilegiado aos seus próprios pensamentos e às suas intenções, mas acesso limitado à forma como o seu comportamento aparece por fora.

A janela de Johari: um mapa do autoconhecimento

Em 1955, os psicólogos Joseph Luft e Harrington Ingham criaram um modelo simples e genial de autopercepção: a janela de Johari. Ela divide as informações sobre você em quatro quadrantes.

1. Área aberta

O que você e os outros sabem a seu respeito. As suas características, habilidades e comportamentos evidentes. Quanto maior for essa área, mais autenticidade e previsibilidade você transmite às pessoas ao seu redor. É a base da confiança.

2. Ponto cego

O que os outros enxergam em você, mas você não. Os seus hábitos inconscientes, o seu estilo de comunicação, a sua expressão facial sob estresse. Talvez você não perceba que franze o nariz quando discorda, que fala rápido demais sob tensão ou que a sua “crítica construtiva” soa como um ataque.

3. Área oculta

O que você sabe sobre si e não compartilha com os outros. Os seus medos secretos, as suas inseguranças, os seus fracassos e os seus sonhos. Uma dose de privacidade é saudável, mas uma área oculta grande demais significa que as pessoas não conhecem você de verdade e que você perde a chance de receber retorno justamente sobre aquilo que mais incomoda você.

4. Área desconhecida

O que nem você nem os outros sabem a seu respeito. Talentos escondidos, padrões inconscientes, potencial que ainda não veio à tona. Essa área encolhe quando você experimenta coisas novas, se coloca em situações desconhecidas e reflete sobre como reage.

O objetivo do crescimento pessoal é ampliar a área aberta às custas das outras três. Isso acontece de duas formas: compartilhando (o que encolhe a área oculta) e recebendo feedback (o que encolhe o ponto cego).

O que diz a pesquisa: quem conhece você melhor, você ou os outros?

Intuitivamente, você diria que se conhece melhor do que qualquer outra pessoa. Afinal, você tem acesso aos seus pensamentos, sentimentos e motivações. Mas a pesquisa da psicóloga Simine Vazire (2010) colocou essa intuição seriamente em xeque.

Vazire formulou o modelo SOKA (Self-Other Knowledge Asymmetry, assimetria de conhecimento entre a pessoa e os outros), segundo o qual quem tem a visão mais precisa da sua personalidade depende do traço específico em questão. Os fatores decisivos são a observabilidade (o quanto os outros conseguem enxergar o traço) e a carga avaliativa (o quanto o traço é socialmente desejável e, portanto, sujeito a viés).

Traços que a autoavaliação capta bem

Nos traços de baixa observabilidade e baixa carga avaliativa, a vantagem é sua. Um exemplo perfeito é o neuroticismo (estabilidade emocional). As suas angústias internas, as suas preocupações e a sua reatividade emocional são vividas principalmente por você. Os outros só veem a ponta do iceberg. É por isso que a autoavaliação do neuroticismo costuma ser surpreendentemente precisa.

Traços em que os outros são mais precisos

Nos traços de alta observabilidade e alta carga avaliativa, as outras pessoas julgam melhor. A amabilidade é o exemplo perfeito. Todo mundo gosta de se ver como alguém gentil e atencioso. Mas os seus colegas e amigos sabem exatamente como você se comporta sob pressão, quando alguém discorda de você ou quando você precisa emplacar a sua opinião. A avaliação que eles fazem da sua amabilidade costuma ser mais precisa do que a sua.

Traços em que os dois lados se aproximam

A extroversão é relativamente bem avaliada pelos dois lados. Ela é muito observável (os outros veem o quanto você fala e o quanto procura companhia) e relativamente neutra em termos de desejabilidade social (ser uma pessoa introvertida já não é estigma). Por isso a autoavaliação da extroversão costuma coincidir com a avaliação dos outros.

Panorama dos cinco fatores

Fator do Big FivePrecisão da autoavaliaçãoPor quê
NeuroticismoBoaVivência interna, baixa observabilidade externa
ExtroversãoModeradaMuito observável, baixa desejabilidade social
AberturaModeradaEm parte interna (curiosidade), em parte observável (comportamento)
ConscienciosidadeLevemente enviesadaSocialmente desejável: quem quer se ver como alguém pouco confiável?
AmabilidadeA menos precisaMuito desejável socialmente e cheia de pontos cegos de comportamento

Essa pesquisa tem uma implicação fascinante: se você quer saber como lida com a ansiedade ou com a estabilidade emocional, a resposta está com você. Mas, se quer saber se é realmente uma pessoa gentil e atenciosa, pergunte a quem está ao seu redor.

Como a cultura molda a autoavaliação

A forma como você se vê não é só uma questão de psicologia. É também uma questão de cultura. A pesquisa revela diferenças sistemáticas entre a abordagem ocidental e a oriental da autoavaliação.

Culturas ocidentais: individualismo e autoconfiança

Nas culturas ocidentais (Estados Unidos, Europa Ocidental, Austrália), valorizam-se a autoconfiança, a assertividade e uma autoimagem positiva. Desde cedo, as crianças são estimuladas a acreditar nas próprias capacidades. Isso leva a um efeito de superioridade ilusória mais forte: quem vem de culturas ocidentais tem uma tendência mais acentuada a se supervalorizar.

Culturas orientais: coletivismo e autocrítica

Nas culturas do Leste Asiático (Japão, China, Coreia), valorizam-se tradicionalmente a modéstia, a autocrítica e o foco na correção dos pontos fracos. A pesquisa de Heine e Hamamura (2007) mostrou que os participantes japoneses apresentaram uma superioridade ilusória significativamente menor do que os americanos. Em alguns estudos, chegaram a se avaliar abaixo da média.

Isso quer dizer que os japoneses são mais precisos na autoavaliação? Não necessariamente. Eles simplesmente têm outro tipo de viés. Em vez de superestimar, podem subestimar, sobretudo em contextos públicos.

Feedback 360 graus: um espelho de todos os ângulos

Se a autoavaliação é enviesada e a avaliação de uma única pessoa pode ser subjetiva, a solução lógica é reunir retornos de várias fontes. É exatamente isso que o feedback 360 graus faz.

Desenvolvido originalmente para o mundo corporativo, o feedback 360 graus reúne avaliações de superiores, colegas, pessoas lideradas e, às vezes, clientes. Os resultados são então comparados com a sua autoavaliação.

A pesquisa mostra que o maior benefício do feedback 360 graus está justamente em revelar pontos cegos. Atwater e Brett (2005) constataram que as pessoas que se supervalorizavam (cuja autoavaliação era significativamente mais alta do que a avaliação dos outros) tinham o pior desempenho no trabalho. Já as pessoas cuja autoavaliação coincidia com a avaliação dos outros, em nível alto ou baixo, eram as mais eficazes.

A conclusão é importante: o objetivo não é ter uma autoavaliação alta ou baixa. O objetivo é ter uma autoavaliação precisa.

Por que uma autoavaliação precisa importa

Para a sua carreira

Quem tem uma autoavaliação precisa toma decisões de carreira melhores, porque estima de forma realista os próprios pontos fortes e fracos. Essas pessoas não se candidatam a vagas para as quais ainda não estão preparadas (e não colecionam recusas), mas também não subestimam o próprio potencial.

Um estudo de Judge e Bono (2001) mostrou que a autoavaliação precisa tem correlação positiva com a satisfação e o desempenho no trabalho. Quem se conhecia bem era mais feliz no trabalho, não por ser objetivamente melhor, mas por escolher funções que realmente combinavam com o próprio perfil.

Para os seus relacionamentos

Nos relacionamentos, a autoavaliação precisa é a base de uma comunicação saudável. Se você não sabe que tende à crítica (amabilidade baixa), não consegue trabalhar isso. Se não percebe que reage ao estresse se recolhendo (neuroticismo alto, extroversão baixa), o seu parceiro pode interpretar isso como desinteresse.

A pesquisa de Luo e Snider (2009) constatou que casais em que os dois tinham uma percepção precisa da própria personalidade relatavam mais satisfação com a relação e menos conflitos. O autoconhecimento não é apenas uma questão individual: é um presente para as pessoas ao seu redor.

Para a sua saúde mental

Uma autoavaliação precisa protege contra dois extremos: o narcisismo grandioso (supervalorizar-se) e o realismo depressivo (subestimar-se). Uma autoavaliação saudável significa enxergar-se de forma realista, inclusive com os defeitos, e se aceitar apesar deles.

7 métodos práticos para se conhecer melhor

A teoria é bonita, mas como melhorar o autoconhecimento na prática? Aqui estão sete métodos com respaldo em pesquisa.

1. Diário estruturado

Escrever um diário não só reduz o estresse (Pennebaker, 1997), como também melhora a autopercepção. O segredo é escrever com estrutura: não apenas “o que aconteceu hoje”, mas uma reflexão sobre as suas reações e os seus padrões.

Experimente se fazer três perguntas toda noite: o que me desestabilizou hoje e por quê? Como reagi em uma situação difícil? O que eu faria diferente da próxima vez? Depois de um mês, você vai começar a enxergar padrões recorrentes que, de outro modo, teriam passado despercebidos.

2. Faça perguntas específicas

A pergunta “como eu sou?” é vaga demais para produzir uma resposta útil. Pergunte sobre coisas concretas. Em vez de “eu lidero bem?”, pergunte “como você se sente quando eu dou um retorno sobre o seu trabalho?”. Em vez de “sou uma pessoa empática?”, pergunte “você já reparou em alguma situação em que eu não percebi que alguém estava mal?”.

Perguntas específicas reduzem a tendência da outra pessoa a dar respostas diplomáticas e trazem informação com a qual você consegue fazer alguma coisa.

3. Testes de personalidade como espelho

Os testes de personalidade cientificamente validados estão entre as ferramentas mais eficazes de autoconhecimento. Ao contrário da autoavaliação intuitiva, o teste apresenta perguntas padronizadas que cobrem áreas nas quais você talvez nunca pensasse por conta própria.

O teste Big Five é especialmente útil para o autoconhecimento, porque mede cinco dimensões centrais da personalidade em escala. Você não recebe um rótulo, e sim um perfil cheio de nuances. E, quando o seu resultado em uma dimensão específica for diferente do que você esperava, é possível que você acabe de descobrir um ponto cego.

4. Feedback em vídeo e áudio

Grave-se durante uma apresentação, uma conversa de trabalho ou um bate-papo e depois assista. Para a maioria das pessoas isso é incômodo, mas enormemente instrutivo. Você vai ver os seus hábitos: como gesticula, com que frequência interrompe, o que o seu rosto faz quando você discorda.

A pesquisa mostra que quem se assiste em vídeo com regularidade melhora bastante as habilidades de comunicação, porque finalmente enxerga o que os outros vinham enxergando o tempo todo.

5. Acompanhe o comportamento, não as intenções

Uma das maiores fontes de autoavaliação imprecisa é que você se julga pelas suas intenções, enquanto os outros julgam você pelo seu comportamento. Você acha que é uma pessoa generosa porque QUER ajudar. Mas quantas vezes, no último mês, você realmente ajudou alguém?

Comece a acompanhar o seu comportamento de forma objetiva. Quantos minutos por dia você escuta de verdade, com atenção plena? Quantas vezes por semana você cumpre o que prometeu? Quantas vezes por mês você toma a iniciativa de procurar os amigos? Os números são implacáveis, mas honestos.

6. Feedback variado

Não pergunte só ao seu melhor amigo: ele vê você em um único contexto e tem motivos para ser gentil. O ideal é reunir retornos de pessoas de diferentes áreas da sua vida: colegas de trabalho, amigos, família, o seu parceiro. Cada um enxerga uma face diferente da sua personalidade, e só combinando essas perspectivas você obtém o quadro completo.

E aqui vai uma regra útil: se três pessoas diferentes, de três partes diferentes da sua vida, dizem a mesma coisa, é muito provável que seja verdade, mesmo que você não ache.

7. Situações novas como teste

Você não vai aprender muito sobre si dentro da zona de conforto. O autoconhecimento cresce quando você entra em situações novas e desafiadoras: um projeto novo, uma viagem, um conflito, uma responsabilidade. Nesses momentos vêm à tona aspectos da sua personalidade que ficam escondidos na rotina diária.

Experimente dizer sim de propósito a algo que normalmente recusaria e depois observe a sua reação. Como você se sente? Como se comporta? O que surpreende você?

Armadilhas comuns da autoavaliação

Mesmo quando você trabalha ativamente por um autoconhecimento mais preciso, existem algumas armadilhas que vale a pena vigiar.

Viés de confirmação

Você tende a notar as informações que confirmam a sua autoimagem atual e a ignorar as que a contradizem. Se você se vê como alguém criativo, lembra de cada ideia original que teve, mas esquece as semanas em que nada de novo lhe passou pela cabeça.

Viés de memória

As suas lembranças não são gravações da realidade. São reconstruções. E, a cada reconstrução, você as edita sutilmente para caberem na sua autoimagem. Você lembra de ter mantido a calma naquele conflito. O seu colega lembra de você levantando a voz.

Humor do momento

Quando você está bem, se avalia de forma mais positiva. Quando está em um dia ruim, se vê de forma mais negativa. A autoavaliação não é estável: ela oscila com o humor. É por isso que uma única “olhada no espelho” é menos confiável do que acompanhar padrões ao longo do tempo.

A autoavaliação como processo permanente

O autoconhecimento não é um destino ao qual você chega e depois risca da lista. É um processo contínuo. A sua personalidade muda (devagar, mas muda), as suas circunstâncias de vida mudam, os seus papéis mudam. A pessoa que você era aos vinte anos não é a mesma que você é aos quarenta.

Por isso vale a pena revisitar a sua autoavaliação com regularidade. Revise as suas suposições. Pergunte se aquilo em que você acreditava a seu respeito cinco anos atrás ainda é verdade.

Um bom ponto de partida é o teste de personalidade Big Five, que dá a você um mapa cientificamente fundamentado das suas cinco dimensões centrais de personalidade. Compare os resultados com a sua estimativa intuitiva e, onde a diferença for maior, é provável que você tenha encontrado os seus maiores pontos cegos. É exatamente aí que começa o autoconhecimento de verdade.

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