Camila entrega uma análise em que passou três semanas e na reunião ouve do chefe que é o melhor material que ele viu no último ano. Em cinco segundos ela já disse três frases: que não teve nada de difícil, que o Diego do financeiro ajudou muito e que, de todo jeito, ficaram algumas pontas soltas ali dentro.
O chefe concorda com a cabeça e passa para o próximo ponto. Camila tem a sensação de ter se comportado direito. Do elogio pelo qual alguém naquela sala pediu a palavra não sobrou nada aproveitável nem para ela nem para ele.
A emenda depois do elogio é um dos hábitos mais silenciosos que uma pessoa pode ter. Não incomoda ninguém e, sozinha, não custa nada. A conta chega anos depois, quando você precisa falar de si em voz alta e descobre que não tem de onde tirar.
De onde vem a emenda
O primeiro motivo é cultural. Em português o elogio não se aceita, se devolve: imagina, que nada, foi sorte, qualquer um teria feito. É uma fórmula de cortesia que divide o trabalho entre dois, um diminui e o outro insiste, mais ou menos como na briga para pagar a conta. Junte a isso o medo de parecer que está se achando, que no Brasil pega pior do que quase qualquer coisa, e a emenda sai sozinha, como reflexo. E reflexo não distingue situação.
O problema aparece quando o outro não insiste. Numa reunião ou num e-mail ninguém repete o elogio, então a fórmula fica sozinha na sala e soa pelo que diz: que ali não havia nada a reconhecer.
O segundo motivo é um medo bem prático. O elogio é ao mesmo tempo uma expectativa: se você o aceita, confirma que aquele é o seu nível normal e da próxima vez vão contar com ele. A emenda derruba a régua de volta antes que alguém consiga levantá-la. O Diego, que depois de uma apresentação boa solta que teve foi sorte com a plateia, está comprando o direito de decepcionar na próxima.
E em terceiro lugar existe o desconforto puro e simples. O elogio coloca você por alguns segundos no centro das atenções, e o silêncio depois é difícil de segurar. A emenda preenche esse silêncio e alivia todo mundo. É por isso que ela sai rápido e sem pensar.
Que se trata mais de uma encenação para a plateia do que de convicção verdadeira foi o que sugeriu uma série de estudos de Mark Leary e colegas, de 2000. Pessoas com dúvidas fortes a respeito de si mesmas se avaliavam bem mais modestamente quando a resposta delas seria vista por outra pessoa. Ao preencher a mesma coisa em condições anônimas, a diferença sumia em boa parte. A modéstia não era, portanto, o que pensavam de si, e sim o que diziam em voz alta.
Você lembra do último elogio que recebeu? Tente recuperar a sua resposta e, principalmente, se naquele momento você mesmo acreditava nela.
A modéstia deixa o fato de pé, a desvalorização apaga
A diferença entre modéstia e desvalorização não se reconhece pela educação, porque as duas soam educadas. Reconhece-se pelo que acontece com o fato. A modéstia deixa o fato onde está e só acrescenta as circunstâncias: deu certo e eu tinha um bom time junto. A desvalorização retira o fato, porque depois de uma frase dizendo que qualquer um daria conta não sobra nada para reconhecer.
O teste inteiro cabe em uma pergunta só. Você acredita no que está dizendo? Se responde ao chefe que não foi nada enquanto sabe de três versões, duas noites viradas e um telefonema que salvou a coisa toda, isso não é modéstia. É informação imprecisa sobre você espalhada por você mesmo.
O segundo teste é ainda mais rápido. Você diria o mesmo de um colega que tivesse feito exatamente o mesmo trabalho? A maioria hesita nessa pergunta, porque no trabalho alheio as horas gastas aparecem como mérito e no próprio como obrigação.
Com isso a modéstia não deixa de ser útil. Às vezes o mérito é mesmo, em boa parte, de outra pessoa, e quem se apropria do trabalho de um time inteiro não dura muito nele. A diferença está em dizer a frase sobre o time porque ela corresponde ao que aconteceu, ou porque é incômodo ficar sozinho por um instante. No primeiro caso a sua parte continua na frase, no segundo desaparece.
O que a emenda faz em dez anos
Uma vez só não produz nada. Quem faz o estrago é a repetição, porque o elogio é quase a única fonte externa de informação sobre o que você sabe fazer. Se você enfraquece cada um no caminho para dentro, as provas não têm onde se acumular e a dúvida sobre as próprias capacidades fica sem nada para discutir.
Esse padrão tem nome. Na análise do que é a síndrome do impostor ele aparece como uma das três fontes de dúvida e se chama desvalorização do sucesso. A segunda fonte é a sensação de fraude, ou seja, a suposição silenciosa de que o seu lugar pertence a alguém mais capaz. A terceira é acaso e circunstâncias, a tendência de atribuir os resultados ao momento, à sorte e às pessoas em volta; sobre isso há um texto à parte a respeito de por que o sucesso continua parecendo sorte.
À desvalorização pertence ainda uma peça discreta: a régua móvel. Uma meta cumprida não chega a ser contabilizada, porque a medida se desloca logo depois e a meta do ano passado é neste ano o ponto de partida. Sai daí alguém que faz um bom trabalho com a sensação permanente de que ainda não é bem isso.
O fenômeno foi descrito pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978, em pessoas com resultados indiscutíveis que mesmo assim se sentiam impostoras. Não se trata de diagnóstico nem de transtorno, e sim de um padrão de pensamento aprendido. O quanto ele é difundido não dá para dizer com precisão: uma revisão sistemática de Bravata e colegas, de 2020, passou por 62 estudos e encontrou estimativas de prevalência de 9 a 82 por cento, conforme quem e com o quê os autores perguntaram. O número sozinho diz pouco. Mais útil é saber de onde as dúvidas saem no seu caso; uma orientação aproximada dá o teste da síndrome do impostor, que leva alguns minutos.
Falta o outro lado, esquecido quase sempre quando se pensa em modéstia. Quem tira o elogio da mesa repetidamente para de recebê-lo. Não há maldade, apenas a economia da atenção: elogiar alguém que recusa toda vez é trabalho sem efeito. As pessoas desistem depois de algumas tentativas, e chega até você a confirmação aparente de que não havia o que elogiar.
Frases depois das quais sobra algo do elogio
A menor mudança possível tem uma palavra: obrigado. E depois silêncio. Qualquer continuação que apareça na sua cabeça, guarde para você. Nos primeiros dias você vai achar que está parecendo convencido; do outro lado, enquanto isso, não acontece nada, porque a pessoa ouve só uma resposta normal para uma frase normal.
Quando o silêncio fica insuportável, dá para preenchê-lo com algo que não apague o fato. Um agradecimento concreto por uma coisa concreta funciona bem: obrigada, a parte de riscos foi a que mais deu trabalho, então fico contente que esteja fácil de ler. Uma frase assim assume o trabalho feito, não uma fraqueza, e a conversa segue a partir dali.
O segundo hábito tem a ver com a régua. Depois de terminar alguma coisa, dê a si mesmo um dia em que a medida não pode se mexer e escreva o que precisou resolver para chegar ao resultado. Quantas versões, quantas horas, o que não deu certo de primeira. O trabalho pronto parece fácil inclusive para você, porque do resultado não se vê o caminho até ele, e o caminho escrito é a única coisa que derruba de forma confiável a tese da facilidade.
| Situação | A emenda que apaga o elogio | A frase depois da qual sobra algo |
|---|---|---|
| O chefe valoriza o seu material na reunião. | “Não foi nada, eu só juntei as coisas.” | “Obrigado. A parte de riscos foi a que mais deu trabalho.” |
| Um cliente escreve que está satisfeito com o resultado. | “Vocês tiveram sorte, acertamos o briefing por acaso.” | “Obrigada, fico contente. Vou repassar para o pessoal que coletou os dados.” |
| Uma amiga diz que o seu apartamento ficou ótimo. | “Imagina, você precisava ver o quarto.” | “Obrigada, deu trabalho e estou satisfeita com o resultado.” |
| O seu par reconhece como você segurou uma semana pesada. | “Não tinha escolha, qualquer um aguenta.” | “Obrigado por perceber. Foi uma semana bem cheia mesmo.” |
| Alguém elogia a sua apresentação diante de especialistas. | “Ainda bem que ninguém perguntou o essencial.” | “Obrigado. Passei a semana inteira me preparando.” |
| Na avaliação você ouve que bateu a meta. | “É, mas ano que vem vai ser mais difícil.” | “Fico contente. O que disso foi mais útil para vocês este ano?” |
A coluna da direita não deixa ninguém convencido. Ela segura a mesma informação da coluna do meio, só que não tira nada, e ainda dá ao outro um motivo para continuar a conversa. Vale observar a rapidez com que o pessoal em volta aprende isso: quem recebe uma resposta compreensível a um elogio elogia da próxima vez com mais vontade e detalhe.
A emenda sai mais cara por escrito. Um currículo, um perfil no LinkedIn ou o resumo de um projeto para a diretoria existem para informar sobre o trabalho feito, então uma formulação que diminui não é modéstia ali, é dado que falta. Quem escreve que participou de um projeto comunica outra coisa do que quem escreve que o conduziu, mesmo que os dois tenham feito o mesmo. A emenda escrita também não se conserta pelo tom de voz, porque o leitor do outro lado não tem tom nenhum.
Essas frases, no entanto, resolvem só uma das três fontes de dúvida. Quem sofre menos com o elogio do que com a própria sensação de não pertencer ao cargo precisa de outro caminho, e o apanhado de técnicas conforme a origem das dúvidas está no texto sobre como superar a síndrome do impostor.
Como elogiar de um jeito que dê para aceitar
A outra metade da questão não depende de quem recebe, e sim de quem elogia. O elogio genérico se recusa fácil porque não dá para conferir. Se você diz ao Diego que ele é bom, ele não tem em que se segurar e a emenda entra sozinha. Se diz que a tabela dele economizou vinte minutos de discussão na reunião, isso é um dado com o qual se discute muito pior.
Ajuda também não brigar com a recusa. Reações do tipo que nada, ficou ótimo empurram o outro para a defesa da própria modéstia e a coisa entra em looping. Mais eficaz é repetir o elogio uma vez com um detalhe concreto e deixar por isso mesmo. Melhor ainda é uma pergunta no lugar de uma afirmação: o que você fez para sair assim? A resposta só pode ser a descrição dos próprios passos.
Quem lidera tem ainda uma ferramenta que o colega não tem, que é a tarefa. Quem recebe uma missão mais exigente recebe junto a informação de como os outros o enxergam, e essa se recusa pior do que uma frase na reunião. Como é um retorno com o qual dá para trabalhar de verdade, um texto à parte destrincha em como dar e receber feedback.
Sete dias sem emenda
Tente uma coisa só durante uma semana. Depois de cada elogio você diz obrigado e mais nada. Quando a emenda escapar assim mesmo, anote no celular para quem você a disse e sobre o que era.
Depois de uma semana, dessas poucas linhas costuma sair um padrão que por dentro se enxerga mal. As emendas não se acumulam de forma uniforme: disparam com certas pessoas, em certas salas e em certo tipo de trabalho, enquanto em outros lugares a mesma pessoa aceita um elogio sem nem reparar. A Camila do começo contou dez em uma semana, nove em reuniões e uma em casa.

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