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Relacionamentos e comunicação

Como reacender um relacionamento longo quando a faísca se apaga

A faísca se apaga em todo relacionamento longo, e isso não é o fim. O que a psicologia dos relacionamentos diz sobre reacender o que esfriou entre vocês.

A faísca se apaga em quase todo relacionamento longo, e isso não é um defeito, e sim um dos achados mais bem documentados da psicologia dos relacionamentos. A paixão febril dos primeiros meses, quando o seu parceiro não conseguia entediar você nem por um segundo, tem prazo de validade limitado, por melhor que o relacionamento seja.

Então, quando alguns anos depois vocês sentam lado a lado sem nada para dizer, isso sozinho não significa que a escolha foi ruim. Significa que vocês chegaram onde todo casal chega. A pergunta não é como manter a faísca para sempre, já que essa resposta não existe, e sim com o que substituí-la e como acender uma nova de vez em quando.

O que está de fato acontecendo com vocês

Por trás dessa queda existe um mecanismo comum que os psicólogos chamam de adaptação hedônica. O cérebro se acostuma a qualquer coisa que se repete, até às coisas boas. O apartamento novo que você não cansava de admirar, o carro novo, o aumento de salário: em poucos meses, tudo vira óbvio. Com um parceiro não é diferente. Sonja Lyubomirsky mostrou que até os sentimentos mais fortes se curvam ao hábito, e um relacionamento entra em rotina sozinho depois de cerca de dois anos.

Isso não significa que o amor desaparece. Ele muda de estado. A psicóloga Elaine Hatfield descreveu dois tipos de amor que passam o bastão um ao outro. Primeiro vem o amor apaixonado, o tipo febril e obsessivo. A pesquisa diz que ele se dissipa relativamente rápido. O que vem depois é o amor companheiro, um vínculo mais calmo, construído sobre confiança, ternura e história compartilhada, e ele fica mais forte com o tempo.

A passagem do amor apaixonado ao amor companheiro não é deterioração, é amadurecimento. A cultura pop nos mostra só a primeira fase: os filmes terminam em um beijo, não no décimo quinto ano de casamento. Por isso, quando as borboletas vão embora, muita gente supõe que o amor acabou, quando ele apenas virou algo mais durável.

Por que “mais tempo juntos” não resolve sozinho

O primeiro reflexo quando as coisas começam a emperrar é lógico: passar mais tempo juntos. Mas o tempo por si só não conserta nada. Dá para sentar um ao lado do outro no sofá por três horas toda noite e sentir mais solidão do que quem mora sozinho.

A diferença está no que acontece durante esse tempo. Duas pessoas encarando cada uma a sua tela estão fisicamente juntas, mas não conectadas. O tempo de rotina, existir em paralelo no mesmo cômodo, quase não entra no livro-caixa emocional; o cérebro o arquiva como plano de fundo, não como proximidade.

Veja o caso de Rafael e Beatriz depois de doze anos. Jantar juntos toda noite, depois uma série, depois dormir. No papel, passam um monte de tempo juntos e, ainda assim, os dois chamam aquilo de morno. Quando começaram a jogar squash uma vez por semana, duas horas rindo um do outro, perdendo e provocando, algo se encaixou. Eles não acrescentaram horas à semana. Trocaram horas vazias por horas carregadas.

Lembre-se do começo. Vocês passavam menos horas juntos, mas elas eram carregadas: conversavam noite adentro e se importavam com o que o outro pensava. Aquilo não era tempo, era atenção, e a atenção é mais rara do que o tempo. A pergunta real não é se vocês passam tempo suficiente juntos, e sim se repararam um no outro. Como preencher o tempo compartilhado para que ele conte é o assunto do nosso perfil da linguagem do tempo compartilhado.

O que funciona de verdade: fazer coisas novas juntos

Em 2000, Arthur Aron e a sua equipe conduziram experimentos em que casais faziam juntos ou uma tarefa maçante ou uma tarefa nova e empolgante. Os que passaram por algo inédito e levemente carregado de adrenalina relataram maior satisfação logo depois do que os que fizeram algo banal. Alguns minutos bastaram.

Aron chama isso de modelo de autoexpansão. Estar apaixonado é, em boa medida, a sensação de crescer ao lado de alguém, descobrindo novos lados de si e do mundo. Quando vocês vivem algo novo juntos, essa sensação volta por um tempo, e o cérebro liga essa empolgação ao parceiro que está do lado.

A palavra “novo” é a que sustenta tudo aqui. Não precisa ser um salto de paraquedas. É qualquer coisa que arranque vocês da rotina de sempre, feita juntos pela primeira vez. Por exemplo:

  • Inscrevam-se em um curso em que os dois sejam iniciantes: cerâmica, tango, culinária tailandesa. Ser desajeitado em pé de igualdade aproxima.
  • Um bairro que vocês não conhecem. Vão sem plano e deixem que aquilo com que esbarrarem conduza o caminho.
  • Qualquer coisa que acelere o pulso: uma montanha-russa, uma parede de escalada, uma sala de fuga. Esse solavanco compartilhado de ativação é o que os experimentos de Aron mediram.
  • Uma viagem para um lugar onde nenhum dos dois esteve, mesmo que seja só um fim de semana a duas cidades de distância.

Note que o encontro no restaurante de sempre não está nessa lista. Um lugar favorito e conhecido é agradável, mas nada nele é novo, nem o cardápio. Reacender um relacionamento significa buscar o que vocês dois ainda não fizeram, não repetir em circuito o que já foi testado.

Volte às linguagens que vocês falavam no começo

Mais uma coisa se apaga ao longo dos anos, e quase ninguém repara. No começo, as pessoas costumam falar as cinco linguagens do afeto ao mesmo tempo: elogios, passeios juntos, mimos sem motivo, toque a cada oportunidade, ajuda para tudo. Com o tempo, o repertório se estreita a um canal, às vezes a nenhum.

A ideia das cinco linguagens do afeto, ou seja, palavras de reconhecimento, tempo compartilhado, pequenas lembranças, ajuda concreta e proximidade física, vem do terapeuta de casais norte-americano Gary Chapman. O modelo dele não é ciência exata, mas funciona bem como vocabulário para auditar o relacionamento. Passe pelos cinco canais e pergunte com que frequência vocês ainda falam cada um deles hoje. Qual secou primeiro? Para muitos casais são a proximidade física fora do quarto e as palavras de reconhecimento, as duas mais fáceis de adiar. De onde isso veio está exposto no nosso guia das cinco linguagens do afeto.

Ajuda não parar em si. Aquilo com que você expressava amor no começo pode não ser aquilo que o seu parceiro mais precisa receber. É aqui que os perfis dos casais de longa data se separam: você continua dando o que parece natural para você, enquanto o outro sente falta de outra coisa. O que fazer quando as linguagens não coincidem é o que cobrimos no nosso texto sobre linguagens do afeto diferentes.

Se vocês querem ver os dois perfis lado a lado, existe o Teste das linguagens do afeto. Ele tem quarenta perguntas, leva cerca de seis minutos e mede separadamente como você expressa afeto e como você precisa recebê-lo. Para casais de longa data, a comparação do casal é a parte mais valiosa: ela mostra onde as suas expressões e as suas necessidades se afastaram ao longo dos anos, muitas vezes exatamente onde a faísca se apagou em silêncio.

Os rituais funcionam melhor do que a espontaneidade

Existe uma noção romântica de que o amor de verdade deveria ser espontâneo e de que agendar a proximidade é de algum modo artificial. É o contrário. A espontaneidade raramente aparece na correria do trabalho, dos filhos e do cansaço; nunca existe o momento certo. O que mantém um relacionamento à tona é a regularidade.

John Gottman, que passou décadas estudando casais no seu “laboratório do amor”, fala em rituais de conexão. São momentos pequenos e repetidos com que dá para contar, porque acontecem sempre da mesma forma. Não são empolgantes, e é justamente por isso que duram. Eles formam o esqueleto que sustenta o relacionamento até nos dias em que ninguém está com vontade.

Alguns rituais que vale a pena montar:

  • O café da manhã juntos, dez minutos, antes de o dia começar e de alguém pegar o celular.
  • Uma caminhada curta depois do jantar, quando fica mais fácil falar do que o dia não deixou dizer.
  • Uma conversa semanal de acompanhamento: quinze minutos para dizer o que agradou, o que incomodou e o que vem na semana seguinte. Não é briga, é mais como manutenção de rotina.
  • Uma despedida e um reencontro mais longos do que um segundo: um abraço na porta que dura até os ombros dos dois relaxarem.

A mágica dos rituais é que eles tiram a decisão do caminho. Você não precisa reunir força de vontade para “fazer algo pelo relacionamento” toda vez. É simplesmente sexta-feira à noite, então é hora da caminhada, ponto final. O que se repete sozinho não depende do seu humor.

Quando já não é só rotina

Tudo o que está acima vale para um relacionamento que apenas juntou poeira. Mas tédio e distanciamento são coisas diferentes, e é justo nomear isso. Tédio significa que vocês ainda se amam e apenas ficaram sem energia, então basta atiçar o fogo. O distanciamento é mais fundo: vocês deixaram de se importar com o que o outro pensa, e uma noite juntos não mexe com nada.

Um sinal ainda mais sério foi descrito, de novo, por Gottman. Ele identificou quatro padrões de comunicação que chama de os quatro cavaleiros e que preveem um término com razoável confiabilidade: a crítica, a defensividade, o afastamento e, acima de tudo, o desprezo. Este último, a zombaria, o menosprezo e o sarcasmo dirigidos ao parceiro, é o mais destrutivo. Se ele aparece dentro do seu tédio, não é uma faísca apagada, são as fundações danificadas.

Um fim de semana fora ou um novo passatempo compartilhado não vai ajudar aqui. Uma comunicação que se deteriora pede outro tipo de trabalho, a começar pela forma como vocês dois conversam. Para isso temos um guia à parte sobre como melhorar a comunicação no relacionamento. E, se o desprezo ou uma frieza constante se mantêm há meses e vocês não conseguem sair disso, não há vergonha nenhuma em procurar um terapeuta de casal. Quanto antes, melhor, porque os casais entram em terapia, em média, anos depois de o problema começar.

Uma faísca apagada é um convite, não uma sentença. Um relacionamento que sobreviveu à paixão pode ficar mais firme do que aquela febre inicial, mas não sozinho. Escolha uma coisa deste texto para experimentar a dois nesta semana, de preferência algo que vocês nunca fizeram. Veja se alguma coisa muda. E, se mudar, não vai ter sido acaso.

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