“Encontre a sua paixão e você nunca mais vai trabalhar um dia sequer na vida.” Essa frase (atribuída erroneamente a Confúcio) soa maravilhosa. Em pôsteres motivacionais, no LinkedIn, em discursos de formatura. Só existe um problema: como conselho de carreira, ela não faz sentido. E está longe de ser o único mito no qual milhões de pessoas baseiam decisões de vida.
Mito nº 1: “encontre a sua paixão”
A psicóloga Carol Dweck, de Stanford, e colegas (O'Keefe, Dweck e Walton, 2018) publicaram um estudo que mostra que acreditar em “encontrar” uma paixão gera um efeito paradoxal: quem acredita que a paixão é algo que se descobre desiste dela mais rápido no momento em que esbarra no primeiro obstáculo. A lógica? “Se isto fosse mesmo a minha paixão, não seria tão difícil.”
A realidade funciona de outro jeito. A paixão raramente chega como um raio em céu azul. Ela cresce aos poucos, à medida que você melhora em alguma coisa, constrói competência e encontra sentido no que faz. Cal Newport chamou isso de “hipótese do artesão” no livro So Good They Can't Ignore You (2012): primeiro fique realmente bom em alguma coisa, e a paixão vem depois, como subproduto do domínio.
Isso não significa que os interesses sejam irrelevantes. Eles importam. Mas esperar por um “momento aha” mágico que revele o que você deve fazer pelo resto da vida é como esperar que a sua alma gêmea apareça em um ponto de ônibus. Pode acontecer. Mas procurar ativamente é muito mais eficaz.
Mito nº 2: “você tem que decidir até os dezoito”
Na maioria dos sistemas de ensino, pede-se que adolescentes escolham um curso superior ou uma trilha profissional enquanto ainda estão no ensino médio. Muitos pais e professores apresentam isso como uma decisão definitiva. “Escolha com sabedoria. Isso vai sustentar você pelo resto da vida.”
Mas os dados contam outra história. Estudos mostram de forma consistente que apenas cerca de 27% dos formados no ensino superior acabam trabalhando em uma área diretamente ligada ao diploma (Federal Reserve Bank of New York, 2020). Isso não precisa ser algo ruim. Pode significar apenas que, aos dezoito anos, você ainda não sabe o bastante sobre si e sobre o mundo do trabalho para fazer a escolha “certa”.
A psicologia do desenvolvimento confirma isso. O córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo planejamento, pela avaliação de riscos e pelas decisões complexas, só amadurece por completo por volta dos 25 anos (Johnson et al., 2009). Estamos pedindo que adolescentes tomem uma das decisões mais importantes da vida com um cérebro que ainda não está totalmente desenvolvido.
E se, em vez de pressionar os jovens por uma escolha definitiva, incentivássemos a experimentação? Áreas diferentes, trabalhos de meio período, estágios, voluntariado. Colecionar experiências, não compromissos. E, se você já é uma pessoa adulta que se arrepende da decisão tomada aos dezoito, saiba que mudanças de carreira aos 30, aos 40 e até aos 50 anos são muito mais comuns do que se imagina.
Mito nº 3: “mais dinheiro = mais felicidade”
Esse mito é traiçoeiro porque é parcialmente verdadeiro. A pesquisa do Nobel Daniel Kahneman com Angus Deaton (2010) mostrou que a renda de fato aumenta a satisfação com a vida, mas só até certo ponto. Nos Estados Unidos, esse limiar ficava em torno de 75.000 dólares por ano. Acima dele, cada dólar adicional tinha um efeito bem menor sobre o quanto a pessoa se sentia feliz no dia a dia.
Em 2023, Matthew Killingsworth, da Universidade da Pensilvânia, revisou em parte essa conclusão. O estudo dele mostrou que, para a maioria das pessoas, a felicidade continua subindo com a renda mesmo acima do limiar de Kahneman, só que bem mais devagar. E, para os 20% menos felizes da população, a conclusão original se manteve: depois de certo nível de renda, a felicidade estacionou.
O que isso significa para você? O dinheiro resolve os problemas que a falta de dinheiro cria. Mas não resolve os problemas que uma carreira mal escolhida cria. Se você ganha um salário alto em um trabalho que só deixa um vazio, e sente inveja de um colega que ganha metade e ama o que faz, o problema não é o dinheiro.
Mito nº 4: “uma carreira para a vida toda”
Os seus avós talvez tenham trabalhado a vida inteira em uma única empresa. Entraram ao terminar os estudos e ficaram até a aposentadoria. Esse modelo funcionava em um mundo em que os setores mudavam devagar e a lealdade era recompensada.
Esse mundo não existe mais. O Bureau of Labor Statistics informa que uma pessoa tem, em média, 12 empregos ao longo da vida. E isso conta apenas as trocas de empregador, não as mudanças de carreira. Segundo o McKinsey Global Institute (2017), a automação pode transformar a natureza do trabalho de 375 milhões de pessoas no mundo todo até 2030.
Pense nisto: as funções de gestor de redes sociais, designer de UX ou analista de dados mal existiam há 15 anos. E alguns trabalhos que hoje consideramos perfeitamente normais podem não ser necessários na forma atual daqui a 15 anos.
Em vez de planejar uma carreira para a vida toda, é mais realista pensar em “capítulos de carreira”. Cada um dura alguns anos, se apoia na experiência anterior e acrescenta novas habilidades. O fio que liga esses capítulos não precisa ser um setor ou um cargo. Podem ser os seus valores, os seus pontos fortes ou o jeito como você prefere trabalhar.
Mito nº 5: “emprego de prestígio = bom emprego”
Os pais querem que os filhos virem médicos, advogados ou engenheiros. Por quê? Porque soa impressionante nos encontros de família. Mas o prestígio de uma profissão tem muito pouco a ver com o fato de você ser feliz nela ou não.
Uma história comum: alguém estuda direito porque a família espera isso. Cinco anos de faculdade, dois anos de estágio, o exame da ordem. No dia em que recebe o registro, essa pessoa percebe que o direito nunca foi para ela. O que ela ama mesmo é ensinar. Vira professora do ensino médio, ganha um terço do que ganharia na advocacia e, pela primeira vez na vida, espera as manhãs de segunda-feira com vontade.
A pesquisa de Amy Wrzesniewski, em Yale (2003), constatou que as pessoas percebem o próprio trabalho de uma entre três maneiras: como emprego (um meio de receber um salário), como carreira (um caminho de ascensão) ou como chamado (um trabalho com sentido em si mesmo). Essa percepção não tem nada a ver com o prestígio do trabalho. Faxineiros de hospital que viam a própria atividade como um chamado estavam mais satisfeitos do que alguns médicos que viam a deles como mera carreira.
Mito nº 6: “eu me conheço bem o bastante para saber do que gosto”
Esse mito é o mais enganoso de todos porque soa como puro bom senso. Claro que você se conhece. Você passou a vida inteira na sua própria companhia.
Mas o autoconhecimento é surpreendentemente pouco confiável. O psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, resumiu décadas de pesquisa no livro Strangers to Ourselves (2002) e mostrou que as pessoas erram de forma sistemática ao avaliar o que vai deixá-las felizes, quais são as suas motivações verdadeiras e como vão reagir em diferentes situações.
Quantas vezes você teve certeza de que ia gostar de alguma coisa e descobriu justamente o contrário? Ou o inverso: começou algo “temporariamente” e aquilo acabou sendo a melhor decisão da sua vida?
É exatamente para isso que existem os testes de personalidade e as avaliações de carreira. Não para decidir por você, mas para revelar aspectos da sua personalidade que talvez você não perceba por conta própria. O teste RIASEC, por exemplo, mede seis tipos profissionais (realista, investigativo, artístico, social, empresarial e convencional), e as combinações entre eles indicam em que tipo de ambiente de trabalho você tem mais chance de florescer.
O que funciona no lugar dos mitos
Quando você larga os mitos, o que sobra? Alguns princípios que ficam menos bonitos em um pôster, mas são bem mais úteis na prática.
Experimente e avalie
Em vez de procurar “a” carreira certa, experimente coisas diferentes e preste atenção no que dá energia e no que consome energia. Anote quando você sente que está “em flow” no trabalho e quando fica olhando para o relógio. Os padrões aparecem rápido.
Desenvolva habilidades transferíveis
Algumas habilidades valem em qualquer profissão: comunicar com clareza, pensar de forma crítica, resolver problemas e colaborar. Investir nelas compensa mesmo que você mude de área. Aliás, sobretudo nesse caso.
Separe a sua identidade do seu trabalho
“Eu sou programador” é uma afirmação diferente de “eu trabalho como programador”. Quando você amarra a sua identidade à profissão de forma apertada demais, cada mudança parece a perda de uma parte de si. Quando separa as duas coisas, uma mudança de carreira vira um desafio logístico, não uma crise existencial.
Procure um trabalho “bom o bastante”, não um “perfeito”
O psicólogo Barry Schwartz descreveu o fenômeno dos “maximizadores” no livro The Paradox of Choice (2004). São pessoas que procuram sempre a melhor opção possível. Segundo a pesquisa dele, elas terminam menos satisfeitas do que os “satisfacientes”, as pessoas que buscam uma opção boa o bastante. O mesmo vale para as carreiras.
O trabalho perfeito não existe. Um trabalho que funciona para você em 80% dos aspectos é excelente. E, se você consegue crescer nele, os 20% restantes podem melhorar com o tempo.
Um último mito
“Já é tarde demais para mudar.” Não é. A pesquisa de Herminia Ibarra (2003) documenta dezenas de transições de carreira bem-sucedidas de pessoas na casa dos 40, dos 50 e dos 60 anos. A maioria não se arrepende de ter mudado. Só se arrepende de não ter mudado antes. E quase todas dizem a mesma coisa: “Eu queria que alguém tivesse me dito, aos dezoito anos, que eu não precisava encontrar uma resposta para a vida inteira, e sim descobrir aos poucos quem eu sou e o que me dá sentido.”

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