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Carreira e profissão

Conflito com o chefe: como discordar sem se prejudicar

Conflito com o chefe segue outras regras. Como preparar a conversa, discordar do seu chefe e sair dela sem piorar a sua posição no trabalho.

Thiago ficou meio ano calado. Quando o gestor jogou nas costas dele o terceiro projeto com a frase “a gente dá um jeito”, ele respondeu que claro, e passou a mandar e-mail até as onze da noite. A coisa estourou só na avaliação anual, quando escapou da boca dele que ali ninguém liga mesmo para quanto uma pessoa trabalha.

O gestor ficou sinceramente surpreso. E é aí que mora a parte mais ingrata da história: Thiago tinha razão no essencial, só que falou tão tarde e tão mal que aquilo virou prova sobre o temperamento dele em vez de informação sobre a divisão do trabalho.

Por que um conflito com o chefe é diferente das outras discordâncias

Com o vizinho, com um amigo, com quem você namora, a negociação acontece mais ou menos de igual para igual. Com o chefe, não. Entra na conta o desequilíbrio de poder: o outro lado decide a sua avaliação, o seu bônus, quais projetos você recebe e o que vai dizer sobre você quando alguém perguntar.

Por isso a aposta é assimétrica. Seu gestor arrisca vinte minutos desconfortáveis, e você tem a sensação de estar arriscando a renda, o financiamento e a paz dos próximos seis meses. Mesmo exagerada, essa sensação move quase todo mundo do mesmo jeito. Ou não abre a boca, ou abre no momento em que já está com o nervo à flor da pele, e assim assina embaixo da fama de pessoa difícil.

O silêncio tem um efeito colateral com que ninguém conta. O chefe lê aquilo como concordância. Se você passou seis meses dizendo que sim para cada demanda e de repente afirma que assim não dá, não soa como insatisfação amadurecida, soa como um surto isolado. A informação que sobe para a liderança também chega filtrada, então é bem possível que ele não saiba da sua sobrecarga.

Quando foi a última vez que você disse ao seu gestor alguma coisa que ele não queria ouvir? E como terminou? A resposta à segunda pergunta costuma definir quanto você vai engolir na próxima vez.

Quatro atritos que se repetem com mais frequência

Discordância na avaliação

Você recebe um feedback que, na sua leitura, não corresponde ao que entregou. O traiçoeiro é que a avaliação costuma ser uma mistura de fatos e impressões, mas é entregue como um bloco só. Se você rejeita o bloco inteiro, parece alguém que não aguenta crítica. Se aceita o bloco inteiro, confirma também a parte que era só impressão.

Ajuda separar em duas pilhas. Com a parte factual, trabalhe. Na parte de impressão, peça um exemplo: “O que faz você achar que me falta iniciativa?” Se a situação concreta não vier, você já disse bastante sem entrar em briga. E se vier, fica sabendo algo sobre a sua imagem no time que não imaginava.

Sobrecarga que dura meses

Pico pontual ninguém discute, isso faz parte do trabalho. O problema começa quando a exceção vira a agenda padrão. A maioria das pessoas só levanta a mão quando o sono já está desmoronando, ou seja, meses depois do ponto em que dava para resolver com calma.

Microgerenciamento

O gestor controla detalhes que não precisaria controlar, reescreve os seus e-mails, quer estar em cópia de tudo. Microgerenciamento quase sempre é sinal de ansiedade, não de desprezo. O chefe teme que algo estoure e sobre para ele. Essa distinção não faz você se sentir melhor, mas muda radicalmente o que vale a pena dizer na conversa.

A promessa que não aconteceu

Ficou combinado que, terminado o projeto, viria a promoção, o aumento ou pelo menos a passagem de parte da agenda para outra pessoa. O projeto acabou, a promessa ficou no ar. É justamente aqui que as pessoas se manifestam do jeito que joga contra elas: ou soltam uma ironia no corredor, ou esperam ter proposta de fora para usar como alavanca.

A preparação pesa mais do que a conversa em si

Larissa tinha o mesmo problema de Thiago. Antes de procurar a gestora, abriu a agenda e tirou dela os últimos quatro meses: quantos projetos rodaram em paralelo, quais chegaram sem combinado e em quais o prazo andou para trás. Saiu meia página, que ela imprimiu.

Na reunião, não usou aquilo como acusação. Colocou o papel na mesa e disse que queria decidir o que daquela lista deveria continuar até o fim do trimestre. A conversa durou vinte minutos e foi sem graça, porque as duas não discutiram se Larissa estava sobrecarregada, e sim qual projeto sairia dali. Os fatos tiraram a briga das sensações e a puseram no cronograma.

O que preparar antes:

  • três situações concretas com data, no lugar da sensação genérica de que “é sempre assim”
  • números, se você tiver: horas trabalhadas, projetos simultâneos, prazos empurrados
  • saber de antemão qual frase única o seu gestor deve levar da reunião
  • uma proposta de solução em duas versões, porque versão única é fácil demais de descartar
  • lembrar o que você já tentou resolver por conta própria
  • meia hora numa semana mais tranquila, não cinco minutos antes da reunião de equipe ou no dia do fechamento

O timing é o item mais subestimado de todos. Conversa puxada sob estresse quase sempre descamba para a defesa, porque gente cansada escuta crítica até onde não tem nenhuma. Se você não consegue adivinhar quando o chefe está com a cabeça livre, pergunte direto: “Quero conversar sobre a divisão do trabalho, quando fica bom para você?” Essa frase já entrega o assunto, então o outro lado não fica imaginando cenários piores.

Como discordar do seu chefe sem piorar a sua posição

A regra básica é chata e funciona: discordância é assunto de conversa reservada. Uma divergência pública diante do time coloca o gestor entre ceder e manter a autoridade, e nesse duelo quem perde é você, mesmo tendo razão. Na frente dos outros, cabe fazer uma pergunta, não anunciar um veredito.

A estrutura que costuma dar certo tem três partes. Primeiro você descreve o problema do jeito mais concreto possível. Depois diz qual é o impacto no trabalho, não nos seus nervos. E por último apresenta uma proposta do que tentaria de outro jeito. A diferença entre “assim não tem como trabalhar” e “quando a demanda chega quinta à tarde, não sobra tempo de revisão e o erro só aparece na mão do cliente” é a conversa inteira.

Fale do trabalho, não do temperamento do chefe. No instante em que sai um “você é controlador demais”, o debate objetivo acaba e começa a defesa da identidade. Já a frase “nessa parte eu preciso decidir sozinho, senão não entrego no prazo” mira exatamente no mesmo fenômeno sem carimbar ninguém.

Perguntas funcionam melhor do que acusações, porque deixam espaço para uma informação que você não tem. “O que levou você a dar esse projeto para a Larissa?” pode trazer uma resposta com que você não contava. “Por que de novo foi para a Larissa?” não traz nada além de um silêncio tenso.

Duas coisas ficam para o fim da fila. A primeira é o ultimato, porque depois dele não existe marcha à ré e o outro lado às vezes escolhe a opção “então vai embora” sem nem querer aquilo. A segunda é o e-mail quilométrico sobre tudo o que está errado. Por escrito vão bem fatos e resumos, mas discordância em texto soa sempre um degrau mais dura do que você pretendia, e chega no pior momento do dia.

Vale saber para que lado você escorrega sozinho quando o clima esquenta. Segundo o modelo de dupla preocupação descrito por Blake e Mouton, as pessoas variam em quanto defendem o próprio interesse e em quanto cuidam da relação com o outro lado, e desses dois eixos nascem cinco estilos de resolução de conflitos. Quem tende a evitar precisa literalmente marcar a conversa na agenda. Quem tende a competir faz melhor preparando uma frase a mais sobre o que está disposto a abrir mão. Antes de uma conversa difícil, isso é bom de ter na mão, e para isso serve o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e o resultado traz o estilo primário e o secundário mais a sua posição no mapa assertividade por cooperação.

Por que sai mais barato para o time quando as pessoas falam

Amy Edmondson estudou equipes hospitalares nos anos 90 procurando a relação entre a qualidade do time e o número de erros. Esperava que os times melhores reportassem menos erros. Os dados mostraram o contrário: as equipes mais bem avaliadas, com a melhor liderança, reportavam mais.

A explicação não era que elas errassem com mais frequência. As pessoas ali não tinham medo de assumir o erro, então o erro era tratado. Nos times onde se calava, o erro não sumia, só ficava escondido e era resolvido às escondidas ou nunca. Foi daí que Edmondson tirou o conceito de segurança psicológica, a percepção compartilhada de que naquele grupo dá para dizer uma coisa desagradável sem pagar por isso.

Sua relação com o gestor é uma versão de duas pessoas do mesmo fenômeno. Um chefe que nunca ouve discordância não tem um time tranquilo. Tem um time que parou de contar a verdade para ele, e normalmente ele descobre isso pelo resultado. Vale lembrar disso no momento em que a sua cabeça insiste que falar é atrevimento: não é reclamação, é informação que ele deveria ter.

Dá para testar em passos pequenos. Uma vez você diz em voz alta uma discordância leve em algo sem importância e observa o que acontece. A reação ensina mais do que qualquer teoria sobre comunicação e mostra quanto espaço você tem. Os conflitos na equipe permitem o mesmo tipo de treino, com risco menor e custo mais baixo.

Quando nada muda depois da conversa

Uma conversa em geral não basta, e isso é normal. Pior é a situação em que acontecem três e nada se move. Nessa hora, faz sentido parar de apostar na memória dos dois lados.

  1. Depois da reunião, mande um resumo curto por e-mail: obrigado pelo tempo, meu entendimento é este, até o fim do mês vamos tentar de outro jeito. Não é ameaça, é rastro escrito.
  2. O acordo precisa incluir um critério e uma data. Sem os dois, o “vamos pensar nisso” evapora em duas semanas.
  3. Se nem a segunda tentativa levar a lugar nenhum, considere escalar um nível acima ou para o RH. É passo extremo, feito com calma, com fatos e sem emoção.

Na escalada, vale ser realista. O RH protege a empresa em primeiro lugar, não você, e o seu gestor vai ficar sabendo. Ainda assim, às vezes é a escolha certa, principalmente quando o assunto ultrapassa uma divergência comum, como segurança no trabalho ou comportamento dirigido à sua pessoa. Aí não se trata mais de estilo de comunicação, e vale falar com quem entende do tema.

Existe também uma fronteira entre persistência e autossabotagem. Persistência é você voltar ao assunto de forma objetiva, repetidamente, e alguma coisa se mexer aos poucos. Autossabotagem é você voltar sempre, nada mudar, e a única coisa que se move ser a sua saúde e o seu sono. Ir embora, nesse ponto, é solução legítima, não derrota na discussão. Pesquisas mostram sempre de novo que conflitos no trabalho consomem uma fatia enorme do tempo dos gestores, e parte deles só se resolve quando duas pessoas deixam de se encontrar todo dia.

Thiago acabou pedindo a reunião por conta própria, com os projetos listados e uma frase preparada. Dois projetos o gestor deixou com ele, um passou para outra área e no quarto disse na hora que não tinha como. Thiago não saiu dali animado, saiu cansado. Só que a divergência seguinte não começou do zero, porque os dois já sabiam sobre o que dava para conversar entre eles.

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