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Personalidade e autoconhecimento

Os quatro temperamentos - de Hipócrates à psicologia moderna

Sanguíneo, colérico, melancólico, fleumático. O que significam os tipos de temperamento e como eles se relacionam com a ciência moderna da personalidade.

Imagine quatro pessoas em uma fila longa no correio. Uma se mexe de impaciência e reclama alto da lentidão do atendimento. Outra colocou um podcast e quase não percebe a espera. Uma terceira se pergunta se não veio no dia errado, com um nó de preocupação apertando o peito. E a quarta puxa conversa com a mulher ao lado e, em cinco minutos, as duas estão rindo. Essas quatro reações correspondem aos quatro temperamentos que Hipócrates descreveu há mais de dois mil anos.

O teste de personalidade mais antigo do mundo

O médico grego Hipócrates (460-370 a.C.) propôs que o comportamento humano é moldado por quatro fluidos corporais: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. O fluido dominante determinaria a maneira de agir de cada pessoa. Vários séculos depois, o médico romano Galeno (129-216 d.C.) ampliou o conceito e definiu quatro temperamentos: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático.

Soa arcaico? Sem dúvida. Ninguém hoje acredita que a personalidade dependa da proporção de fluidos no corpo. Mas a observação por trás disso, a de que as pessoas reagem de formas muito diferentes às mesmas situações e a de que essas diferenças permanecem relativamente estáveis ao longo do tempo, era surpreendentemente certeira. Certeira o bastante para que os quatro temperamentos continuem reaparecendo na psicologia até hoje, de uma forma ou de outra.

Sanguíneo: quem ilumina o ambiente

As pessoas sanguíneas são sociáveis, otimistas e cheias de energia. Entram em uma sala e imediatamente se conectam com alguém. Adoram variedade, novas experiências e espontaneidade.

Os pontos fortes delas são contagiantes. Elas sabem motivar, inspirar e dar energia a uma equipe. São comunicadoras natas. Em uma reunião, são as que disparam dez ideias por minuto.

E o outro lado? A superficialidade. Uma pessoa sanguínea pode começar dez projetos e não terminar nenhum. Empolga-se com facilidade, mas a empolgação passa na mesma velocidade. Tende a prometer mais do que entrega, não por má-fé, mas por acreditar de verdade que “de algum jeito vai dar certo”.

Um exemplo real: Camila trabalhava como gestora de eventos, e o temperamento sanguíneo dela caía como uma luva. Organizar eventos, conhecer gente nova, cada dia diferente. Quando foi promovida para uma função em que passava a maior parte do dia enterrada em planilhas e relatórios, pediu demissão em três meses. Não porque não desse conta do trabalho. Porque aquilo estava sugando a vida dela.

Colérico: quem vai atrás do objetivo

As pessoas coléricas são enérgicas, decididas e diretas. Quando algo anda devagar demais, elas aceleram. Quando encontram um obstáculo, ou pulam por cima dele, ou o removem. Muitas vezes de forma literal.

Os tipos coléricos são líderes natos. Brilham em crises, porque não entram em pânico e agem rápido. São competitivos e ambiciosos. Se você precisa de alguém que faça as coisas acontecerem sob pressão, está procurando uma pessoa colérica.

Mas a franqueza tem um preço. As pessoas coléricas podem ser intolerantes com colegas mais lentos. Às vezes atropelam os outros, porque decidir sozinhas parece mais eficiente do que esperar por consenso. E a comunicação seca delas pode soar grosseira, mesmo quando não há nenhuma intenção de ofender.

Vale registrar que os tipos coléricos costumam ser excelentes empreendedores. Um estudo de Zhao e Seibert (2006) comparou os perfis de personalidade de empreendedores e gestores. Os pesquisadores descobriram que quem empreende pontua mais alto em conscienciosidade e mais baixo em amabilidade, uma combinação que se encaixa quase perfeitamente no tipo colérico clássico.

Melancólico: quem enxerga os detalhes

Se a pessoa sanguínea vê o quadro geral e a colérica vê o caminho reto até o objetivo, a melancólica vê todos os detalhes, os problemas em potencial e as nuances que escapam a todo mundo.

As pessoas melancólicas são reflexivas, analíticas e meticulosas. O trabalho delas é bem pensado e de alta qualidade. São sensíveis à arte, à música e à beleza. Muitas vezes têm um mundo interior rico, ao qual poucas pessoas têm acesso.

Mas tendem a um perfeccionismo que pode paralisar. Enquanto a pessoa sanguínea entrega no prazo um projeto “bom o suficiente”, a melancólica continua mexendo nele até o último instante possível, porque “ainda não está perfeito”. E a sensibilidade que a torna tão perceptiva também a deixa mais vulnerável à crítica e ao estresse.

Dá para reconhecer a pessoa melancólica em uma equipe porque é a primeira a apontar um risco que todos os outros deixaram passar. Isso pode ser incômodo, mas muitas vezes salva o projeto.

Fleumático: quem mantém a calma

As pessoas fleumáticas são calmas, constantes e confiáveis. São a âncora em um mar revolto. Enquanto os outros temperamentos ao redor explodem, decidem e analisam, a pessoa fleumática faz o trabalho dela em silêncio.

A força delas está na constância. Uma pessoa fleumática não precisa de drama nem de adrenalina. Consegue trabalhar em tarefas rotineiras sem perder a motivação. É diplomática, não julga e tem uma capacidade natural de desarmar situações tensas.

E a fraqueza? A passividade. Uma pessoa fleumática pode adiar decisões, evitar o conflito a ponto de deixar os problemas crescerem como uma bola de neve e se contentar com um resultado “bom o suficiente” mesmo quando poderia conquistar mais. Pode parecer indiferente mesmo quando se importa de verdade. Ela só não demonstra.

Você tem um colega que nunca parece estressado e sempre cumpre o prazo? Provavelmente é uma pessoa fleumática. Pergunte a ele como está se sentindo de verdade. A profundidade da resposta pode surpreender você.

Ninguém é um tipo puro

Aqui vai um ponto importante que Galeno não tratou: uma pessoa puramente sanguínea, colérica, melancólica ou fleumática basicamente não existe. A maioria das pessoas é uma mistura de dois ou três temperamentos, com um deles dominante.

Essa é, na verdade, uma das razões pelas quais o velho sistema de quatro tipos acabou deixando de ser suficiente para a psicologia. O mundo não é simples o bastante para caber em quatro caixas. Mas isso não quer dizer que o conceito inteiro seja inútil.

Do temperamento ao Big Five: o que diz a ciência moderna

Quando pesquisadores como Lewis Goldberg, Paul Costa e Robert McCrae desenvolveram o modelo Big Five (também conhecido como modelo dos cinco fatores da personalidade) nos anos 1980 e 1990, eles não partiram de teorias da Grécia antiga. Analisaram milhares de adjetivos que descrevem a personalidade e identificaram estatisticamente cinco dimensões fundamentais: abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo.

Ainda assim, existem paralelos notáveis entre os antigos temperamentos e o Big Five:

TemperamentoEquivalente no Big Five
SanguíneoExtroversão alta, neuroticismo baixo, abertura mais elevada
ColéricoAmabilidade baixa, neuroticismo baixo, extroversão mais elevada
MelancólicoNeuroticismo alto, extroversão baixa, conscienciosidade mais elevada
FleumáticoExtroversão baixa, neuroticismo baixo, amabilidade mais elevada

Um estudo de Strelau e Zawadzki (1995) testou diretamente a relação entre os temperamentos clássicos e o Big Five. As correlações foram fortes e estatisticamente significativas. Em outras palavras, Hipócrates e Galeno captaram por intuição algo que a psicometria moderna depois confirmou com ferramentas bem mais precisas.

A diferença está na precisão. Enquanto o temperamento coloca você em uma de quatro categorias, o Big Five mostra a sua posição em cinco escalas independentes. O resultado é um mapa muito mais detalhado de quem você é.

Por que os temperamentos ainda nos fascinam

Se tivéssemos apenas o Big Five, isso bastaria? Do ponto de vista científico, sim. Mas os temperamentos sobreviveram dois mil anos por um bom motivo: são fáceis de entender. Diga “ele é um colérico clássico” e todo mundo imagina na hora um tipo específico de comportamento. Tente a mesma coisa com “extroversão alta, amabilidade baixa, neuroticismo baixo” e você perde a atenção de quase todo mundo na sala.

Os temperamentos funcionam como uma abreviação. Um esboço rápido que não substitui um mapa detalhado, mas ajuda você a se situar.

Há também a questão fascinante do temperamento em relação à personalidade: o que é inato e o que é aprendido? O temperamento foi tradicionalmente entendido como a base biológica, aquilo com que a pessoa nasce. A personalidade, como conceito mais amplo, inclui também a experiência, a educação e a cultura. Uma meta-análise de Rothbart e Bates (2006) confirmou que traços de temperamento visíveis em bebês (reatividade, autorregulação, emocionalidade positiva e negativa) têm mesmo correlação com traços de personalidade na vida adulta.

Ou seja: você não é apenas o produto da forma como foi criado. Mas também não é puramente o produto dos seus genes. Você é uma combinação dos dois, e é exatamente isso que torna cada pessoa única.

Temperamento e carreira

Voltemos a Camila, da agência de eventos. A história dela ilustra algo que a pesquisa confirma repetidas vezes: o encaixe entre o seu temperamento (ou a sua personalidade) e o seu ambiente de trabalho tem grande efeito sobre a satisfação profissional.

  • Os tipos sanguíneos florescem em funções dinâmicas e voltadas para pessoas: marketing, comunicação, vendas, áreas criativas. A rotina mata a motivação deles.
  • Os tipos coléricos precisam de autonomia e de desafio: empreendedorismo, gestão, resposta a crises, direito. Um ambiente lento demais os frustra.
  • Os tipos melancólicos se destacam em trabalhos que exigem precisão e profundidade: pesquisa, programação, auditoria, arte, ciência. Precisam de tempo de concentração em silêncio.
  • Os tipos fleumáticos se dão bem em funções que pedem paciência e constância: administração, aconselhamento, medicina, diplomacia. Caos demais os esgota.

Claro que nada disso é regra absoluta. Uma pessoa sanguínea pode ser uma excelente programadora se trabalhar em equipe e pegar projetos variados. Uma pessoa melancólica pode ser uma ótima gestora se liderar uma equipe de especialistas e o trabalho envolver decisões analíticas.

Qual é o seu temperamento?

Talvez você tenha se reconhecido de cara em uma das descrições. Talvez fique em dúvida entre duas. As duas coisas são perfeitamente normais e, como já dissemos, a maioria das pessoas é uma mistura.

Se você quiser ir além dos quatro tipos e descobrir o seu perfil de personalidade com precisão científica, experimente o teste de personalidade Big Five. Ele mostra onde você se situa em cinco dimensões independentes que a psicologia moderna considera a descrição mais confiável da personalidade. E você pode descobrir que ele confirma aquilo que os bons e velhos temperamentos já vinham sugerindo há anos.

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