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Personalidade e autoconhecimento

Qual é o meu tipo de personalidade - guia completo

Descubra o seu tipo de personalidade: panorama dos 16 tipos, do Big Five, do RIASEC e dos temperamentos, e o impacto do tipo na carreira e nas relações.

Imagine a cena: você está em uma entrevista de emprego e quem recruta pergunta: “Como você se descreveria?”. A maioria das pessoas começa a disparar características: sou uma pessoa confiável, criativa, boa de trabalho em equipe. Mas, sinceramente: você sabe mesmo qual é o seu tipo de personalidade? E o que isso significa, afinal?

“Qual é o meu tipo de personalidade” é uma das perguntas de psicologia mais buscadas na internet. E não é por acaso. Entender o seu tipo de personalidade pode moldar a forma como você escolhe uma profissão, como se comunica com o parceiro e por que certas situações sempre mexem com você.

O que é exatamente um “tipo de personalidade”?

Um tipo de personalidade é uma descrição simplificada de como você pensa, sente e se comporta em diferentes situações. Não é um rótulo que define você para o resto da vida. Pense nele mais como um mapa aproximado da sua estrutura interna.

A psicologia trabalha com a ideia de tipos de personalidade desde a Antiguidade. Hipócrates, no século IV a.C., dividia as pessoas em sanguíneos, coléricos, melancólicos e fleumáticos conforme o “humor corporal” dominante. Hoje isso nos faz sorrir, mas a ideia central sobreviveu: as pessoas diferem de forma sistemática na maneira como reagem ao mundo ao redor.

A psicologia moderna oferece ferramentas bem mais sofisticadas. Em vez de quatro categorias, ela trabalha com dimensões, escalas e perfis. E é aqui que a coisa fica interessante, porque existem vários sistemas importantes e cada um olha para a personalidade de um ângulo diferente.

Quatro grandes sistemas de tipos de personalidade

Os 16 tipos de Isabel Myers e Katharine Briggs

O modelo dos 16 tipos de personalidade (conhecido na literatura como MBTI) é provavelmente a tipologia de personalidade mais famosa do mundo. Katharine Briggs e sua filha Isabel Myers o desenvolveram ao longo dos anos 1940, a partir da teoria de Carl Jung. O sistema divide a personalidade em quatro dimensões:

DimensãoPolo APolo BO que mede
EnergiaExtroversão (E)Introversão (I)De onde você tira energia
Captação de informaçõesSensação (S)Intuição (N)Como você processa as informações
Tomada de decisãoPensamento (T)Sentimento (F)Como você decide
Estilo de vidaJulgamento (J)Percepção (P)Como você organiza o seu tempo

A combinação dessas dimensões gera 16 tipos de personalidade, do INTJ (o visionário estratégico) ao ESFP (a pessoa espontânea que anima qualquer grupo). Cada tipo tem o seu estilo característico de pensar, de se comunicar e de resolver problemas.

O modelo tem críticos. A psicologia acadêmica reprova nele o hábito de colocar as pessoas em caixas em vez de situá-las em escalas contínuas e o fato de, às vezes, produzir resultados diferentes quando o teste é repetido. Ainda assim, ele continua enormemente popular: milhões de pessoas o respondem todo ano no mundo inteiro. E tem um benefício inegável: obriga você a pensar em como percebe o mundo e a reconhecer que as outras pessoas podem fazer isso de um jeito bem diferente.

Big Five: cinco dimensões em vez de caixas

Se o modelo dos 16 tipos é a estrela pop da psicologia da personalidade, o Big Five é a sua espinha dorsal científica. O modelo dos cinco fatores (muitas vezes chamado de OCEAN) surgiu nos anos 1980 e 1990 com o trabalho de pesquisadores como Lewis Goldberg, Paul Costa e Robert McCrae. Ao contrário dos 16 tipos, ele não coloca você em uma categoria única. Em vez disso, mede a sua posição em cinco escalas independentes:

  • Abertura - o quanto você busca novas experiências e ideias
  • Conscienciosidade - o quanto você trabalha de forma organizada e disciplinada
  • Extroversão - de quanto estímulo social você precisa
  • Amabilidade - o quanto você valoriza a harmonia com os outros
  • Neuroticismo - com que intensidade você vive as emoções negativas

A vantagem do Big Five é que não existem resultados “bons” ou “ruins”. Uma conscienciosidade baixa não significa preguiça: talvez você simplesmente funcione melhor em um ambiente flexível do que sob um plano rígido. Um neuroticismo alto não é sinal de fraqueza: pode significar que você percebe mais e é mais sensível aos sinais ao redor.

RIASEC: a personalidade encontra a carreira

Enquanto os 16 tipos e o Big Five descrevem a personalidade em termos gerais, o RIASEC (também conhecido como a teoria da escolha profissional de John Holland) a liga diretamente ao mundo do trabalho. O psicólogo americano John Holland propôs, nos anos 1960, que tanto as pessoas quanto os ambientes de trabalho podem ser divididos em seis tipos:

  • Realista - trabalho prático, com as mãos
  • Investigativo - pesquisa e análise
  • Artístico - atividades criativas
  • Social - trabalho com pessoas e ajuda
  • Empresarial - liderança e negócios
  • Convencional - administração e sistemas

A abordagem de Holland é de uma simplicidade elegante: quando o seu tipo de personalidade combina com o seu ambiente de trabalho, a chance de satisfação e de sucesso é maior. Uma pesquisa de 2018 (Nauta, Journal of Career Assessment) confirmou que o encaixe entre personalidade e ambiente tem mesmo correlação com a satisfação no trabalho, embora a relação não seja tão direta quanto Holland supunha no início.

Temperamentos: a classificação mais antiga

Os temperamentos hipocráticos (sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático) não têm sustentação científica na sua forma original. Não existem “humores corporais”. Ainda assim, o conceito sobreviveu por milhares de anos, e isso não é por acaso.

Pesquisadores modernos como Hans Eysenck mostraram que por trás dos temperamentos existem diferenças biológicas reais no sistema nervoso. A vivacidade do sanguíneo corresponde, em termos do Big Five, a extroversão alta e neuroticismo baixo. A tendência do melancólico a remoer as coisas se sobrepõe a abertura alta e neuroticismo elevado. Os quatro temperamentos são uma simplificação grosseira, mas, para uma leitura rápida dos tipos humanos, ainda funcionam surpreendentemente bem.

Como descobrir o seu tipo de personalidade

Existem três caminhos para descobrir o seu tipo de personalidade. Cada um tem as suas armadilhas.

Autorreflexão. Você se pergunta: tenho mais traços de introversão ou de extroversão? Decido com a cabeça ou com o coração? O problema é que tendemos a nos ver como gostaríamos de ser, não como realmente somos. O psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, dedicou a carreira ao estudo da previsão afetiva e concluiu que o autoconhecimento é bem mais difícil do que a maioria das pessoas imagina.

Feedback de outras pessoas. Peça a cinco pessoas que conhecem você bem para descrever você em três palavras. O resultado costuma abrir os olhos. Muitas vezes aparecem padrões que você não enxerga: por exemplo, todo mundo descreve você como “alguém tranquilo”, enquanto você se considera uma pessoa expansiva.

Testes de personalidade. Os questionários padronizados são o caminho mais confiável, porque comparam as suas respostas com as de milhares de outras pessoas. Se você quiser encontrar o seu tipo dentro desse modelo, experimente o teste dos 16 tipos de personalidade: leva cerca de 10 minutos e o resultado aparece na hora.

A abordagem ideal? Faça um teste, leia a descrição do seu tipo e depois pergunte às pessoas próximas se elas reconhecem você ali. Onde as três fontes concordarem, você provavelmente tem um retrato bastante preciso.

Por que o seu tipo de personalidade importa

Carreira e escolha profissional

Mariana estudou direito porque “é uma aposta segura”. Depois de três anos em um escritório de advocacia, estava exausta e infeliz. O trabalho exigia confronto constante, negociação e pressão social, e Mariana era uma mulher introvertida, de raciocínio analítico, que florescia no trabalho independente com dados. Quando passou para uma vaga de analista de compliance em uma fintech, a satisfação dela mudou de patamar da noite para o dia. O salário era menor, mas o sentido do trabalho era incomparavelmente maior.

Não é um caso isolado. A pesquisa de Amy Wrzesniewski, em Yale (2003), mostrou que quem vive o trabalho como um “chamado” (e não apenas como um emprego) fica significativamente mais satisfeito, e a chave está justamente no alinhamento entre personalidade e ambiente de trabalho.

Na prática: se a sua pontuação em Abertura (Big Five) for alta, o trabalho rotineiro provavelmente vai drenar você. Se você for um tipo Social (RIASEC), trabalhar em isolamento atrás de um computador não será o seu habitat natural.

Relacionamentos e comunicação

Conhecer os tipos de personalidade muda a dinâmica dos relacionamentos. Não porque você deva procurar um parceiro com o tipo “certo”: a pesquisa não sustenta isso. E sim porque você começa a entender por que a outra pessoa se comporta de um jeito diferente do seu.

Quando você sabe que o seu parceiro tem introversão e conscienciosidade alta, deixa de levar para o lado pessoal o fato de ele precisar de uma hora de silêncio depois do trabalho em vez de conversa. Quando você sabe que uma colega é um tipo Sentimento (o F do código de quatro letras), entende por que ela reage com sensibilidade a uma crítica direta, mesmo quando a crítica era factual.

Não se trata de justificar comportamentos. Trata-se de ter expectativas mais realistas sobre as pessoas ao seu redor.

Erros comuns na hora de determinar o tipo de personalidade

Um alerta: o seu tipo de personalidade não é desculpa. “Sou uma pessoa introvertida, então não vou às reuniões” não cola. “Sou um tipo T, então não me importo com emoções” também não. O seu tipo descreve as suas tendências naturais, não os seus limites.

Outro erro frequente é tratar o resultado de um único teste como veredito final. A personalidade é mais complexa do que um código de quatro letras. Faça vários testes de sistemas diferentes. Compare o seu resultado dos 16 tipos com o Big Five, olhe o seu perfil RIASEC. Só a sobreposição vai dar um retrato realmente útil.

E, por fim: a personalidade muda ao longo da vida. Um estudo longitudinal de Brent Roberts e Daniel Mroczek (2008) mostrou que a conscienciosidade e a amabilidade costumam aumentar com a idade, enquanto o neuroticismo diminui. Um teste feito aos dezoito anos pode não valer aos trinta. Vale a pena repetir de tempos em tempos.

Qual sistema escolher?

Depende do que você quer descobrir:

O que você precisaMelhor sistemaPor quê
Entender o seu estilo de pensamento16 tiposDescrições acessíveis e claras dos 16 tipos
Um perfil cientificamente rigorosoBig FiveO modelo de pesquisa mais reconhecido
Encontrar uma profissão adequadaRIASECLiga diretamente a personalidade aos ambientes de trabalho
Uma orientação rápidaTemperamentosClassificação simples e intuitiva

A melhor resposta é: não escolha apenas um. Cada sistema ilumina um lado diferente da sua personalidade. Os 16 tipos dizem como você pensa. O Big Five mostra onde você se situa em cinco escalas fundamentais. O RIASEC liga a personalidade a profissões concretas. Juntos, eles formam um retrato bem mais completo do que qualquer um deles sozinho.

E o mais importante: nenhum teste vai dizer quem você deveria ser. Ele diz quem você provavelmente é. O que fazer com essa informação é decisão sua.

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