Lucas passou dez anos como analista financeiro. O salário estava acima da média, a empresa era estável e os colegas eram agradáveis. Mesmo assim, toda noite ele voltava para casa com a sensação de ter desperdiçado o dia inteiro. “Eu estou fazendo as coisas do jeito certo”, disse à esposa em uma noite. “Mas será que estou fazendo as coisas certas?” Essa pergunta o incomodou durante meses até ele perceber do que se tratava de verdade. Ele não procurava um salário melhor nem um cargo mais alto. Procurava sentido.
Por que sentido no trabalho não é luxo
Amy Wrzesniewski, professora da Wharton School, estudou faxineiros de hospital em 1997. Todos tinham o mesmo trabalho, o mesmo salário e as mesmas condições. Mesmo assim, a experiência de cada grupo era radicalmente diferente. Um grupo via o trabalho como um mal necessário, apenas um meio de receber um salário. Um segundo grupo o via como uma carreira com espaço para subir. E o terceiro? Via a limpeza como um chamado. Ajudava os pacientes a se sentirem mais confortáveis, reorganizava os quadros nas paredes, conversava com os visitantes. Fazia exatamente as mesmas coisas que o primeiro grupo, mas vivia tudo de um jeito completamente diferente.
Wrzesniewski chamou essas três abordagens de orientação para o trabalho: o trabalho como emprego, como carreira ou como chamado. E aqui está a parte surpreendente: o grupo ao qual você pertence não é determinado principalmente pelo tipo de trabalho que faz, mas por como você o percebe. Uma cirurgiã pode ver a própria atividade como puro emprego. Um faxineiro pode vê-la como chamado.
Segundo uma meta-análise de Allan et al. (2019), publicada no Journal of Vocational Behavior, as pessoas que percebem o próprio trabalho como algo com sentido mostram mais engajamento, menos burnout e maior satisfação com a vida. Esses efeitos foram mais fortes do que o efeito do salário.
Viktor Frankl e a vontade de sentido
Quando o psiquiatra vienense Viktor Frankl sobreviveu a três anos em campos de concentração, trouxe de volta uma percepção que mudou a psicologia moderna. Ele a registrou em Em busca de sentido (1946), um livro que ditou em nove dias e que já vendeu mais de 16 milhões de exemplares.
A ideia central de Frankl: a motivação humana mais profunda não é a busca do prazer (Freud) nem a busca do poder (Adler), e sim a vontade de sentido. Uma pessoa consegue suportar quase qualquer sofrimento se enxerga sentido nele. E, no caminho inverso, alguém pode ter tudo o que sempre quis e ainda assim se sentir vazio se o sentido não estiver ali.
Frankl chamou esse estado de vazio existencial. Descreveu-o como uma sensação de vazio interno e tédio, mascarada pela busca de dinheiro, de ascensão profissional ou de entretenimento. Isso soa familiar? Segundo a logoterapia de Frankl, o sentido não pode ser fabricado nem forçado. Mas pode ser encontrado, em três domínios:
- Valores criativos: o que você traz ao mundo (trabalho, projetos, criação)
- Valores de vivência: o que você recebe do mundo (relacionamentos, beleza, natureza)
- Valores de atitude: como você encara o sofrimento que não pode ser mudado
Para o contexto do trabalho, os valores criativos são os mais relevantes. Frankl defendia que o trabalho ganha sentido quando você o usa para realizar algo que vai além de si. Não necessariamente salvar vidas ou lutar pela paz mundial. Basta que o seu trabalho ajude alguém específico, melhore algo concreto ou crie algo que não existiria sem você.
Ikigai: quatro círculos e uma interseção
Enquanto Frankl abordou o sentido pela via do sofrimento e da crise existencial, a tradição japonesa oferece uma porta de entrada mais leve. O conceito de ikigai (生き甲斐) significa literalmente “a sua razão para sair da cama de manhã”. No Japão, as pessoas o aplicam também a coisas pequenas. O seu ikigai pode ser uma caminhada matinal, o seu chá preferido ou uma conversa com um neto.
No Ocidente, porém, o ikigai ficou popular sobretudo por um diagrama de quatro círculos sobrepostos, montado por Marc Winn em 2014 a partir de um esquema de Andres Zuzunaga. Os quatro círculos representam:
- O que você ama: atividades que fazem você perder a noção do tempo
- No que você tem facilidade: as suas habilidades e os seus talentos
- Do que o mundo precisa: problemas que você consegue resolver
- Pelo que você pode ser pago: o valor de mercado do que você oferece
A interseção dos quatro é o seu ikigai. Se falta um círculo, o resultado fica incompleto. Você faz algo que ama e em que tem facilidade, mas ninguém paga por isso? Isso é paixão sem sustento. Você ganha bem por algo de que o mundo precisa, mas aquilo não traz alegria nenhuma? Esse é o vazio sobre o qual Frankl escreveu.
O pesquisador Hasegawa, da Universidade Toyo Eiwa, constatou em 2001 que adultos japoneses acima de 65 anos que relatavam um forte senso de ikigai tinham taxas menores de depressão e melhor saúde subjetiva. Isso se alinha à tese de Frankl de que o sentido protege contra o sofrimento psicológico.
Mas cuidado com uma coisa. O diagrama do ikigai é uma ferramenta útil de reflexão, não uma receita de felicidade. A psiquiatra japonesa Mieko Kamiya, que estudou o ikigai de forma sistemática nos anos 1960, ressaltou que o ikigai não precisa ser uma grande vocação única. Para a maioria das pessoas, é um mosaico de várias atividades, relações e valores que juntos criam a sensação de que a vida vale a pena ser vivida.
Job crafting: quando não dá para mudar o trabalho, mude a abordagem
Isso nos traz de volta a Amy Wrzesniewski. Em 2001, junto com Jane Dutton, ela apresentou o conceito de job crafting: remodelar ativamente o próprio trabalho para que ele se encaixe melhor nos seus valores e nos seus pontos fortes. Você não precisa pedir demissão. Não precisa esperar uma nova chefia nem uma virada na cultura da empresa. Dá para começar por conta própria, agora mesmo, de três maneiras.
Task crafting
Você muda o que faz. Acrescenta tarefas que realizam você ou remodela as que já tem. Uma contadora que gosta de ensinar acolhe um colega novo e vira uma referência para ele. Um desenvolvedor cansado de escrever documentação projeta um sistema automático que a gera. Para esse tipo de mudança você não precisa de permissão. Na maior parte das vezes, basta iniciativa.
Relational crafting
Você muda com quem interage e como. Procura de propósito pessoas de outros departamentos. Começa a perguntar aos colegas sobre o trabalho deles. Oferece ajuda onde aquilo interessa de verdade a você. Um estudo de 2010 constatou que profissionais que construíam ativamente relações fora da própria equipe avaliavam o trabalho como mais cheio de sentido, mesmo com as tarefas exatamente iguais.
Cognitive crafting
Você muda o modo como pensa sobre o seu trabalho. Isso pode soar simplista, mas é exatamente o que aqueles faxineiros de hospital faziam. Eles não se convenciam de que a limpeza era maravilhosa. Mudavam o enquadramento. Em vez de “eu passo pano no chão”, diziam a si mesmos “eu ajudo os pacientes a se recuperar em um ambiente limpo”. O conteúdo do trabalho continuou o mesmo. A experiência mudou profundamente.
Job crafting não é automanipulação. É a decisão consciente de focar nos aspectos do seu trabalho que carregam valor e de reforçar ativamente os que dão a você um senso de propósito. Uma meta-análise de Rudolph et al. (2017), que reuniu mais de 120 estudos, confirmou que o job crafting está associado de forma positiva à satisfação no trabalho, ao engajamento e ao desempenho. Funciona em qualquer setor e em qualquer nível de hierarquia.
Os valores como bússola do sentido
O psicólogo Shalom Schwartz desenvolveu nos anos 1990 um modelo de dez valores humanos universais, testado em 82 países. A pesquisa dele mostrou que as pessoas diferem de forma fundamental em quais valores priorizam. E o grau de alinhamento entre os valores pessoais e o ambiente de trabalho é um forte indicador de satisfação no trabalho.
Um estudo de Sagiv e Schwartz (2000) constatou que a congruência entre os seus valores e o seu ambiente importa mais do que a renda absoluta ou o prestígio. Em outras palavras: quem valoriza ajudar os outros e trabalha em uma organização sem fins lucrativos por um salário médio provavelmente estará mais satisfeito do que a mesma pessoa trabalhando em finanças por três vezes esse salário.
Por isso ajuda saber quais valores são de fato importantes para você. Não os que você acha que deveriam ser importantes, mas os que você realmente usa na hora de decidir. O teste de valores profissionais mostra se o seu trabalho gira sobretudo em torno de segurança, autonomia, relacionamentos, influência ou sucesso, e o quanto o seu trabalho atual combina com essas prioridades.
A personalidade e a busca de sentido
Nem todo mundo busca sentido do mesmo jeito nem com a mesma intensidade. Pesquisas baseadas no modelo Big Five mostram que a Abertura à experiência é o traço que mais se correlaciona com a tendência de procurar um significado mais profundo no trabalho e na vida. Pessoas com Abertura alta são mais curiosas, mais reflexivas e mais propensas a se fazer perguntas existenciais do tipo “por que eu estou fazendo isto?”.
Mas isso não significa que quem tem Abertura baixa não precise de sentido. Também precisa. Só procura em outros lugares. Quem tem Conscienciosidade alta pode encontrar sentido em um trabalho executado com precisão. Quem tem Extroversão alta pode encontrá-lo ao ajudar pessoas específicas por meio do trabalho. Quem tem Amabilidade alta pode encontrá-lo no cuidado com os outros.
O mesmo vale para os tipos RIASEC: o tipo social (S) encontra sentido em ajudar, o tipo artístico (A) em criar, o tipo investigativo (I) em compreender o mundo. Nenhum tipo tem “mais sentido” do que outro. A diferença está em onde você procura o sentido, não em ter ou não ter sentido.
A relação entre Neuroticismo e sentido também merece atenção. Quem tem Neuroticismo mais alto vive com mais frequência a dúvida existencial: “o que eu faço importa em alguma medida?”. Mas é justamente essa sensibilidade que pode empurrar essas pessoas para uma busca mais profunda e para um resultado mais autêntico. Os pacientes de Frankl que tinham atravessado as crises mais duras muitas vezes encontravam as respostas mais claras.
Quatro exercícios que funcionam
A teoria é boa, mas o que fazer com ela? Aqui estão quatro técnicas práticas, ancoradas em pesquisa, que você pode experimentar hoje.
1. Ordenação de valores
Escreva em papéis separados dez coisas que importam para você no trabalho. Por exemplo: salário, liberdade, criatividade, reconhecimento, ajudar os outros, aprender coisas novas, estabilidade, relação com os colegas, poder viajar, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Depois coloque tudo em ordem. Vá eliminando sempre a menos importante. As três últimas que sobrarem são os seus valores centrais. O seu trabalho atual combina com eles?
2. O exercício do elogio fúnebre
Isso soa mórbido, mas funciona. Stephen Covey popularizou o exercício em Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes (1989). Imagine o seu próprio funeral. O que você gostaria que um colega dissesse sobre você? Não “fazia hora extra” ou “nunca chegava atrasado”. Algo mais no estilo “sempre arrumava tempo para os colegas mais novos” ou “as ideias dela mudaram o jeito como a empresa pensa os clientes”. Esse exercício revela com o que você se importa de verdade, não com o que acha que deveria se importar.
3. O dia ideal
Descreva o seu dia de trabalho ideal, da manhã à noite. Não uma fantasia de deitar na praia, mas um dia realista em que você está trabalhando e se sentindo bem. Onde você está? Com quem? O que faz na primeira hora? O que preenche a sua tarde? Como se sente no caminho de volta? Os detalhes importam. Quando comparar o seu dia ideal com um dia típico, vai enxergar uma distância. Nessa distância está um guia do que precisa mudar.
4. A pergunta de Frankl
Frankl fazia aos pacientes uma pergunta simples: “O que a vida espera de você?”. Não o que você espera da vida, mas o que a vida espera de você. Uma inversão de perspectiva. Tente respondê-la no contexto do seu trabalho. Que contribuição os seus clientes, colegas ou consumidores esperam de você? Às vezes você vai descobrir que a sua contribuição real está em um lugar completamente diferente daquele em que vinha procurando.
Quando o trabalho simplesmente não tem sentido
Agora a parte importante que a maioria dos artigos sobre sentido no trabalho deixa de fora. Nem todo trabalho precisa ser o seu chamado. Nem todo mundo precisa amar as segundas-feiras. E nem todo mundo que vai trabalhar principalmente pelo salário está fazendo algo errado.
O filósofo Andrew Chamberlain distingue duas abordagens: a instrumental (o trabalho é um meio para outros objetivos) e a não instrumental (o trabalho é um objetivo em si). As duas são legítimas. Um carteiro que trabalha para sustentar a família e assim poder passar as tardes treinando um time de futebol infantil tem o seu sentido. Ele apenas não o encontra no trabalho em si, e sim no que o trabalho torna possível.
Os problemas aparecem em dois casos. Primeiro: você quer encontrar sentido no seu trabalho, mas não consegue. Segundo: você repete para si que o sentido não importa e, ainda assim, sente pavor de sair da cama de manhã. A primeira situação pede ação: job crafting, reavaliação dos seus valores ou troca de emprego. A segunda pede honestidade consigo.
David Graeber, antropólogo da London School of Economics, publicou Bullshit Jobs em 2018 e descreveu o fenômeno dos trabalhos sem propósito: cargos cujos próprios ocupantes dizem não produzir nenhuma contribuição relevante. Pela estimativa dele, de 20 a 30 por cento dos empregos nas economias avançadas caem nessa categoria. Graeber defendia que as pessoas nesses cargos sofrem não só de tédio, mas do dano psicológico de se sentirem inúteis.
Se isso ressoa com você, não há nada de errado com você. E a solução não precisa ser tão drástica quanto parece. Às vezes basta encontrar sentido fora do trabalho e aceitar que o emprego é um meio para um fim. Às vezes basta remodelar alguns aspectos da sua função atual com job crafting. E às vezes é mesmo hora de seguir em frente.
O que levar daqui
Frankl, o ikigai e Wrzesniewski dizem essencialmente a mesma coisa, só que com palavras diferentes e a partir de continentes diferentes. O sentido não é algo que você tem ou não tem. É algo que você constrói ativamente pelo modo como encara o trabalho, pelos valores que leva para ele e por como enxerga a sua própria contribuição.
O seu sentido pode estar em outro trabalho. Pode estar naquele que você já tem, só que ainda escondido da vista. E pode estar inteiramente fora do trabalho, e isso também está perfeitamente bem. A única coisa que realmente não vale a pena é fingir que o sentido não importa. Ele importa. E o Lucas do começo deste artigo? Depois de um ano de reflexão, saiu do departamento financeiro para a área de treinamento interno. Agora ensina educação financeira aos funcionários novos. Continua trabalhando com números, mas agora consegue ver quem eles ajudam.

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