Quantas vezes você já disse, no meio de uma briga, a frase “se acalma, por favor”? E quantas vezes aquilo funcionou?
Essa frase está entre as formas mais confiáveis de fazer uma pessoa colérica subir mais um degrau. É que ela escuta ali outra coisa, diferente do que você disse: não “estou aqui com você”, e sim “a sua reação é exagerada e eu estou julgando você”. Quem vive ou trabalha com alguém explosivo em geral descobre que metade dos incêndios domésticos e de escritório começou depois da primeira faísca, na tentativa de apagá-la.
O que acontece dentro de uma pessoa colérica
Segundo Hans Eysenck, que nos anos 1960 ligou os velhos nomes hipocráticos a dois eixos mensuráveis, o colérico é um extrovertido instável. No trabalho dele de 1967, isso foi associado à velocidade com que dispara a reação de alarme do corpo. Simplificando: alguns sistemas nervosos disparam antes e com mais força que outros, e o dono de um sistema desses não decide se vai reagir. Ele já está reagindo.
A consequência prática é conhecida de quem convive de perto com uma pessoa assim. O início é intenso, porém curto. O colérico explode em duas frases e, vinte minutos depois, já virou a página, porque a tensão saiu para fora. Só que quem estava do outro lado sai dali com um golpe que ainda vai doer por mais três dias.
Daí vem a maior parte dos mal-entendidos em torno do caráter colérico. Ele não considera a própria explosão um conflito, e sim a maneira de tirar a coisa da mesa; um assunto pendente o consome mais do que uma troca áspera de opiniões. Quando, no dia seguinte, ele age como se nada tivesse acontecido, não é hipocrisia nem manipulação. Para ele realmente não aconteceu nada.
Vale saber quanto tempo essa onda dura. O corpo precisa de mais ou menos vinte a trinta minutos para voltar do alarme e, nesse período, a argumentação fica de lado, porque a atenção trabalha em modo econômico. O outro lado não vai guardar mesmo nada de inteligente que você disser nos três primeiros minutos. Compensa, portanto, deslocar o conteúdo para depois desse limite e, no momento agudo, tratar apenas do que acontece em seguida.
A segunda coisa que as pessoas em volta costumam deixar passar: sob pressão prolongada, o colérico tem o pavio mais curto. Uma bobagem que numa semana calma ele nem notaria o irrita, então uma briga por um carro mal estacionado pode não ser sobre o carro, e sim sobre três meses de trabalho no limite. Isso não desculpa nada, mas muda o ponto por onde dá para pegar a conversa.
Tente lembrar disto: das explosões que atingiram você no último mês, quantas se mostraram importantes uma semana depois? No colérico a resposta costuma ser desconfortavelmente baixa, e é justamente essa a pista para não dar às frases duras dele mais peso do que elas têm.
O que com certeza piora a situação
A escalada é o primeiro beco sem saída. Quando você responde à voz alta com voz alta, o colérico entra no modo que conhece melhor, e nele ele joga em casa; quase ninguém consegue tirá-lo do campo dele.
A segunda armadilha é a oposta. Ceder sempre e em tudo parece paz, mas funciona ao contrário do que se espera. Com o tempo, o colérico deixa de enxergar como interlocutor quem nunca diz não. É contraintuitivo, mas confirmado repetidas vezes na prática: quem se coloca de forma objetiva e sem gritar ganha mais espaço com um colérico do que quem sempre desvia.
E existem as frases que simplesmente não cabem num momento incandescente:
- “Se acalma.” Reforça a sensação de que o outro lado não está levando a sério o que está em jogo.
- Diagnóstico de caráter no meio da discussão, do tipo “você é colérico e pronto”, muda o assunto do problema para a pessoa.
- Trazer o passado à tona. O colérico está tratando de uma coisa; assim que você põe cinco na frente dele, ele começa a brigar com todas.
- Silêncio como resposta. Ele o entende como desprezo, não como pausa, a menos que você diga quando volta.
O que, ao contrário, funciona
Deixe a onda passar. Os primeiros minutos são fisiologia, não argumentação, então uma resposta objetiva nessa hora não chega mesmo. Basta ficar, não desviar o olhar e não comentar a forma.
Depois passe para o concreto. O colérico reage melhor a conteúdo e a números específicos do que à descrição de como você se sente, pelo menos no primeiro minuto. Em vez de “não fale assim comigo”, tente “o prazo é sexta, hoje não vamos dar conta da preparação, preciso decidir o que a gente corta”. Você deu a ele uma tarefa, e esse é o ambiente natural dele.
Diga o limite com calma e uma vez só. “Não vou conversar assim, volto daqui a meia hora” é uma frase que funciona, desde que depois dela você realmente saia e realmente volte em meia hora. Limite sem consequência é apenas reclamação.
Trate as coisas desagradáveis só depois que a onda passar. O ideal é no dia seguinte e de uma vez, não em conta-gotas. E deixe a última palavra com ele sempre que possível. Colocar um colérico diante de fato consumado significa que ele vai ser contra por princípio, mesmo quando de outro modo concordaria.
A maior parte do que dá para fazer, aliás, cabe numa frase reformulada. A diferença entre as duplas a seguir parece cosmética e, na prática, decide se a conversa continua ou se vira mais uma rodada.
| Em vez desta frase | Tente | Por que sai melhor |
|---|---|---|
| “Se acalma.” | “Entendo que isso irrita você. O que a gente faz?” | Não julga a forma e já oferece uma tarefa, coisa a que o colérico responde |
| “Você vive gritando comigo.” | “Quando o tom fica assim, eu paro de escutar o conteúdo.” | Descreve a consequência em vez do caráter, então não há do que se defender |
| “Tanto faz, faz o que você quiser.” | “Não concordo e daqui a pouco eu digo por quê.” | O colérico lê a retirada como encerramento do assunto, não como paz |
| “A gente precisa falar sobre a semana passada.” | “Tenho uma coisa, três minutos. Agora ou às seis?” | Um formato delimitado mantém a conversa num item só |
| “Decidi por você, para você não se preocupar.” | “Vejo duas opções, escolhe uma.” | A última palavra continua com ele, então some a oposição por princípio |
Uma coisa ajuda mais do que se imagina: saber como você reage. O melancólico fica repassando a palavra dura por uma semana, o fleumático se recolhe no silêncio e outro colérico devolve. O nosso teste de temperamento tem 24 perguntas e leva cerca de quatro minutos; conhecer a própria reação típica costuma ser mais útil do que continuar estudando o outro.
O colérico como chefe, parceiro e pai
O chefe que levanta a voz na reunião
Rodrigo lidera uma equipe de dez pessoas e, na terça de manhã, descobre que o cliente antecipou o prazo em uma semana. Num minuto declara que assim não dá para trabalhar e menciona pelo nome a colega que entregou o material na sexta à noite. Metade da sala fica olhando para a mesa.
O que funciona num momento desses: deixá-lo chegar ao fim da frase e depois perguntar pelo próximo passo. “O que a gente adia para sair até sexta?” A pergunta por solução dá direção a ele e ao mesmo tempo tira o foco das pessoas. Guarde o retorno sobre o tom para a tarde e diga a sós, de forma concreta e sem generalizar: não “você vive gritando com a gente”, mas “quando o nome da Joana foi dito, ela parou de fazer perguntas, e na sexta isso vai fazer falta”.
O chefe colérico, além disso, em geral não suporta introduções longas. Comece pela conclusão, acrescente duas frases de contexto e diga o que quer dele. Como cada caráter se acomoda na rotina de trabalho está no texto sobre temperamento no trabalho.
O parceiro que explode no jantar
Em casa, o problema principal é a recuperação desigual. Ele está bem em vinte minutos, você não. Funciona bem um acordo fechado num período calmo, e não no meio da discussão: quem precisa de pausa diz isso em voz alta, junto com a hora de voltar, e o outro respeita.
Também costuma ajudar nomear o que acontece com você depois da briga, numa frase e sem cobrança. “Você fica pronto na hora, eu carrego isso até de manhã.” O colérico muitas vezes não faz ideia disso, porque mede pelo próprio relógio. Mais sobre quais combinações de casal atritam e onde está no artigo sobre temperamentos nos relacionamentos.
O pai que perde a paciência na lição de casa
O pai colérico em geral não quer intimidar a criança, quer terminar. Só que a criança não escuta “vamos acabar isso”, escuta o volume, e com uma criança mais sensível a noite termina ali. Ajuda combinar de antemão quem acompanha a lição e, no momento em que a voz sobe, sair três minutos para outro cômodo.
A segunda coisa é o pedido de desculpas. O colérico tende a pulá-lo, porque na cabeça dele o assunto já está encerrado. Uma frase curta, “exagerei, e você foi bem nessa conta”, faz mais pela relação do que a promessa de que aquilo nunca mais vai acontecer.
Onde termina o temperamento e começa o problema
Este é um limite que não se negocia. Reação intensa, fala alta ou impaciência são descrição de caráter. Humilhar na frente dos outros, ameaçar, quebrar coisas, medo de voltar para casa ou da reunião de segunda pertencem a uma categoria completamente diferente e não têm desculpa no temperamento.
A frase “eu sou assim mesmo” descreve uma tendência, não um destino. A tendência a se inflamar é inata e dá para trabalhar com ela, mas o que a pessoa faz naqueles cinco segundos entre o estímulo e a palavra é responsabilidade dela. Até que ponto o caráter pode mudar está no texto à parte sobre se o temperamento pode mudar.
Se em casa ou no trabalho você anda pisando em ovos em volta de alguém e mede pelas reações dessa pessoa o que pode se permitir dizer, aquilo deixou de ser a convivência de dois temperamentos. A diferença entre uma pessoa dura e uma pessoa perigosa você reconhece pelo que acontece quando diz não a ela. Onde a resposta é medo, cabe procurar um profissional, não uma técnica melhor de comunicação. A descrição detalhada desse caráter, com os pontos fortes dele, está no retrato do temperamento colérico.

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