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Personalidade e autoconhecimento

Temperamento colérico - ritmo, decisão e o preço da pressa

O temperamento colérico de perto: ritmo, decisão rápida, o preço da dureza e o que fazer diante de cada um dos outros três temperamentos.

Quantas vezes nesta semana você terminou a frase de alguém que, na sua opinião, estava falando devagar demais? Se lembrar de pelo menos dois momentos assim, você tem mais componente colérica do que a maioria das pessoas à sua volta. A impaciência com o ritmo alheio é a primeira e mais confiável marca desse temperamento, bem mais precisa do que o volume da voz, que é para onde todo mundo aponta.

A pessoa colérica se reconhece pelo ritmo, não pelo grito

A imagem mais difundida do colérico é a de alguém que bate na mesa. Só que o volume é uma manifestação secundária, e boa parte dos coléricos nem grita. A essência está em outro lugar: essa pessoa enxerga o objetivo e o caminho mais curto até ele antes de os outros terminarem de ouvir a introdução, e tolera a inércia menos do que um erro.

Dá para reconhecer pela construção das frases. Ela começa pela conclusão e só depois acrescenta como chegou até lá. “Vamos fazer assim” vem primeiro; os motivos, só se alguém perguntar. E ela aguenta ouvir uma introdução longa de outra pessoa por uns dois minutos, no máximo.

A segunda marca é a relação com a decisão. Quando faz tempo que nada acontece, ela prefere decidir mal a não decidir, porque decisão errada dá para corrigir, ao passo que da espera não nasce nada. Ela assume a responsabilidade que os outros ficam empurrando de um para o outro, inclusive quando não tem autoridade para isso.

Isso fica mais visível nas pequenas coisas. Num restaurante onde ninguém traz o pedido há meia hora, a pessoa colérica não se levanta por estar com fome, e sim porque nada está acontecendo. Vai até o balcão, resolve em trinta segundos e volta à mesa sinceramente espantada de ninguém ter feito aquilo antes.

A terceira marca é o tempo da raiva. O colérico se inflama rápido e cinco minutos depois o fogo já passou, só que a outra parte lembra daquela frase um mês depois. A desproporção entre o pouco tempo que ele leva para se acalmar e o tanto que aquilo dói nos outros está por trás da maior parte dos problemas que ele cria à sua volta.

Bile, cães e o segundo eixo de Eysenck

O nome vem do grego cholé, bile. Segundo Hipócrates, era justamente ela que predominava no tipo impetuoso e combativo, e o médico romano Galeno, no século II d.C., batizou os quatro tipos como os conhecemos até hoje. A doutrina dos fluidos corporais não se sustentou, mas a divisão das pessoas pela velocidade e pela força da reação continuou em circulação.

Nos anos 1950 e 1960, Hans Eysenck organizou a personalidade em dois eixos, a extroversão e a estabilidade emocional, e o colérico apareceu ali como extrovertido instável. A palavra soa pior do que aquilo que descreve: significa apenas uma reação emocional forte e rápida, não um transtorno. Ivan Pavlov, por sua vez, distinguia tipos de sistema nervoso nos seus cães, e ao colérico correspondia o tipo forte, porém desequilibrado, com predomínio da excitação sobre a inibição.

As duas linhas convergem para a mesma figura. O colérico tem arranque rápido e freio mais lento. De onde vieram os outros três tipos e como a psicologia moderna lida com eles está no panorama sobre os quatro temperamentos.

Por que tantos coléricos acabam no comando

Pergunte às pessoas quem decide na equipe delas e o nome sai num segundo. Costuma ser quem primeiro disse em voz alta o que seria feito, mesmo sem ninguém tê-lo nomeado. A componente colérica funciona como um atalho para o papel de liderança, e muitas vezes isso nem parece ambição: parece mais falta de paciência para ficar assistindo a nada acontecer.

Na crise é uma vantagem enorme. O colérico para de explicar e começa a agir, então as pessoas em volta abrem caminho de bom grado, porque querem que alguém assuma o leme. Além disso, ele protege a sua gente e assume os problemas dela como seus; em geral toma a frente sem que ninguém tenha pedido.

A armadilha foi revelada pela pesquisa de Cameron Anderson e Gavin Kilduff (2009). Em grupos que resolviam uma tarefa em conjunto, quem tinha alta dominância ganhava mais influência. Não porque as respostas dessas pessoas fossem melhores, e sim porque elas falavam antes, com mais frequência e com mais convicção, e quem estava em volta interpretava essa convicção como competência. A rapidez, portanto, parece acerto, mesmo quando não tem nada a ver com isso.

Na prática, o efeito é este. Rodrigo lidera uma equipe de cinco pessoas e, na reunião de segunda-feira, a decisão em geral sai em quarenta segundos, porque é ele quem a toma. Seis meses depois, reclama que o pessoal é passivo e não propõe nada. Só que a equipe aprendeu que propor não adianta, porque a decisão sai do mesmo jeito sem ela.

Tem uma vantagem dele que as pessoas só percebem por inteiro quando vão para outra equipe. Com o colérico, você sabe onde está pisando. Ele não elogia de antemão, então quando diz que algo está bom, é literalmente isso, e você fica sabendo da ressalva no mesmo dia, não um ano depois na avaliação de desempenho. Depois de um chefe que falava por insinuações, essa franqueza chega quase como alívio.

Quando foi a última vez que alguém disse na sua cara que você apertou demais? Se não lembra, isso não significa que não aconteceu. A verdade sobre a impressão que você causa só é dita por quem não tem medo de você, e à volta de um colérico costuma haver poucas pessoas assim.

Onde isso sai mais caro para o colérico

O que sai mais caro não são as discussões perdidas, e sim as relações que esfriam em silêncio. Diante do ritmo mais lento de quem está ao redor, o colérico perde a paciência, corta a fala e decide pelos outros antes que eles terminem. A dureza que ele toma por objetividade soa como ataque para o outro lado e, como nada de dramático aconteceu, ninguém toca no assunto. As pessoas só param de perguntar.

O segundo preço é pago no próprio corpo. A meta-análise de Yoichi Chida e Andrew Steptoe (2009) reuniu dezenas de estudos de longo prazo e concluiu que a raiva crônica e a disposição hostil se associam a maior risco de doenças cardíacas, inclusive em pessoas que no início do acompanhamento não tinham doença nenhuma. A diferença, porém, é essencial: não se trata do estouro rápido que passa em cinco minutos, e sim de um estado de irritação permanente com o ambiente. O temperamento colérico por si só não é diagnóstico nem sentença.

Sob estresse, o pavio do colérico fica mais curto. Uma bobagem que em outra hora passaria batido o irrita, e as frases voam mais rápido que os pensamentos. Duas coisas bem simples funcionam: movimento e a regra de que a mensagem desagradável pode até ser escrita, mas só enviada depois da segunda leitura. O que a pressão prolongada faz com cada temperamento está no texto sobre temperamento e estresse.

Em casa tudo isso aparece de outro jeito. Filhos de pais coléricos costumam descrever a mesma experiência: o pai ou a mãe era uma pessoa justa, ficava do lado deles e sabia resolver qualquer coisa, só que chegar diante dessa pessoa com algo ainda pela metade era difícil. É que o colérico responde a uma coisa inacabada com uma proposta de solução, mesmo quando o outro lado só queria dizer que está sofrendo. Distinguir “me dá um conselho” de “me escuta” é para ele a disciplina mais difícil do dia.

E ele cobra esse mesmo ritmo de si mesmo. Rotina, reuniões arrastadas e rodadas de aprovação cansam mais do que um dia inteiro de trabalho de verdade, então ele se enche de tarefas, só para alguma coisa se mexer. O cansaço não chega como esgotamento, chega como irritação, que sobra para alguém que não tem nada a ver com aquilo.

Sobra o que os coléricos resolvem pior: admitir o próprio erro. Pedir desculpas é tecnicamente fácil para eles, mas reconhecer que os outros tinham razão desde o começo significa pôr em dúvida o próprio ritmo. E o ritmo é exatamente aquilo de que o colérico se orgulha.

O colérico diante dos outros três temperamentos

A maior parte dos atritos dá para prever de antemão, porque não nasce de má vontade, e sim da diferença de velocidade e do quanto cada um precisa ter as coisas fechadas.

O colérico encontra O que costuma acontecer O que fazer
O sanguíneo Combinam rápido e põem a coisa para andar, só que a finalização sobra para o colérico Combinar os prazos por escrito ali mesmo, enquanto dura o entusiasmo
O fleumático O colérico pressiona, o fleumático cede em silêncio e guarda a discordância para si Perguntar diretamente a ele o que faria diferente e esperar a resposta
O melancólico O colérico quer a decisão agora, o melancólico precisa de tempo; a crítica atinge mais fundo do que se pretendia Dar um prazo concreto em vez de “já” e incluir também o que está bem feito
Outro colérico Ou a dupla mais rápida do pedaço, ou uma disputa pela última palavra Dividir o território: quem decide o quê se combina antes, não no meio do conflito

O manual prático para o outro lado, ou seja, para parceiros, colegas e filhos de coléricos, está no texto sobre como lidar com uma pessoa colérica. A versão curta é: fale pouco, comece pela conclusão e deixe a última palavra com ele, porque, diante de um fato consumado, ele vai ser contra por princípio.

O colérico puro, aliás, é raro. Mais comum é a componente colérica acompanhada de um toque que muda o sentido dela: com um toque fleumático ele aguenta também a corrida longa, na qual o tipo puro perderia o gás antes de o trabalho acabar; com um toque melancólico, pressiona por qualidade e não suporta coisas pela metade ao seu redor. O nosso teste de temperamento tem 24 perguntas, leva cerca de quatro minutos e, além do tipo primário, mostra esse toque; encare o resultado como retrato aproximado, não como rótulo.

Três coisas que se confundem sobre os coléricos

“Colérico é gente ruim.” Dureza e má vontade são duas coisas diferentes. A maioria dos coléricos defende a sua gente com unhas e dentes e, no aperto, é a primeira a ajudar; só faz isso sem perguntar e sem rodeios, o que se confunde facilmente com falta de consideração.

“Não sabe se controlar.” Sabe, só que faz isso dois segundos depois do necessário. A diferença entre o colérico que as pessoas suportam e aquele de quem as pessoas fogem em geral não está na força da emoção, e sim no fato de ele ter ou não criado o hábito da pausa entre o impulso e a frase.

“Colérico é automaticamente um bom chefe.” Aqui vale voltar à pesquisa de Anderson e Kilduff. Decisão rápida e decisão certa não têm relação entre si, e a empresa que promove pela determinação muitas vezes está escolhendo pela autoconfiança. O colérico vira um bom chefe no momento em que tem ao lado alguém que o contraria e ele aguenta ouvir.

Se você se reconheceu na descrição, tente fazer uma contagem durante uma semana. Depois de cada reunião, anote quantas vezes interrompeu alguém e quantas vezes decidiu sobre algo que ninguém pediu que você decidisse. Os números costumam ser mais altos do que se espera e, sobretudo, mostram em que situações isso acontece: quase sempre são as mesmas duas ou três.

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