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Personalidade e autoconhecimento

Asas do eneagrama: por que você não é um tipo puro

As asas do eneagrama explicam por que duas pessoas do mesmo tipo agem de forma diferente. Tabela com as 18 variantes, 4w3 vs 4w5, 9w8 vs 9w1 e como achar a sua.

Duas pessoas do mesmo tipo estão em uma reunião em que o prazo escorrega pela terceira vez. Depois de vinte minutos, uma delas põe a mão na mesa e diz que assim não dá para continuar. A outra fica calada a hora inteira e, à noite, manda um e-mail educado sobre o buraco no processo, com uma correção sugerida em anexo.

As duas são do tipo 9, o Conciliador. O que as separa é a asa.

A asa é um vizinho, não um segundo tipo

Os nove tipos ficam sobre um círculo, e cada um tem dois vizinhos. A sua asa é o vizinho cujos traços se misturam com mais força ao seu tipo central. Escreve-se com w minúsculo: um tipo 4 com asa 3 é um 4w3, um tipo 9 com asa 8 é um 9w8.

O que mais importa é o que a asa não faz. Ela deixa intactos o seu medo central e o seu desejo central, que são justamente o que move você a vida inteira. Um 9w8 continua temendo o rompimento e a perda de ligação, e não a perda de controle, como acontece com o tipo 8. Só lida com isso de outro jeito: consegue levantar a voz sem deixar de ser um tipo 9.

O motor continua o mesmo, muda o jeito de dirigir. Com as asas, os nove tipos viram dezoito variantes reconhecíveis, e é muitas vezes por isso que uma descrição que encaixava dois terços em você de repente encaixa direito.

Por que vizinhos e não qualquer tipo? A ordem em volta do círculo não é arbitrária. Tipos adjacentes compartilham uma fatia do mesmo material interno: os tipos 1 e 2 se ocupam de como as pessoas e as coisas deveriam ser, os tipos 5 e 6 respondem à incerteza com a cabeça. Os tipos mais distantes são cobertos pelas setas de crescimento e de estresse, que funcionam com outra lógica: elas ligam conforme o seu estado, enquanto a asa está com você o tempo todo. A geometria completa do círculo está descrita em o que é o eneagrama; os nove tipos em si foram descritos nos anos 1960 pelo professor boliviano Oscar Ichazo e levados para a psicologia pelo psiquiatra chileno Claudio Naranjo.

Olhe para o círculo por tempo suficiente e aparece uma assimetria que a maioria das introduções pula. Os tipos se dividem em três centros conforme a emoção de base: os tipos 8, 9 e 1 pertencem à raiva, do 2 ao 4 à vergonha e ao valor próprio, do 5 ao 7 ao medo. Em seis dos nove tipos, uma das asas sempre puxa a pessoa para um centro vizinho: um 4w5 mistura vergonha com medo, um 7w8 mistura medo com raiva. Só os tipos 3, 6 e 9 mantêm as duas asas em casa, dentro do próprio centro. As suas duas variantes diferem na expressão, não na matéria-prima.

Dois tipos 4 na mesma mesa

O contraste é mais nítido onde as asas apontam em direções opostas. Veja o Romântico, o tipo construído em torno da identidade e da profundidade do sentimento.

A asa 3 acrescenta ambição e impulso para fora. Essa individualidade vira trabalho concreto e é oferecida ao mundo, de modo que a profundidade não acaba em uma gaveta. O risco é a autenticidade começar a posar para uma plateia, com a verdade pessoal medida em reações.

A asa 5 vira essa mesma profundidade para dentro. Observa, analisa e cria em reclusão, e o resultado costuma ser mais original porque depende menos do gosto alheio. O preço é se perder dentro da própria cabeça e uma distância das pessoas que o tipo 4 só nota quando o telefone não toca a semana inteira.

Na prática, isso fica assim. Dois designers, os dois do tipo 4, recebem o mesmo pedido. Quem tem asa 3 mostra o trabalho em andamento, se inscreve em um concurso e fala sobre o que está criando. Quem tem asa 5 não mostra nada a ninguém por dois meses e depois entrega uma peça que as pessoas comentam sem que ele esteja na sala. Quando o projeto desaba, o primeiro sofre em voz alta e o segundo some de todos os canais.

De volta àquela reunião. A asa 8 dá firmeza ao tipo 9: ele consegue se manifestar, protege os seus e a sua calma deixa de ser lida como fraqueza. Depois de um longo silêncio, porém, pode golpear com uma dureza inesperada, porque alguma coisa vinha se acumulando sem que ninguém soubesse. Já a asa 1 acrescenta ordem e senso de dever, então a discordância chega em forma de proposta prática e as coisas são feitas direito. Aí o risco é a autocrítica silenciosa e o apego a como as coisas “deveriam” ser feitas.

O mesmo medo de rompimento, duas saídas diferentes. E, para os colegas, duas pessoas completamente diferentes.

Quão forte uma asa pode ficar

A asa não é um interruptor. Em algumas pessoas ela é tão forte que os outros a confundem com o tipo central; em outras, os dois vizinhos ficam quase no mesmo nível e as duas descrições encaixam mais ou menos igual.

Muitos professores de eneagrama sustentam que esse equilíbrio muda ao longo da vida e que uma pessoa madura tem acesso aos dois vizinhos. Soa atraente e funciona como conselho prático, mas vem das salas de atendimento, não de medições.

A pesquisa aqui é praticamente muda. O eneagrama como um todo tem apoio empírico fraco, e as asas quase não têm apoio próprio. Para ter uma ideia de como essa evidência seria: Colin DeYoung e colegas mostraram em 2007 que cada um dos cinco fatores do Big Five se divide em dois aspectos mensuráveis, uma estrutura confirmada de novo em amostras posteriores. As asas fazem um trabalho conceitualmente parecido sem nada desse alicerce. Trate-as como nuances na linguagem que você usa sobre si mesmo, não como uma grandeza que alguém mediu.

Daí segue uma consequência prática. Se as pontuações dos seus dois vizinhos saírem quase idênticas, o rótulo 4w3 não diz nada de útil, e vale mais a pena ler as duas descrições e reparar em qual delas irrita mais você.

Nove tipos, dezoito versões

Tipo Primeira variante Segunda variante
1 o Perfeccionista 1w9 Mais calmo e mais conciliador. Mantém o padrão, mas cobra por ele com perspectiva. Acha o confronto mais difícil, mesmo quando ele se justifica. 1w2 Mais caloroso e voltado para as pessoas. Quer as coisas feitas não só de forma correta, mas útil, e corre o risco de receitar o certo para o bem de todo mundo.
2 o Acolhedor 2w1 Ajuda com estrutura e princípio, sistemática e confiável. Mais duro consigo mesmo e rápido na censura quando a ajuda não é recebida “direito”. 2w3 Ajuda visível, enérgica e voltada a resultados. O risco é o cuidado virar encenação e a gratidão virar medida de valor.
3 o Ambicioso 3w2 Sucesso construído sobre relações, com calor humano e talento para conquistar as pessoas. A admiração vira combustível com facilidade. 3w4 Resultados com assinatura pessoal, com profundidade e individualidade. À sombra disso ficam dúvidas sobre se o sucesso é real.
4 o Romântico 4w3 Individualidade voltada para fora e transformada em trabalho oferecido ao mundo. A autenticidade pode começar a posar para uma plateia. 4w5 Profundidade voltada para dentro, criando em reclusão. Mais original, mas se perde dentro da própria cabeça e se afasta das pessoas.
5 o Estudioso 5w4 Conhecimento levado com imaginação e sentimento, uma assinatura quase artística. Mais propenso ao isolamento ruminante. 5w6 Domínio sistemático e prático do assunto, com os riscos pensados até o fim. A vigilância pode virar uma dúvida ansiosa sobre tudo.
6 o Cético 6w5 Responde à incerteza com conhecimento e preparação, mais objetivo e autossuficiente. Corre o risco de se trancar com as próprias preocupações. 6w7 Transforma a ansiedade em piada e ação, e as pessoas gostam da companhia. Tende mais a fugir dos medos do que a encará-los.
7 o Experimentador 7w6 Mais com os pés no chão, planeja com rede de segurança, mais leal do que costumam reconhecer no tipo 7. Sob o humor mora uma ansiedade não admitida. 7w8 Assertivo, sabe o que quer e vai direto atrás. Propenso a exageros impulsivos no trabalho, nos prazeres e nas palavras.
8 o Guardião 8w7 Um visionário de alta voltagem, com enorme apetite pela vida, que arrasta os outros junto. Impulsividade e exagero deixam terra arrasada. 8w9 Firmeza calma e paciente, que não precisa trovejar para ser ouvida. Mais conciliadora e ainda mais inamovível depois de decidir não sair do lugar.
9 o Conciliador 9w8 Mais firme, capaz de se manifestar e de proteger os seus. Depois de um longo silêncio, porém, pode golpear com uma dureza inesperada. 9w1 Calma somada a princípios e ordem. O risco é a autocrítica silenciosa e o apego a como as coisas “deveriam” ser feitas.

Quando a asa é confundida com o tipo central

Uma asa forte é a razão mais comum para as pessoas caírem no tipo errado. Pares adjacentes se comportam de forma quase idêntica e diferem no que estão defendendo.

A confusão clássica é entre 4w5 e 5w4. Os dois são quietos, criativos e mais felizes um pouco de lado. O tipo 4 defende uma identidade e se fere ao se sentir substituível; o tipo 5 defende a própria capacidade e se fere quando alguém toma o tempo e a energia com que ele contava. Pergunte a si mesmo o que custa mais para você: ouvir que você é absolutamente comum ou ter o fim de semana remarcado sem ninguém perguntar.

O segundo par frequente é 9w1 e 1w9. Os dois passam a impressão de serem calmos, educados e organizados. O tipo 1 guarda um padrão, e a irritação aponta para aquilo que foi mal feito. O tipo 9 guarda a paz, e a irritação aponta para aquilo que perturba o clima do ambiente.

Em terceiro vêm 2w3 e 3w2, os dois calorosos, sociáveis e bons em conquistar as pessoas. O tipo 2 quer ser necessário; o tipo 3 quer ser visto como capaz. Quando a ajuda deles é recusada, o tipo 2 se magoa e o tipo 3 sobretudo se atrasa.

Como colocar a sua asa para trabalhar

A sua asa é o recurso mais próximo que você tem. Um 5w6 que precisa se organizar não tem de aprender a pensar como um tipo 3; basta se apoiar na veia sistemática que já está ali. Essa é a razão prática para conhecer a sua asa: ela mostra por onde passa o seu caminho mais fácil para mudar.

O seu outro vizinho é o seu campo de treino mais próximo. Um 1w9 evita o confronto, então ajuda pegar emprestado um pedaço do tipo 2: dizer a discordância com calor humano e com a relação em mente, em vez de engoli-la. Nada muda no tipo central, o repertório apenas fica mais amplo.

Preste atenção na parte que as descrições entusiasmadas de asas deixam de fora. A asa amplia os pontos fracos com a mesma facilidade com que amplia os fortes. Um 7w8 não escapa em silêncio de uma conversa difícil, ele passa por cima dela. Um 2w1 cuida de forma mais sistemática e também censura de forma mais afiada quando esse cuidado é recusado. Então faça sempre as duas perguntas: o que esse vizinho acrescenta e o que ele piora?

Identificar uma asa é mais fácil do que identificar um tipo central, porque você escolhe apenas entre duas opções. O nosso teste do eneagrama mostra a sua asa ao lado do seu tipo central, embora qualquer comparação com outras pessoas deva ser lida como aproximada. Mais confiável do que um questionário é uma observação: repare para qual dos dois vizinhos você deriva quando o cansaço chega e não sobra energia para se monitorar.

Experimente anotar esta semana as frases que saem de você nos momentos de irritação. Releia depois de sete dias: costuma aparecer o tom de um dos vizinhos, seja a voz que acalma, seja a que empurra.

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