Num workshop da empresa, a tarde termina com dezoito pessoas lendo os resultados umas das outras. Duas delas deram melancólico. Uma é contadora, entrega os orçamentos três dias antes do prazo e tem a agenda cheia de blocos coloridos. O outro é designer, entrega na madrugada da véspera do fechamento, esquece de emitir nota duas vezes por ano e só volta ao trabalho quando bate a inspiração.
Os dois receberam o mesmo rótulo e não têm quase nada em comum. E isso não é erro do teste. É que a tipologia da Antiguidade trabalha com duas características entre as cinco que a psicologia mede hoje, e deixa as outras três completamente de fora.
As duas linhas de Eysenck
Nos anos 1950 e 1960, Hans Eysenck fez com os quatro temperamentos algo que não ocorreu a Galeno. Ele não estava interessado em saber se os fluidos corporais explicavam o caráter. Estava interessado em quantas características independentes precisamos para descrever as diferenças entre as pessoas, e das análises dele saíram duas.
A primeira é a extroversão. Descreve para onde vai a sua atenção e de onde você tira energia: se a companhia recarrega ou suga você, com que rapidez você parte para a ação e quantos estímulos precisa em volta para se sentir bem.
A segunda é o neuroticismo, ou seja, a reatividade emocional. Ele não diz se você é triste. Diz com que força e por quanto tempo uma coisa desagradável abala você. Numa ponta da escala está a pessoa estável, para quem uma crítica na reunião passa até o almoço; na outra, quem ainda está repassando aquela mesma frase na sexta à noite.
Quando você cruza essas duas linhas, surgem quatro quadrantes, e neles se acomodam os quatro temperamentos clássicos. O sanguíneo é extrovertido estável, o colérico extrovertido instável, o fleumático introvertido estável e o melancólico introvertido instável. A palavra instável aqui é termo técnico para maior reatividade, não diagnóstico nem coisa que se possa ler como defeito.
Eysenck, aliás, assumiu a dívida com os antigos gregos e, nos seus livros, desenhava os quatro temperamentos diretamente num círculo em torno dos dois eixos. Não era reverência à tradição. O que o guiava era a ideia de que, por trás da diferença entre introvertido e extrovertido, havia algo corporal, mais precisamente um grau distinto de excitabilidade do sistema nervoso: quem tem o nível de base mais alto precisa de menos estímulos externos para se sentir satisfeito. Os detalhes dessa hipótese foram reescritos por pesquisas posteriores, mas as duas dimensões permaneceram.
A história desses quatro nomes, de Hipócrates (por volta de 400 a.C.) a Galeno, que os batizou seis séculos depois, está no panorama dos quatro temperamentos. A contribuição de Eysenck foi oferecer duas escalas contínuas no lugar de quatro caixinhas. Nelas a pessoa pode ficar em qualquer ponto, inclusive exatamente no meio.
De duas dimensões para cinco
A geração seguinte de pesquisadores seguiu outro caminho. Lewis Goldberg (1990) retomou a hipótese lexical: a língua já nomeou o que é importante nas diferenças entre as pessoas, então basta reunir todos os adjetivos que descrevem gente e ver quais deles andam juntos. Paul Costa e Robert McCrae, nos anos 1980, cuidaram do lado da medição.
Dessas análises saíram repetidamente cinco dimensões em vez de duas. Extroversão e neuroticismo permaneceram, e a elas se somaram abertura à experiência, conscienciosidade e amabilidade. Esse modelo de cinco fatores é hoje a língua comum para descrever a personalidade, e a principal virtude dele é chata, porém essencial: ele sai igual, repetidas vezes, em línguas e culturas diferentes.
O que medem essas três dimensões novas? A abertura à experiência descreve o apetite pelo novo e pelo incomum, das viagens às ideias abstratas. A conscienciosidade tem a ver com ordem, planejamento e levar as coisas até o fim. E a amabilidade diz se, num conflito, você busca instintivamente o acordo ou vai atrás do que quer, mesmo que isso custe os nervos de alguém.
Voltemos à contadora e ao designer do workshop. Os dois podem ser introvertidos instáveis, então os dois caem no canto melancólico. Eles diferem na conscienciosidade, que no sistema antigo simplesmente não existe. E o interessante é que é justamente a conscienciosidade que figura, segundo a meta-análise de Barrick e Mount (1991), entre os melhores preditores de personalidade para o desempenho no trabalho em todas as profissões. Os quatro temperamentos não dizem nada sobre ela.
Mapa: o temperamento e o perfil dele no Big Five
A tabela mostra como os quatro temperamentos ficam traduzidos para a língua dos cinco fatores. É uma conversão aproximada, não uma equação.
| Temperamento | Quadrante de Eysenck | Perfil aproximado no Big Five |
|---|---|---|
| Sanguíneo | extrovertido estável | extroversão alta, neuroticismo baixo |
| Colérico | extrovertido instável | extroversão alta, neuroticismo mais alto, muitas vezes amabilidade mais baixa |
| Fleumático | introvertido estável | extroversão mais baixa, neuroticismo baixo, muitas vezes amabilidade mais alta |
| Melancólico | introvertido instável | extroversão mais baixa, neuroticismo mais alto |
Repare nos espaços vazios. A abertura à experiência não aparece nem uma vez na tabela, e a conscienciosidade também não, porque não decorrem de forma alguma dos dois eixos de Eysenck. As notas sobre amabilidade no colérico e no fleumático já vão além do modelo original e vêm mais da observação de como esses tipos são descritos na prática.
O trabalho publicado por Strelau e Zawadzki (1995) também confirmou que existe uma relação mensurável entre os temperamentos clássicos e o modelo de cinco fatores. As associações aparecem sobretudo na extroversão e na reatividade emocional, o que corresponde ao que os médicos antigos já notavam. Nas outras três dimensões, a tipologia da Antiguidade simplesmente não tem em que se agarrar.
O que a tipologia omite
A primeira simplificação é que as dimensões são contínuas, ao passo que o tipo é uma caixinha. Quando se dividem as pessoas em introvertidas e extrovertidas, cria-se a impressão de dois grupos. Na realidade, a maioria fica em torno do meio das duas escalas, então o grupo mais numeroso é aquele, bem sem graça, das pessoas que são metade de cada.
Daí vem o segundo problema. Em quem está perto do meio, o rótulo final é decidido por uma diferença de poucos pontos, e ela pode se deslocar conforme você preencha o teste depois de um bom fim de semana ou numa terça-feira depois de uma briga. Quanto mais longe do meio, mais estável o resultado. Esse é, aliás, o motivo pelo qual as pessoas de perfil marcado acham a descrição do seu tipo tão exata, enquanto as demais não se reconhecem nela.
A terceira coisa é o caráter probabilístico da descrição inteira. A frase “os melancólicos são caprichosos” significa, nos dados, mais ou menos que no canto melancólico você encontra um pouco mais de gente caprichosa. Não significa que o seu conhecido melancólico já tenha entregado alguma coisa no prazo.
Como isso aparece na prática? Duas pessoas entram para a mesma equipe de desenvolvimento e nas duas dá fleumático. A primeira mantém a calma porque nada a abala e, ao mesmo tempo, leva uma lista detalhada de tarefas, então dá para contar com ela nos mínimos detalhes. A segunda parece igualmente calma, só que o equilíbrio dela vem de achar que prazos não são importantes. O gestor que conduzir as duas do mesmo jeito vai levar um susto atrás do outro com a segunda já no primeiro mês. A diferença entre elas não está no temperamento, e sim na conscienciosidade, que nenhuma das quatro descrições antigas cobre.
Tente agora imaginar as dez pessoas que você conhece melhor. Quantas delas você encaixaria sem sobras numa das quatro caixinhas? Para a maioria das pessoas dá cerca de metade, e essa é uma estimativa honesta do poder de discriminação do sistema inteiro.
Por que os tipos sobreviveram mesmo assim
Se a utilidade fosse decidida só pela precisão, os quatro temperamentos teriam desaparecido em algum ponto dos anos 1980. Não desapareceram, e por trás disso está uma qualidade que a psicometria não mede: a inteligibilidade.
Você diz “é um colérico típico” e todo mundo na mesa imagina imediatamente um comportamento concreto. Tente o mesmo com a frase “extroversão alta, neuroticismo mais alto, amabilidade mais baixa” e metade da sala se desliga na segunda palavra. O tipo funciona como um nome com que dá para trabalhar em conversa comum, ao passo que cinco números em percentis são ferramenta para quem sabe manejá-los.
A segunda vantagem é que a tipologia descreve a pessoa inteira de uma vez. O modelo de cinco fatores dá a você cinco dados independentes, e a combinação entre eles você tem que montar sozinho. Os quatro temperamentos já carregam essa combinação dentro de si e, quando você acrescenta o toque à componente primária, obtém dezesseis perfis, que cobrem também as contradições dentro de uma mesma pessoa. Como duas componentes se sobrepõem está no panorama das combinações de temperamento.
E, por fim, o tipo gruda na memória. Os cinco números de um questionário você esquece em um mês, mas o fato de ser fleumático com toque colérico você vai lembrar até um ano depois, quando alguém na reunião pedir de novo uma decisão rápida a você.
Como ler os dois juntos
O mais sensato é tomar o temperamento como porta de entrada e o modelo de cinco fatores como mapa detalhado. O teste de temperamento tem 24 perguntas e leva cerca de quatro minutos; o resultado é o temperamento primário, o toque e uma observação sobre a componente que ficou mais baixa em você. Dá para lê-lo como um nome para aquilo que você já observa em si mesmo há tempos.
Quando quiser ir ao detalhe, o teste Big Five mostra a sua posição em cinco escalas independentes, incluindo as três sobre as quais a tipologia antiga se cala. É justamente ali que se decide a diferença entre a contadora e o designer do começo, porque os dois podem ter o mesmo temperamento e ainda assim uma relação diferente com prazos, com regras e com coisas novas.
As duas comparações, porém, são aproximadas. Nenhum desses testes é diagnóstico e nenhum diz para o que você serve e para o que não serve. Eles ajudam sobretudo onde você precisa dar nome ao motivo pelo qual um certo tipo de trabalho ou um certo tipo de gente combina mais com você do que outro. O procedimento concreto de observação está no texto sobre como descobrir o seu temperamento.
Uma coisa na tipologia da Antiguidade merece atenção mesmo dois mil anos depois. Hipócrates e Galeno não tinham estatística, questionários nem amostras de milhares de pessoas. Tinham apenas longos anos observando pacientes e, ainda assim, acertaram em duas dimensões que nas análises modernas aparecem sempre entre as primeiras. As outras três esperaram mais vinte séculos para serem descobertas.

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