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Relacionamentos e comunicação

Como acalmar uma discussão: desescalada na prática

Acima de 100 batimentos os argumentos param de funcionar. Como acalmar uma discussão: desacelerar, validar, pausa real e frases que baixam o tom.

Quase toda discussão pode ser interrompida. Só que nem sempre com a mesma facilidade: assim que a frequência cardíaca de um de vocês passa dos 100, falar sobre o assunto deixa de funcionar, porque nesse momento o corpo está resolvendo um problema completamente diferente do seu. O psicólogo John Gottman chama esse estado de inundação fisiológica e o descreve como o instante em que nem o melhor argumento tem onde pousar.

Bruno e Camila começaram pela lava-louças. Nove minutos depois já estavam no fim de semana em que Camila viajou no ano passado e deixou a filha doente em casa, e na pergunta se Bruno alguma vez repara no que outra pessoa faz dentro de casa. A louça, àquela altura, não interessava mais a ninguém. Os dois só provavam que tinham razão.

O ponto do qual a discussão não volta

A inundação não é uma imagem poética, e sim uma mudança mensurável no corpo. O coração acelera, a respiração encurta, a visão periférica se estreita e a atenção entra num modo que procura ameaça. Gottman acompanhou essa passagem em casais cuja frequência cardíaca ele registrava durante a briga, e reparou que acima de certo limite a conversa muda de qualidade, não só de volume.

O que muda exatamente? Você para de ouvir nuances. A frase “isso me incomoda” e a frase “você é uma pessoa horrível” chegam ao cérebro inundado praticamente do mesmo jeito. Ao mesmo tempo, a memória oferece de bom grado todas as mágoas parecidas do passado, porque um sistema ameaçado procura um padrão, não uma exceção.

A segunda coisa que a inundação faz é estreitar o repertório. Sobram três opções: atacar, se defender ou sumir. Nenhuma leva a um acordo sobre a lava-louças, e as três parecem, por dentro, uma reação sensata ao que o outro acabou de dizer.

Dá para perceber em si mesmo antes que o parceiro perceba. Um fica com os ombros travados, outro sente o rosto esquentar, um terceiro descobre que já está repetindo a mesma frase pela terceira vez com outras palavras. Qual desses sinais chega primeiro no seu caso? A resposta a essa pergunta vale mais na prática do que qualquer técnica, porque sem ela você só descobre que estava inundado pelo que conseguiu dizer.

O que escala uma discussão sem falhar

A escalada raramente é acaso. Existem algumas jogadas depois das quais a temperatura da sala sobe quase sempre, e a maioria delas, no momento em que você as usa, parece completamente justificada.

  • Generalizar: as palavras “sempre” e “nunca” transformam uma falha concreta em defeito de caráter, e contra defeito de caráter não dá para fazer nada além de se defender
  • Puxar o passado. Assim que o fim de semana do ano passado entra na briga, vocês pararam de resolver uma situação e começaram a julgar uma pessoa
  • A plateia muda as regras: diante dos filhos, dos pais ou dos amigos passa a estar em jogo também a imagem, e ceder custa muito mais
  • O sarcasmo machuca justamente porque se disfarça de piada. Não dá para responder sem parecer melindroso
  • O volume. A voz alterada é, para o sistema nervoso do outro, um sinal de ameaça antes que ele processe o conteúdo da frase
  • A frase “se acalma” e suas parentes: “não faz drama”, “você está exagerando”, “assim não dá para conversar com você”

Esse último item merece um parágrafo próprio, porque é o que aparenta mais inocência. Quem já ouviu isso no meio de uma briga sabe como funciona ao contrário com toda a confiabilidade. “Se acalma” carrega uma mensagem escondida: sua reação é desproporcional e eu sou o sensato dos dois. Ao outro não sobra muita escolha. Ou confirma que está desproporcional, ou prova que a irritação dele tinha motivo. Quase sempre escolhe a segunda, e em voz alta.

Como acalmar uma discussão: desescalada passo a passo

Desescalar um conflito não é concessão nem derrota. É uma troca de modo, da pergunta “quem tem razão” para a pergunta “o que a gente faz com isso agora”. E a maior parte do que funciona acontece no ritmo, no volume e na ordem das frases, não no conteúdo dos argumentos.

Desacelere e baixe o volume

A velocidade da fala e o volume se transmitem numa briga como contágio. Desacelerar funciona pelo mesmo mecanismo, só que no sentido inverso: quando um dos dois fala mais devagar e mais baixo, o outro precisa escutar com mais atenção, e escutar com atenção combina mal com gritar. Tente de propósito por duas ou três frases e observe o que acontece com o volume da sala.

O corpo também ajuda. Sentar quando os dois estão em pé leva um segundo e muda a dinâmica inteira. Diminua os gestos. E largue o celular, porque na mão ele parece preparação para sair ou coleta de provas.

Valide antes de começar a explicar

Validar significa reconhecer que, da posição do outro, o sentimento dele faz sentido. Não é concordar e não é pedir desculpa. A frase “entendo que te irrite quando eu chego uma hora depois do que avisei” não diz absolutamente nada sobre quem tem culpa de quê. Diz apenas: eu vejo você.

É aqui que se erra com mais frequência. Uma explicação do tipo “eu estava numa reunião e não dava para sair” está factualmente certa e ainda assim joga gasolina, porque chega antes que o outro tenha a sensação de ter sido ouvido. A ordem pesa mais do que o conteúdo. Primeiro o reconhecimento, depois os fatos, tranquilamente depois de uma pausa curta.

Uma coisa de cada vez

As discussões se desfazem porque se alargam. Começa na lava-louças, entra o fim de semana, depois um comentário sobre a sogra e no fim a pergunta sobre que tipo de casal a gente é. Quando isso acontece, vale nomear em voz alta: “espera, quero terminar essa história da lava-louças. Sobre o fim de semana a gente conversa separado e em outra hora.”

Camila tentou na briga seguinte. Bruno ofereceu o alargamento umas três vezes, e ela respondeu todas as vezes com a mesma frase sobre voltar àquilo em separado. Na terceira, aquilo irritou Bruno de forma visível, porque tirava dele a munição mais forte. Dois minutos depois, porém, eles estavam falando de novo da lava-louças.

Uma pausa que não é fuga

Quando um de vocês está inundado, nenhuma técnica pega enquanto o corpo não descer de volta. Gottman recomenda uma pausa de pelo menos vinte minutos, porque é mais ou menos isso que a resposta de estresse leva para passar. Uma pausa mais curta costuma significar voltar ao mesmo estado, só que com argumentos novos preparados no intervalo.

E aqui está o detalhe em que a coisa naufraga com mais frequência: uma pausa sem retorno combinado não funciona como pausa, funciona como abandono. Sair dizendo “assim eu não vou conversar com você” escala mais do que continuar a briga, porque o outro fica sozinho com um assunto aberto e sem saber quando vocês vão voltar a ele. A diferença está numa única frase a mais: “preciso de meia hora para me organizar. Às oito a gente volta nisso.”

A pausa também precisa ser realmente gasta se acalmando. Se você a percorre inteira na cabeça como preparação do discurso final, o pulso não desce e você volta carregado. Funciona uma caminhada, um banho, lavar a louça, qualquer coisa que tire a atenção do conteúdo da briga. Sobre o que fazer com as emoções num momento desses você encontra mais no texto sobre regulação emocional.

Frases que funcionam

Fórmulas prontas não são mágica. Mas poupam a procura de palavras justo quando a cabeça não colabora, então trate-as como rascunho para reescrever na sua própria língua.

  • “Não quero ganhar. Quero que a gente saia dessa junto.”
  • “Você pode me dizer isso de novo? Quero ter certeza de que estou ouvindo direito.”
  • “Falei isso mal, vou tentar de novo.” Um reinício curto no meio da briga funciona melhor do que se espera.
  • “Nesse ponto eu concordo com você.” Até uma concordância pequena derruba bastante a temperatura.
  • “Preciso de vinte minutos e depois a gente termina. Nos vemos no café às oito e meia.”
  • “Do que você precisaria para que da próxima vez terminasse diferente?”

Igualmente útil é saber o que não funciona nem em tom calmo. A pergunta “por que você vive...?” é uma acusação disfarçada, porque nenhuma resposta a ela pode cair bem. Da mesma forma, a frase “mas eu só quero que você seja feliz” soa a desculpa no meio de uma briga, mesmo quando você fala com sinceridade.

O que fazer quando os dois esfriarem

O erro mais comum depois de uma briga é fingir que nada aconteceu. A noite passa numa gentileza suspeita, de manhã se fala do tempo e o assunto fica embaixo da superfície, de onde pula na próxima oportunidade, em geral com mais força e com um timing pior.

Voltar ao assunto, por sinal, não precisa significar uma conversa longa. Basta um reinício suave: uma frase curta que abra o tema sem acusação, mais a oferta de um horário concreto. “Me desculpa por ter levantado a voz ontem. A gente pode voltar naquilo da lava-louças depois do jantar?”

É útil separar duas coisas que nos pedidos de desculpa costumam se misturar. Pela forma, ou seja, pelo tom, pelas palavras e pelo momento, dá para se desculpar mesmo quando você continua mantendo o conteúdo. Essa distinção tira o veneno das discussões mais rápido do que qualquer acordo sobre quem tinha razão, e é nela que se apoia também aquilo que se chama comunicação não violenta: falar da própria vivência e da própria necessidade em vez do defeito alheio.

A desescalada não é igual para todo mundo e aqui compensa se conhecer. Quem puxa para uma abordagem competitiva vigia sobretudo o ritmo e a vontade de ter a última palavra. Quem prefere evitar conflitos esbarra no problema oposto: sabe parar, mas volta com mais dificuldade, então a pausa vira facilmente um silêncio permanente.

O modelo de dupla preocupação, descrito por Blake e Mouton, distingue cinco desses caminhos, e um panorama deles está no guia estilos de resolução de conflitos. Se você quer saber onde se encaixa, ajuda o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, mais ou menos quatro minutos, e o resultado é um estilo primário e um secundário além da sua posição no mapa assertividade × cooperação.

Bruno e Camila só voltaram à lava-louças no dia seguinte e levaram cinco minutos. Não concordaram completamente. Acertaram quem esvazia durante a semana e deixaram os fins de semana em aberto por enquanto. Nesses cinco minutos, porém, nenhum dos dois levantou a voz, o que em relação à noite anterior era uma diferença mensurável.

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