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Personalidade e autoconhecimento

Como ser engraçado: o que dá para treinar de fato

Piada emprestada não funciona, e o motivo não é talento. O que sustenta uma tirada, por que ser boa plateia rende mais e o que dá para treinar.

Na segunda-feira, na reunião, Bruno repetiu uma frase com a qual na sexta a mesa inteira tinha rido da Camila. As mesmas palavras, na mesma ordem, até a mesma pausa no meio. Silêncio.

A explicação mais fácil está logo ali: Camila simplesmente “tem”, e Bruno não. Só que, se você rebobinar aquela sexta em câmera lenta, vai enxergar outra coisa. Camila não soltou a frase no vazio. Ela emendou no que outra pessoa tinha dito dois minutos antes, estava sentada com gente que almoça junta há um ano e falava de uma situação que todo mundo ali vivia naquele instante. De tudo isso, Bruno levou a única parte transportável, ou seja, as palavras. E as palavras são o que menos importa numa piada.

O que se perde no caminho

Uma piada não é um texto, é um acontecimento. Ela se sustenta em várias coisas ao mesmo tempo: no que foi dito instantes antes, em quem fala e em como os outros o enxergam, no ritmo da conversa e no astral das pessoas em volta. Uma frase emprestada carrega um único desses componentes e, quanto ao resto, precisa torcer para que se complete sozinho.

O que mais se perde é o timing. A frase da Camila caiu no segundo em que a conversa travou e todo mundo esperava para ver quem ia empurrá-la adiante. Bruno soltou essa mesma frase no meio de uma discussão embalada sobre orçamento, onde ninguém a queria e, principalmente, onde não havia espaço para ela. Mesmo conteúdo, buraco diferente.

A segunda perda é mais silenciosa. Com a Camila, a mesa já pressente que pode vir um comentário, então escuta de outro jeito e faz parte do trabalho por ela. Bruno é conhecido como aquele que fala de números na reunião. Quando de repente escapa uma tirada dele, as primeiras pessoas ainda estão trocando de modo e, quando trocam, já passou.

A isso se soma a história em comum. Toda turma que passa tempo junta cria em poucos meses o próprio estoque de referências: uma confraternização que deu errado, uma frase que alguém da diretoria soltou certa vez, o nome da impressora. Uma frase construída sobre esse estoque é irresistível dentro do grupo e ininteligível fora dele. Pegá-la emprestada é como pegar emprestada a chave do apartamento dos outros.

A maior parte do riso não pertence às piadas

Robert Provine e sua equipe passaram anos ouvindo onde exatamente as pessoas riem, e num livro de 2000 ele resumiu duas conclusões que mexem bastante nesse quadro. Rir é cerca de trinta vezes mais provável em companhia do que sozinho. E a maior parte do riso não vem depois de uma piada, mas depois de uma frase completamente banal, do tipo “bom, eu vou indo” ou “cadê você?”.

O riso é, portanto, na maior parte um sinal social, e só em segundo lugar uma avaliação de desempenho cômico. As pessoas riem sobretudo porque estão juntas e se entendem. Quem subestima isso tenta vencer uma prova em que quase ninguém compete.

Para quem quer ser mais engraçado, daí sai uma conclusão bem inesperada. A maior parte do trabalho não acontece no que você diz, e sim em você estar ali. Quem passa uma hora calado numa festa e depois solta uma tirada bem construída parte de uma posição bem pior do que quem passa a noite conversando tranquilamente sobre nada.

Na prática, sai daí um conselho que soa quase como trapaça. O caminho mais rápido para as pessoas passarem a ver você como alguém engraçado não é ter frases melhores, é ser uma plateia melhor. Quem ri da tirada do outro de verdade e, principalmente, na hora certa, ganha do grupo espaço para a sua. Quem cobre as piadas alheias com as próprias vai perdendo esse espaço aos poucos, mesmo quando as suas são objetivamente melhores.

Ter graça é em boa parte uma habilidade

Agora a parte boa. Em 2011, Gil Greengross e Geoffrey Miller deram a cerca de quatrocentos estudantes a tarefa de inventar respostas e legendas engraçadas e mandaram avaliá-las de forma independente. A capacidade de produzir respostas engraçadas se relacionava com a inteligência geral e com a verbal.

Isso não quer dizer que os engraçados são inteligentes e os demais estão sem sorte. Quer dizer algo mais prático: fabricar humor é uma operação cognitiva. Tem entradas, tem passos e tem um resultado; dá para fazer rápido ou devagar, melhor ou pior. E o que tem passos dá para treinar, mesmo quando de fora parece um estalo vindo do nada.

A observação honesta também cabe aqui. Treino nenhum transforma alguém em comediante profissional, e as diferenças entre as pessoas continuam onde estão. Ainda assim há muito espaço para avançar, porque a maioria nunca tentou nem as coisas mais simples e desistiu de cara, achando que humor é dom.

Três coisas que dá para treinar

Olho para o absurdo do dia a dia

Gente engraçada não inventa mais que as outras, apenas repara em mais coisas. O absurdo está espalhado à nossa volta numa densidade que um dia comum nem consegue registrar. Na sala de reunião está pendurado desde o começo do ano um cartaz sobre comunicação aberta e, embaixo dele, a escala de quem pode reservar a sala. Isso é material pronto, basta enxergar.

O exercício é chato e funciona. Durante uma semana, anote toda noite uma coisa que não combinava. Não uma piada, só uma observação. Depois de alguns dias você vai perceber que esse pequeno descompasso começa a se anunciar sozinho no momento em que acontece, e esse é justamente o instante em que dá para fazer algo com ele em voz alta.

A pausa antes da tirada

O iniciante despeja a tirada porque teme que alguém entre no meio. O contador experiente coloca meio segundo de silêncio antes dela. Essa pausa faz duas coisas ao mesmo tempo: dá a quem escuta tempo de chegar um passo adiante por conta própria, de modo que metade do trabalho é feita pela cabeça dele, e ao mesmo tempo mostra que quem fala está no controle da situação.

Da mesma lógica vem o erro mais comum. Quem começa a rir antes da tirada ou a anuncia dizendo que agora vem coisa boa levanta a própria régua e depois passa por baixo dela. Os melhores comentários são ditos num tom que sugere que nada de especial está acontecendo.

À pausa se liga também a duração. A imensa maioria das histórias malsucedidas não cai por causa de uma tirada ruim, e sim porque o caminho até ela durou trinta segundos mais do que devia. Testar é simples: pegue uma história que você conta com frequência e, da próxima vez, corte dela todos os apartes explicativos. Vai sair uma versão mais curta com a qual as pessoas riem mais, porque a última palavra da frase finalmente é a que importa.

O callback

A técnica mais barata de todas, e quase ninguém a usa de propósito. O callback significa voltar a algo que foi dito antes, tranquilamente meia hora antes, e usar de novo num contexto completamente diferente.

No começo da reunião alguém reclamou que o projetor está há um mês puxando para o rosa. Quarenta minutos depois se aprova a nova identidade visual e Bruno apenas observa que a cor quem vai decidir é o projetor mesmo. Sozinha, não é tirada nenhuma. Funciona porque diz “estive aqui com vocês esse tempo todo”, e esse é exatamente o sinal social sobre o qual Provine escreveu.

O callback tem mais uma vantagem. Não exige que você invente material novo, trabalha com a matéria-prima que a plateia forneceu. Para quem acha que não vai lembrar de nada, é o jeito mais fácil de entrar no humor que já existe na sala.

O que não faz sentido treinar

Existem três becos sem saída em que entra quase todo mundo que decide ser mais engraçado. Todos parecem razoáveis à primeira vista e todos levam ao mesmo resultado, ou seja, a pessoa larga de vez depois de duas ou três tentativas.

Beco sem saída Por que parece boa ideia O que acontece
Frases dos outros Aquela frase comprovadamente funcionou, então por que não usar de novo. Faltam a ela o contexto, quem fala e o timing. No melhor caso, silêncio; no pior, a sensação de que alguém está se enfeitando com penas alheias.
Humor contra a plateia A reação vem na hora e é barulhenta, então passa por sucesso. Riso à custa de alguém aumenta a tensão do grupo inteiro. Os outros calculam que da próxima vez pode ser a vez deles e passam a se vigiar.
Piada a qualquer preço Quem solta dez frases acerta pelo menos uma. Nove tentativas fracassadas cansam quem está em volta antes que a décima chegue. Além disso, some a capacidade de falar sério quando é preciso.

Vale parar no item do meio, porque ele é fácil de ler como sermão. Humor afiado não é defeito de caráter e, entre pessoas que confiam umas nas outras, a alfinetada funciona como demonstração de proximidade. A diferença não está na intenção, e sim em quão seguro o outro se sente naquele momento. Pegar emprestado o registro afiado como técnica, sem a confiança que o sustenta, é o jeito mais rápido de arrumar encrenca.

Na mesma categoria entra mais um reflexo: salvar uma piada que não pegou. Explicar a tirada nunca a conserta, só estica o momento constrangedor e acrescenta vergonha ao fracasso. Uma frase furada depois da qual simplesmente se continua a conversa some em dois segundos e ninguém guarda. A mesma frase seguida de “era por causa daquilo de ontem, quando…” fica na sala até o fim da reunião.

Talvez você não seja sem graça, só esteja tocando um registro que não é seu

Aqui chegamos ao que costuma passar mais despercebido. A maioria de quem diz que não é engraçado tem em mente uma situação específica: não consegue animar a mesa. Só que animar a mesa é apenas uma das quatro posições básicas do humor, e por acaso é a mais visível.

A pesquisa de Rod Martin de 2003 dividiu o humor por dois eixos independentes, ou seja, pelo tom e por onde a piada mira. Saem dali quatro posições: o humor agregador, que junta a turma; a distância fortalecedora, com a qual a pessoa se ajuda dentro da própria cabeça; o humor ácido com fio; e a posição autodepreciativa, em que o alvo é quem conta. Ninguém é só uma delas, trata-se mais de uma mistura e de qual posição cada um tem rodada. A divisão inteira é destrinchada com mais detalhe no panorama dos quatro estilos de humor.

Uma pessoa introvertida que tenta copiar o amigo capaz de animar o bar inteiro, então, em geral não está lutando com falta de humor. Está lutando com o fato de estar tocando uma posição que não é dela. O registro dela pode ser um comentário seco a dois, do qual o outro ainda ri no dia seguinte, ou a habilidade de transformar a própria mancada em história. Na mesa cheia isso nunca vai funcionar, e nem precisa.

O número de pessoas também pesa. O humor para seis à mesa precisa de voz, ritmo e coragem de entrar numa conversa embalada. O humor para dois precisa exatamente do contrário, de atenção ao detalhe e de capacidade de esperar. São disciplinas tão diferentes que alguém pode ser ótimo numa e abaixo da média na outra sem que isso diga nada a respeito dele. E quase todo veredicto do tipo “não sou engraçado” nasce exclusivamente na primeira situação.

Pergunte a si mesmo com honestidade: quando foi a última vez que você fez alguém rir sem tentar? Não numa festa, e sim no carro, no jantar ou no grupo do trabalho. Essa situação diz mais sobre o seu registro do que todas as festas em que você se sentiu invisível. Das ligações entre o temperamento e aquilo de que cada um ri trata um texto à parte sobre o que entrega o senso de humor.

Se você quiser saber qual das quatro posições está rodada em você e qual está parada, uma orientação vem do teste de estilos de humor. Tome o resultado como ponto de partida para observação, não como rótulo. Uma posição rodada é hábito, não sentença, e com hábito dá para trabalhar.

O que aconteceu três semanas depois

Ampliar o registro é diferente de se reprogramar para virar outra pessoa. Significa acrescentar uma posição às que já funcionam e deixar as demais em paz. Quem sabe fazer o comentário seco pode experimentar o callback. Quem está acostumado a se rebaixar pode de vez em quando deixar o alvo vazio e apenas reparar no absurdo em volta.

Bruno parou de repetir frase dos outros. Em vez disso, passou três semanas escrevendo as próprias pequenas observações nas notas do celular sem fazer nada com elas. Depois, numa reunião de novembro, quando pela terceira vez se discutia quem entregaria os dados, ele disse uma frase sobre os dados estarem de home office havia três semanas. Duas pessoas riram, uma anotou e a reunião seguiu.

Mais interessante é o que veio depois. Quando Camila perguntou de tarde o que ele tinha dito exatamente, ele não conseguiu repetir. Aquela frase pertencia àquela quarta-feira, àquela terceira rodada de empurra-empurra e àquelas duas pessoas, e para nenhum outro lugar dava para levá-la.

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