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Psicologia e bem-estar

Estilos de humor: 4 tipos e como saber o seu

A mesma piada, duas pessoas, dois resultados. Quais são os 4 estilos de humor que a pesquisa descreve, no que diferem e de qual você ri.

Na reunião de segunda-feira Rafael solta que o sistema novo é tão intuitivo que qualquer um entende, desde que leia o manual duas vezes antes. Três minutos depois Juliana comenta que quem apanha mesmo dele é o colega Bruno, mas o Bruno também apanha do elevador. A mesa ri nas duas vezes, e na segunda piada até um pouco mais alto.

A diferença entre essas duas frases só aparece depois. A de Rafael vira bordão do escritório ao longo da semana; a de Juliana o Bruno ainda repassa na cabeça à noite, no caminho de casa. Não foi talento nem rapidez de raciocínio, foi direção: uma piada mirou a situação, a outra mirou uma pessoa sentada na sala. É em torno dessa fronteira que a psicologia do humor construiu nos últimos vinte anos o seu modelo inteiro.

A pergunta saiu de “quanto” para “para quê”

Os questionários mais antigos mediam o humor como uma grandeza só. Quanto você tem, com que rapidez as tiradas aparecem, o quanto as piadas dos outros te divertem. O problema é que essa medida dava a mesma pontuação alta para quem mantém a turma unida e para quem vai diminuindo os colegas sem parar. Os dois riem muito e os dois têm a língua rápida.

Rod Martin e a equipe dele propuseram por isso, em 2003, outro arranjo. No lugar da quantidade de humor descreveram a sua função e a dividiram com duas perguntas. A primeira pergunta pelo tom: a piada é gentil ou tem fio, ou seja, custa alguma coisa a alguém? A segunda pergunta pela direção: ela aponta para fora, para as pessoas, ou para dentro, para quem a diz? De duas perguntas sai uma grade com quatro casas, e em cada uma delas está sentado um dos quatro estilos de humor.

O humor gentil dirigido aos outros é o agregador. O humor gentil dirigido a si mesmo é o fortalecedor, aquele afastamento que a pessoa fabrica sozinha em relação à própria enrascada. O fio virado para fora dá o estilo ácido; o fio virado contra si mesmo, o autodepreciativo. Academicamente, o primeiro deles é chamado de humor afiliativo, palavra desnecessariamente comprida para um comportamento que você conhece de qualquer festa.

O interessante é o que esse modelo afirma sem dizer. O humor deixou de ser uma virtude da qual a pessoa tem muito ou pouco e virou ferramenta. Ferramentas são julgadas pelo que fazem e por na mão de quem estão. Quanta coisa dá para entender do humor de alguém é desmontado com mais detalhe no texto sobre o que o senso de humor revela da personalidade.

Cabe aqui um achado que pega a maioria das pessoas de surpresa. Robert Provine e a equipe dele gravaram conversas comuns em shoppings e corredores e, num livro de 2000, ele resumiu que só uma fração do riso vem depois de uma piada. A maior parte vem depois de frases completamente banais do tipo “então até amanhã” ou “e você, onde estava?”. E em companhia rimos na ordem de umas trinta vezes mais facilmente do que sozinhos.

O riso, portanto, não é principalmente uma reação à graça, e sim um movimento social. Voltando à reunião, a frase de Rafael e a de Juliana foram antes de tudo movimentos dentro de um grupo: uma aproximou as pessoas, a outra empurrou uma delas para o canto. O estilo de humor descreve exatamente esse movimento, não a qualidade da tirada.

Os quatro estilos em resumo

A tabela reúne como cada estilo se reconhece de fora, para que serve e o que se paga por ele. Nenhum deles é defeito de caráter e cada um tem uma situação em que é a melhor opção disponível.

Estilo Como aparece Para que serve O que custa
Agregador Brinca com as pessoas, não com as pessoas como alvo. Quebra um silêncio constrangedor, transforma uma vivência coletiva em história e puxa o recém-chegado para a conversa. O caminho mais rápido que existe para a confiança. Quem ri junto aguenta junto também as coisas desagradáveis com mais facilidade. Quando o bom humor passa a ser esperado o tempo todo, um assunto pesado abre pior e o seu próprio dia ruim não tem para onde ir.
Fortalecedor Acontece principalmente dentro da cabeça. O trem atrasado e o próprio mico viram história em questão de instantes. Um afastamento que não precisa de plateia. Funciona inclusive quando ninguém mais vai salvar o clima. O que vira piada na hora pode nunca chegar a ser sentido de verdade. Algumas coisas precisam continuar desagradáveis até serem resolvidas.
Ácido Alfinetadas, provocações e comentários à custa de presentes e de ausentes. Rápido, esperto e em geral certeiro. Nomeia aquilo que todo mundo vê e ninguém fala. Entre pessoas que confiam umas nas outras, provocar funciona como sinal de proximidade. Quem decide o efeito não é a sua intenção, é a segurança do outro. Quem levou a alfinetada costuma rir junto, então na hora você não fica sabendo.
Autodepreciativo O alvo é você. Conta o próprio mico antes e melhor do que outra pessoa conseguiria puxar. Desarma e tira a tensão da sala. E é o jeito mais barato de chegar antes do deboche alheio. O papel de quem aguenta tudo gruda. Uma piada sobre si repetida pela décima vez o pessoal arquiva como fato, não como exagero.

As casas gentis convidam a serem lidas como boa educação, mas têm pouco a ver com isso. O humor agregador é uma habilidade social com resultado bem palpável: numa sala onde as pessoas riram juntas há pouco, uma má notícia sai com menos esforço. O estilo fortalecedor, ao contrário, é quase invisível, porque acontece entre as orelhas. No outro você só percebe de forma indireta, pelo fato de um voo cancelado ou um carro amassado não derrubarem a pessoa do jeito que você esperava.

O estilo ácido é aquele diante do qual as pessoas começam mais rápido a se defender ou, ao contrário, a se desculpar, e nenhuma das duas coisas é necessária. Muita amizade de anos se sustenta justamente na provocação mútua e sem ela pareceria estranhamente formal. Só que não é a formulação que decide se uma alfinetada aproxima ou corta. Quem decide é o quanto o outro se sente seguro naquele momento. Onde exatamente fica essa fronteira e por que a mesma frase se lê de um jeito na sexta à noite e de outro na segunda de manhã é desmontado no texto sobre quando o sarcasmo funciona e quando não.

Capítulo à parte é o humor sobre assuntos com os quais normalmente não se brinca. Uma piada daquelas soltas num corredor de hospital não cai automaticamente na casa ácida, porque o alvo dela em geral não é uma pessoa, e sim o próprio horror da situação. A quem esse registro serve e o que se sabe sobre ele é tratado num texto separado sobre humor negro.

Cada uma das quatro posições tem o seu momento de ser a melhor opção disponível. Um comentário afiado nomeia em dois segundos aquilo que uma descrição educada contornaria por dez minutos. E o próprio mico colocado na mesa mostra ao recém-chegado, em um instante, que perto de você ele não precisa se policiar. Quem decide, então, é o contexto e a dose, não o estilo em si.

Quatro números no lugar de um rótulo

O engano mais comum com um modelo de quatro casas é esperar que uma delas engula você inteiro. As escalas, porém, são independentes. Uma pontuação alta no humor agregador não baixa em nada a do ácido, e alguém pode ter três estilos de quatro lá em cima tranquilamente. Você não recebe um rótulo, recebe quatro números, e só a proporção entre eles diz alguma coisa.

Na prática lê-se sobretudo a dupla dos dois primeiros lugares. O estilo primário é aquele ao qual você recorre no automático, quando não está pensando. O secundário entra quando o primário não serve ou quando a coisa aperta. As duplas são doze e diferem bastante: um animador com secundário ácido segura a noite inteira no tiroteio, enquanto um animador com secundário autodepreciativo ocupa ele mesmo o lugar de alvo e solta a turma mais rápido do que qualquer outro.

A Juliana da abertura, por isso, não precisa ser “a ácida”. Pode muito bem ter os dois lá em cima, o ácido e o agregador, e aí sai dela uma pessoa que engrena a festa sem poupar ninguém. Essa combinação costuma ser querida e arriscada ao mesmo tempo, porque a plateia recompensa e piada recompensada tende a apertar mais na próxima.

O repertório, além disso, pode ser largo ou estreito. Quem tem um estilo marcante e o resto embaixo é legível e o humor dele tem caligrafia própria, só que a situação em que essa única posição não serve o pega sem plano reserva. Quem tem três ou quatro lá em cima puxa, conforme o momento, a história ou o comentário seco. É justamente com essa pessoa que acontece com facilidade de recorrer ao que está à mão em vez do que faz falta naquela hora.

E mais uma coisa se confunde com frequência: estilo não é a mesma coisa que quantidade. Uma pessoa calada que numa noite diz três frases pode ter um humor marcadamente agregador, porque as três miraram gente. Quanto você ri e para onde o seu humor aponta são duas medidas diferentes.

A proporção desses quatro números também não é vitalícia. O ambiente mexe nela: num time onde a alfinetada rápida é recompensada, o componente ácido cresce inclusive em quem não o trouxe para o trabalho, e numa turma onde cada enrascada vira história você aprende isso em uma temporada. Vale tratar um resultado como foto do ajuste atual, não como descrição do caráter.

O que os estilos dizem sobre o bem-estar e o que não podem dizer

Aqui a cautela compensa, porque é justamente essa parte da pesquisa que as manchetes torcem com mais frequência. O grupo de Martin e, depois dele, uma série de outros trabalhos chegam repetidamente ao mesmo quadro. Os dois estilos gentis costumam vir junto com melhor humor e relações mais satisfatórias, enquanto o humor autodepreciativo cai mais para o lado oposto, ou seja, mais perto de um estado pior. O estilo ácido é aproximadamente neutro para quem o usa, e a conta dele quem paga costuma ser quem está em volta.

A palavra “correlaciona” faz todo o trabalho numa frase dessas. Ninguém mediu se se diminuir estraga o astral ou se quem está mal simplesmente vira o humor contra si com mais frequência. Pode muito bem valer uma coisa e outra, e ainda uma terceira por trás das duas. De uma correlação não sai uma sentença sobre alguém, só uma observação que merece atenção.

Vale mencionar também o tamanho dessa ligação. Não se trata de um abismo entre a pessoa satisfeita e a infeliz, e sim de uma inclinação leve que aparece apenas em grupos grandes de gente. Uma pessoa específica com humor autodepreciativo pode estar perfeitamente bem, e alguém com dois estilos gentis pode ter um ano péssimo nas costas. Qualquer comparação com os outros é, por isso, apenas orientativa.

Ajuda também separar duas coisas que de fora parecem iguais. A autoironia em que a pessoa mantém o próprio valor e apenas não banca a infalível está entre as qualidades sociais mais agradáveis que existem. A autodepreciação em que a piada é ao mesmo tempo uma opinião sobre si soa exatamente igual na superfície e funciona de outro jeito por dentro. Onde passa a fronteira entre as duas e como reconhecê-la em você é desmontado no texto sobre autoironia saudável.

E agora com sinceridade: quando foi a última vez que você disse de si mesmo algo que te diminuía e pensava aquilo pelo menos pela metade? Não como história que você conta porque funciona, mas como frase com a qual você meio que concorda. A resposta a essa pergunta diz do seu repertório mais do que o modelo inteiro junto.

No casal tudo isso aparece com mais força. O riso compartilhado entre duas pessoas costuma ser um bom indicador de como o relacionamento vai, e é ali também que se percebe mais rápido quando o fio deixa de ser brincadeira e vira um jeito de dizer alguma coisa de verdade. A como o humor se comporta entre duas pessoas que moram juntas é dedicado o texto sobre o que faz o humor no relacionamento.

Nada disso é traço esculpido em pedra. Um estilo de humor se parece mais com uma trilha batida por onde as suas reações andam, porque já andaram por ali mil vezes. Trilhas batidas podem ser desviadas, só que leva mais tempo do que uma promessa.

Como descobrir com o que você ri de verdade

A auto-observação tem um defeito quando o assunto é humor. Lembramos das piadas que deram certo, enquanto as que caíram no silêncio somem da memória em poucas horas. A maioria das pessoas se avalia, por isso, um tanto mais gentil do que quem está em volta a vê, e no estilo ácido essa diferença costuma ser a maior.

Mais aproveitável é acompanhar algumas coisas concretas, e numa semana comum, não para trás e de memória. Para quem foi dirigida a última piada que você disse hoje? O riso começou na hora ou alguém entrou só um segundo depois? E se aquela frase não tivesse saído, a situação teria perdido alguma coisa ou só você?

O segundo apoio é ainda mais simples e funciona no Natal e nas férias. Repare no que você busca no momento em que está mal. Nesse estado uma pessoa começa a entreter quem está em volta, outra traduz a enrascada na cabeça em história e não conta para ninguém, uma terceira alfineta o primeiro que estiver por perto e uma quarta faz papel de palhaço. Essa é a sua posição de partida, e de forma mais confiável do que qualquer coisa que você diga de si com calma e distanciamento.

Vale acompanhar também onde o seu repertório muda. A maioria tem uma posição em casa e outra no trabalho, só que pouca gente consegue lembrar quando exatamente trocou. Quando você começa a reparar, costuma ficar claro que o interruptor não é comandado pela situação, e sim por pessoas específicas. Com dois ou três nomes você anda numa posição que em outro lugar não usaria.

A fonte de dados mais barata está de qualquer jeito ao alcance e é alguém que te escuta todo dia. Pergunte ao parceiro ou a um colega quem costuma ser o alvo na sua presença e se, nas suas piadas, você ri mais vezes com as pessoas ou delas. A resposta costuma vir em dois segundos e sem hesitação, o que já diz alguma coisa por si. Onde a sua versão e a deles se separarem, mais perto da realidade em geral está a deles, porque eles ouvem o resultado enquanto você conhece só a intenção.

Se você quiser um quadro orientativo mais rápido, faça o breve teste de estilos de humor. Ele pergunta sobre situações comuns e devolve quatro números mais o estilo primário e o secundário. Trate como ponto de partida para a sua própria observação, não como veredicto.

A semana em que você vai contar alvos

Experimente por sete dias um exercício que custa um minuto por dia. À noite anote dois números: quantas vezes hoje a sua piada mirou alguém da sala e quantas vezes mirou você. Não avalie mais nada, só esses dois números.

Depois de uma semana sai dali uma proporção, e ela costuma ser desagradavelmente exata. Para alguém dá zero a zero, e a pessoa descobre que o humor dela gira só em torno de situações e quase não toca em gente. Outro vai ver sete a um e ficar surpreso com o quanto despeja sobre alguém numa semana sem saber.

Esse segundo número pesa o mesmo que o primeiro. Uma piada à própria custa dita de vez em quando é presente social; a quarta numa única noite já é hábito, e o hábito o pessoal arquiva como descrição, não como exagero. A diferença entre as duas coisas não está no que você diz, está em quantas vezes.

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