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Relacionamentos e comunicação

Como superar um término - o que funciona e o que não funciona

Por que um término dói como abstinência, o mito das fases e do tempo, o que a pesquisa mostra que ajuda na recuperação e o que atrasa tudo em silêncio.

É meia-noite e meia, o celular está no carregador e você sabe que não deveria pegá-lo. Você pega mesmo assim. Abre o perfil da outra pessoa, rola fotos antigas, relê uma conversa que sabe de cor. De manhã você se odeia e, na noite seguinte, faz tudo de novo.

Se isso soa familiar, não se trata de fraqueza nem de drama. Quando Ethan Kross e colegas colocaram, em 2011, pessoas recém-abandonadas diante de uma foto do ex, o exame acendeu regiões que normalmente cuidam da dor física, especificamente o córtex somatossensorial secundário e a ínsula posterior dorsal. O cérebro processa parte de um término pela mesma fiação de uma mão queimada.

Por que um término dói como uma abstinência

A dor é uma coisa. A vontade de mandar mensagem, de checar e de esperar resposta tem a sua própria explicação. Em 2010, a antropóloga Helen Fisher e a sua equipe conduziram um estudo de ressonância magnética funcional com pessoas cujo parceiro as havia deixado, em média, dois meses antes, e que ainda estavam apaixonadas. Uma foto de quem as rejeitou acendeu o sistema de recompensa da dopamina, principalmente a área tegmentar ventral e o núcleo accumbens.

É o mesmo circuito que dispara em um hábito de nicotina ou de cocaína. E o achado mais estranho: era mais forte do que em pessoas felizes e apaixonadas. A rejeição não apaga o desejo; por um tempo, ela o atiça.

Os psicólogos chamam isso de atração por frustração. Quando uma recompensa fica subitamente fora de alcance, o cérebro a quer mais, não menos, ao menos nas primeiras semanas. É por isso que um ex ocupa mais espaço na sua cabeça depois do término do que ao longo dos seis meses anteriores. Não é prova de que vocês pertenciam um ao outro, é apenas a química reagindo à perda.

Cada checada no perfil da pessoa é uma pequena dose que alimenta o sistema de recompensa, traz um instante de alívio e depois deixa você querendo mais. Isso não é falta de força de vontade, é um ciclo de abstinência. Se você conhece esse padrão de perto, porque se apoiava no parceiro como única fonte de calma, há mais no nosso guia sobre a codependência no relacionamento.

O mito das fases e o mito do tempo

Circula por aí uma imagem organizada do luto: fases arrumadas por onde se passa até chegar à aceitação. Mas o modelo das cinco fases descrevia o morrer, não um término, e mesmo ali se mostrou frágil. A dor de perder um parceiro não anda em linha reta.

David Sbarra e Robert Emery acompanharam pessoas dia a dia depois de um término, em 2005. A raiva e a tristeza atingem o pico logo após o fim e diminuem com o tempo, mas não de forma suave. Um dia você está bem, no outro uma música em uma loja derruba você. Esse sobe e desce não é sinal de que as coisas não estão melhorando, é exatamente assim que o processo se parece.

Três semanas depois, João estava surpreendentemente bem, melhor do que esperava. Então uma quinta-feira comum, na sexta semana, o desmontou, quando ele abriu a conversa para mandar a ela uma foto de um cachorro e só se lembrou ao apertar enviar. Não foi um retrocesso, apenas uma onda que o alívio de finalmente ter decidido segurou por três semanas.

O segundo mito diz que o tempo cura. O tempo sozinho não faz nada; o que importa é o que você faz com ele. Sbarra também mostrou que as pessoas que se recusam a aceitar que acabou, agarradas à esperança de uma volta, se recuperam mais devagar. Duas pessoas que saem de relacionamentos igualmente longos podem estar em lugares muito diferentes um ano depois.

O que realmente ajuda, segundo a pesquisa

Nenhum truque isolado funciona, mas alguns voltam com regularidade na pesquisa.

Corte o contato, inclusive o de acompanhar a pessoa na internet. Não por rancor nem para provar algo, mas por causa daquele ciclo de dopamina. Se você segue se dosando com fotos e publicações, o sistema de recompensa não consegue se assentar. Deixar de seguir e silenciar, ou apagar o contato na fase aguda, não são gestos infantis, e sim a forma de quebrar a química que segura você.

Recorra à escrita e à reflexão, mas com cuidado. Sbarra e colegas descobriram, em 2013, que a escrita expressiva sobre um término atrasou a recuperação de algumas pessoas, especificamente as que tendem a remoer por que aquilo aconteceu. A reflexão pergunta “o que eu tiro disso”; a ruminação gira em torno de “por que comigo” e não leva a lugar nenhum. Um teste simples distingue as duas: se vinte minutos com o diário deixam você mais leve, siga escrevendo; se a sensação for de um nó mais apertado, feche o caderno e vá procurar alguém.

O básico chato funciona. Dormir, se exercitar, comer no horário de sempre, uma rotina matinal. Quando um relacionamento desmorona, a estrutura do dia vai junto, e o vazio se enche de pensamento. O movimento amortece a resposta de estresse do corpo. Não precisa correr uma maratona, meia hora ao ar livre por dia já basta.

As pessoas ao seu redor. O isolamento depois de um término é compreensível e traiçoeiro ao mesmo tempo. Você não precisa repassar a história para ninguém (veja a ruminação), basta estar entre pessoas que se importam com você.

E talvez o mais valioso: reencontrar a si. Gary Lewandowski e a sua equipe descreveram como um término muitas vezes nos custa um pedaço da identidade, porque, ao longo de um relacionamento longo, o “eu” e o “nós” se trançam. “Quem sou eu sem ela”, ou sem ele, soa aterrorizante e, ainda assim, está entre as perguntas mais úteis que dá para fazer. Quem redescobre os próprios interesses e os lados que silenciou se recupera melhor. Quando foi a última vez que você fez algo puramente por você, sem nenhuma relação com o seu ex? Um término também é uma chance de reconstruir uma autoestima saudável que não sobe e desce com uma única pessoa.

O que realmente atrasa a recuperação

Algumas coisas aliviam a dor aguda, mas arrastam a recuperação. Funcionam como uma compressa, não como cura.

  • O relacionamento de rebote como anestesia. Um novo relacionamento ou uma sequência de casos logo depois do término em geral abafa a dor em vez de começar algo novo. Às vezes ajuda, mais vezes apenas adia o que você vai sentir de qualquer jeito.
  • Idealizar o seu ex. A memória gosta de pintar um ex com cores róseas e apagar as brigas. Traga à tona também os motivos pelos quais aquilo acabou, não apenas os bons momentos.
  • Trabalho de detetive na internet. Rastrear onde a pessoa esteve e com quem, assistir à encenação de como ela está ótima, é exatamente alimentar o ciclo descrito acima.
  • Álcool e outros sedativos. Funcionam para a noite, mas arruínam o seu sono e o seu humor no dia seguinte e aumentam o risco de escorregar para a depressão.
  • Decisões grandes na fase aguda. Mudar de casa, pedir demissão, um corte de cabelo dramático. Nas primeiras semanas é a química da recompensa e do estresse que decide por você, não você. Espere os níveis se equilibrarem.

Por que uma pessoa desaba e outra atravessa

Você talvez conheça duas pessoas com términos parecidos, uma bem em um mês, a outra ainda juntando os cacos meio ano depois. Boa parte disso vem do estilo de apego, a forma como você se vincula a quem está próximo.

As pessoas com estilo de apego ansioso em geral atravessam um término de forma mais difícil e mais longa. O fim aciona um alarme antigo sobre o abandono, elas custam mais a aceitar e sentem um puxão mais forte para restaurar o contato. Sbarra confirmou isso nos dados: não aceitar o fim prevê um desaparecimento mais lento da tristeza justamente em quem tem apego ansioso.

As pessoas evitativas vivem isso de outro jeito. Por fora parecem intactas, se jogando no trabalho ou no próximo relacionamento, mas adiam a dor em vez de escapar dela. A pesquisa de longo prazo de Sbarra mostrou que, depois de vários anos, foi a evitação, mais do que a ansiedade, que apareceu ligada a um sofrimento elevado. A conta adiada acaba chegando.

Quando uma pessoa ansiosa termina com uma evitativa, um par notoriamente comum, o padrão se repete mais uma vez. O parceiro ansioso manda mensagens e persegue um encerramento, o evitativo silencia e se afasta. Cada rodada desestabiliza o ansioso de novo e confirma o seu pior medo. É por isso que cortar o contato é, ao mesmo tempo, o mais difícil e o mais necessário aqui.

Quando já não é só tristeza

A dor depois de um término é normal e em geral passa sozinha. Às vezes, porém, ela vira algo que precisa de ajuda de fora. O luto oscila, e entre as ondas dá para funcionar. A depressão é mais plana, se mantém por semanas sem alívio e drena a vontade para tudo, não só para relacionamentos.

Procure um profissional se, depois de algumas semanas ou meses, não houver melhora nenhuma, se você não conseguir dar conta de coisas comuns como trabalho, sono e comida, se estiver anestesiando aquilo com álcool ou remédios, ou se aparecerem pensamentos de que seria melhor não estar aqui. Esse último não é para deixar de lado. Se você estiver nos Estados Unidos, a 988 Suicide and Crisis Lifeline é gratuita e funciona 24 horas por dia: ligue ou mande mensagem para 988.

O término como feedback

Quando o pior passa, vale não pular uma pergunta: o que este término me diz sobre mim? Não no sentido de culpa, e sim de padrão.

Você segue escolhendo um tipo parecido de parceiro? Os seus relacionamentos desmoronam na mesma etapa ou pelo mesmo conflito? Todo término derruba você do mesmo jeito, ou este caiu em um lugar diferente? As respostas muitas vezes levam não ao seu ex, e sim à forma como você aprendeu a se vincular aos outros.

É exatamente isso que o teste de estilo de apego mede. Ele mostra os seus níveis de ansiedade e de evitação e coloca você em um dos quatro estilos. Depois de um término ele é útil em dobro: mostra por que isso derruba você do jeito que derruba e por que talvez você continue escolhendo pessoas com quem tudo termina da mesma forma. Conhecer o seu padrão não cancela a dor, mas é a primeira etapa para tirar o próximo relacionamento desse trilho.

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