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Psicologia e bem-estar

Comparar-se com os outros: por que todos parecem melhores

A vitrine dos sucessos alheios contra os seus bastidores. O que a psicologia diz sobre comparar-se com os outros, quando ajuda e quando alimenta a dúvida.

No domingo à noite Carolina se enfia na cama e abre o LinkedIn. Em três minutos passam por ela uma colega de turma num cargo novo, um ex-colega anunciando a promoção e alguém que ela conhece de um congresso agradecendo ao time por um trimestre recorde. A tela apaga e sobra a sensação de não ter feito absolutamente nada no ano inteiro.

E fez bastante. Levou até o fim um projeto que doze meses antes parecia acima das suas forças e treinou duas pessoas novas a ponto de hoje elas andarem sozinhas. Só que isso não dá para fotografar e ninguém escreve parabéns embaixo.

Comparar é o jeito como nos medimos

Leon Festinger descreveu em 1954 uma coisa que se sustenta desde então: a pessoa precisa saber como está com as próprias capacidades e opiniões e, quando falta uma régua objetiva, recorre à gente ao redor. Quanto você corre em uma hora, o cronômetro mostra. Se você é bom colega, bom pai ou bom na sua profissão, nenhum cronômetro diz.

Por isso você se compara mesmo depois de ter prometido parar. Não é fraqueza de caráter nem falta de autoconfiança, e sim um ajuste padrão que liga sozinho e sem pedir licença. Festinger reparou em mais uma coisa: para a comparação não escolhemos qualquer um. Preferimos nos medir com gente parecida conosco, ou seja, mesma área, largada comparável, idade próxima.

Isso explica um efeito curioso. Uma notícia sobre um bilionário quase não abala ninguém, enquanto a promoção de um colega do setor vizinho consegue estragar uma semana inteira. Quanto mais o outro se parece com você, mais afiada a comparação corta, porque com ele a diferença não se resolve dizendo que vocês jogam em ligas diferentes.

A pergunta, então, não é se deve comparar. É com quem e por qual critério.

Para cima ou para baixo

A psicologia distingue duas direções. A comparação para cima mira alguém que, na sua avaliação, está melhor. A comparação para baixo mira alguém a quem vai pior. Thomas Wills descreveu em 1981 que recorremos à segunda principalmente no momento em que algo nos machucou ou algo não deu certo. Olhar para quem está pior alivia no curto prazo.

Nenhuma das duas direções é boa ou ruim por si só. O que decide é o que você leva dali.

Comparação para cima Comparação para baixo
Com quem Com alguém que está mais adiante, mais acima ou mais rápido. Com alguém que está pior do que você.
O que costuma fazer Mostra até onde dá para chegar e ao mesmo tempo lembra onde você não está. Alivia e acalma, em geral só por um tempo.
Quando ajuda Quando você vê no outro uma versão alcançável de si e sabe nomear uma coisa que ele faz diferente. Depois de um dia torto, quando você precisa recuperar o chão e seguir.
Quando atrapalha Quando você lê na diferença uma sentença sobre si em vez de uma informação sobre uma habilidade. Quando vira a sua fonte principal de calma, porque aí não há mais motivo para se mexer.

Ricardo senta ao lado de um colega que escreve um código mais limpo e tira dali uma coisa concreta, aprendível em duas noites. A mesma comparação, porém, o derruba no instante em que ele lê um veredicto no lugar de uma habilidade: ele tem talento, eu não, e acabou. Os dados de entrada são idênticos nos dois casos; muda só o que a cabeça faz com eles.

Se uma comparação para cima vai dar impulso ou derrubar dá para prever razoavelmente bem de antemão. Penelope Lockwood e Ziva Kunda mostraram em 1997 que um modelo brilhante motiva apenas enquanto o nível dele parece alcançável. Assim que a mesma história é lida como fora de alcance, a inspiração vira prova da própria insuficiência. Não decide, portanto, o tamanho da distância, e sim se entre você e o outro existe um caminho ou um abismo.

A diferença entre uma comparação útil e uma destrutiva não está, então, em quem você escolhe. Está em se você mede uma habilidade ou o valor de uma pessoa.

Palco contra bastidores

A segunda armadilha está nos dados com que você trabalha. Sobre si mesmo você sabe tudo: quantas vezes reescreveu, onde entrou em pânico, quanto tempo empurrou aquele telefonema e o que naquele projeto foi francamente mal. Da outra pessoa você vê o resultado pronto e uma frase que ela mesma escreveu por cima.

Você está comparando os seus bastidores com o palco alheio. Não é pessimismo nem autoestima baixa, apenas acesso desigual à informação.

O tamanho dessa desigualdade foi mostrado por Alexander Jordan e colegas em 2011. Eles pediram a estudantes que estimassem com que frequência os colegas passam por coisas desagradáveis: solidão, reprovar numa prova, a sensação de não dar conta. As estimativas saíram sistematicamente baixas, enquanto as experiências agradáveis dos outros foram superestimadas. O estudo tem um título que resume isso melhor do que um parágrafo inteiro: a tristeza tem mais companhia do que as pessoas imaginam.

Ou seja, o erro não está no seu desempenho, e sim na sua leitura do ambiente. A maioria das pessoas ao seu redor carrega uma semana da qual não se orgulha e, igual a você, não escreveu nada sobre ela.

Quando a comparação vira prova sobre você

Tem quem leve do sucesso alheio uma anotação na agenda. E tem quem leve dali a confirmação de que, onde está, no fundo não tem nada a fazer. É justamente essa segunda leitura que sustenta o fenômeno chamado síndrome do impostor: o sucesso você tem, a certeza não, e cada pessoa capaz na sala é mais uma prova que depõe contra você.

As dúvidas sobre si mesmo, porém, não têm uma fonte só. Em uns pesa sobretudo a sensação de fraude, aquela ideia calada de que o lugar caberia a alguém mais capaz. Outro desvaloriza os próprios resultados por hábito e apaga o elogio antes que ele se assente. E um terceiro enxerga acaso e circunstâncias atrás de tudo, de modo que nem um bom resultado é lançado na conta dele. A comparação alimenta cada uma das três fontes, só que de um jeito um pouco diferente a cada vez.

O mais incômodo é que você piora o próprio ambiente exatamente por escolher bem. Herbert Marsh mostrou repetidamente nos anos 80 que um aluno com as mesmas capacidades pensa pior de si numa escola seletiva do que numa mediana. Os resultados dele não mudaram; mudaram as pessoas em volta. A mesma mecânica funciona num time de ponta, num bom congresso e numa área em que você entrou por uma seleção dura.

A ligação com a questão de a quem se credita o sucesso é destrinchada com mais detalhe no texto sobre se por trás de um resultado está sucesso ou sorte. E vale saber que a autoavaliação falha nas duas pontas: o iniciante se superestima e o experiente muitas vezes se subestima, porque já intui quanta coisa não sabe. O que os dados de fato dizem sobre isso e o que a internet acrescentou por conta própria está descrito no texto sobre como funciona o efeito Dunning-Kruger.

Redes: o que se sabe e o que só se repete

A frase “a culpa é das redes sociais” se repete tanto que virou regra. A pesquisa é mais cautelosa. Os trabalhos dos últimos dez anos encontram com razoável concordância uma associação entre o jeito como você passa o tempo nas redes e o humor, mas é uma associação e não uma causa comprovada, e o tamanho dela costuma ser menor do que soam as manchetes.

Mais interessante do que o tempo total é o modo de uso. Aparece de novo e de novo a diferença entre rolar passivamente perfis alheios e o contato ativo, ou seja, escrever, comentar, combinar de tomar uma cerveja. O primeiro modo é pura entrega de palcos sem bastidores. O segundo tem ao menos a chance de terminar numa conversa em que você descobre como foi de verdade para aquela pessoa.

As redes mudam ainda a composição do grupo de comparação. Antes a pessoa se media com a gente do prédio e do escritório; hoje carrega no bolso os melhores momentos de várias centenas de pessoas de uma vez, inclusive de quem não vê há dois anos.

A consequência prática é mais sem graça do que uma proibição. Não é preciso apagar contas, basta observar em que modo você está e por quanto tempo. Carolina, do começo, não tinha problema com o LinkedIn, mas com abri-lo exclusivamente no domingo à noite, quando estava menos resistente e mais cansada.

Como se comparar de um jeito que sirva para alguma coisa

O conselho de parar de se comparar não funciona pelo mesmo motivo pelo qual não funciona o conselho de não pensar num urso branco. Mais aproveitável é mudar três coisas: com quem, em quê e contra o quê.

Movimentos concretos para testar já esta semana:

  • Meça uma habilidade, não uma pessoa inteira. No lugar de “ele é melhor do que eu”, tente a frase “o que exatamente ele faz diferente quando escreve uma proposta”.
  • Que o seu ponto de referência principal seja a sua versão de um ano atrás. Essa tem uma vantagem enorme: você conhece os bastidores dela.
  • Quando uma comparação te derrubar, vá atrás dos dados que faltam. Pergunte à pessoa quanto tempo levou e o que ela estragou no caminho. A resposta costuma surpreender.
  • Dê nome ao que você leu na diferença. Com uma informação (“não sei negociar preço”) dá para fazer algo; com uma sentença (“não sou bom o bastante”), nada.
  • Repare em quando você se compara. A maioria faz isso cansada, à noite e na cama, o pior momento possível para avaliar a própria vida.

Tente agora lembrar da última comparação que realmente te derrubou. Era sobre uma habilidade concreta que o outro tem e você ainda não? Ou sobre a sensação de que ele é simplesmente uma pessoa melhor? A resposta a essa pergunta diz mais sobre a sua relação consigo do que qualquer ranking de colegas.

Se você quer saber onde exatamente as suas dúvidas têm raiz, faça o breve teste da síndrome do impostor. Ele mostra a medida geral das dúvidas e a sua fonte principal, então dá para perceber se os sucessos alheios confirmam em você o medo de ser descoberto ou antes o hábito de apagar os próprios resultados. A comparação com os outros ali é orientativa e nada além disso.

Uma semana anotando nomes

Experimente por sete dias um exercício que custa um minuto por dia. Toda vez que ao longo do dia alguém te cutucar com o sucesso dele, anote no celular o nome e uma palavra sobre do que se tratava. Não avalie mais nada.

Depois de uma semana olhe a lista. Na maioria das pessoas aparece que ela gira sempre em torno de dois ou três nomes e de uma única área. O resto do mundo as deixa em paz.

Essa lista é mais aproveitável do que qualquer promessa de nunca mais se comparar. Ela mostra com bastante precisão com o que você se importa e onde se sente menos seguro. São duas informações que a rolagem de domingo não entrega.

Teste recomendado

Experimente: Teste da síndrome do impostor

O seu sucesso é seu mesmo? A pontuação geral, a faixa e a principal fonte de dúvida.

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