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Personalidade e autoconhecimento

Conscienciosidade no HEXACO: as quatro faces do fator C

Organização, diligência, perfeccionismo e prudência: o que o fator C do HEXACO mede de fato, por que prevê desempenho e quando atrapalha.

Às dez e um quarto da noite, Ana abre a mesma apresentação pela quinta vez. Devia entregá-la na sexta. É terça.

Os slides estão prontos desde a semana passada. Ana continua, porém, a empurrar os marcadores um pouco para a esquerda, muda a cor das barras do gráfico e reescreve uma frase que já devolveu duas vezes à versão original. O colega Rafael mandou a versão dele na segunda pela manhã, com um erro de digitação no título, e desde então tem as noites livres.

A equipe diria dos dois que se importam com o trabalho. A diferença não está em quem se esforça mais, mas na forma como se combinaram em cada um deles quatro tendências diferentes que a psicologia reúne sob um único nome: conscienciosidade.

Quatro tendências com um nome só

No modelo de personalidade de seis fatores descrito na virada do milênio pelos psicólogos canadenses Kibeom Lee e Michael Ashton, a conscienciosidade carrega a letra C. Fica ao lado da honestidade, da emocionalidade, da extroversão, da amabilidade e da abertura à experiência. Como essas seis dimensões surgiram das análises da linguagem comum e em que se afastam dos cinco fatores mais antigos é o assunto de um texto separado sobre o que é o modelo HEXACO.

Dentro do C escondem-se quatro componentes mais estreitos, e eles não andam juntos. Tem quem mantenha a mesa impecável e vá adiando toda tarefa mais exigente. E tem quem trabalhe de manhã à noite com anotações que parecem um monte de folhas caídas.

Componente Do que trata Pontuação alta Pontuação baixa
Organização ordem nas coisas e no tempo Plano, sistema, prazos sob controle Improviso, procura das chaves, agenda parecida com campo de batalha
Diligência disposição para aguentar um trabalho pesado Termina também a parte chata da tarefa Escapa para o que está mais interessante no momento
Perfeccionismo sensibilidade a erros e detalhes Acha a incoerência que todos os outros deixaram passar “Bom o suficiente” realmente basta
Prudência o freio entre a ideia e o ato Pesa as consequências, raramente age no calor da hora Decide rápido e assume o risco

O caso de Ana se apresenta assim: perfeccionismo alto, organização razoável, diligência voltada inteiramente para o polimento. Rafael tem o perfeccionismo baixo, a diligência em algum ponto do meio e uma prudência tal que assina o contrato depois da primeira leitura. As duas combinações se leem num currículo como “cuidadoso e responsável” e, na prática, funcionam de maneiras completamente diferentes.

A autoavaliação engana aqui mais do que nos outros traços. Quando você se pergunta se é cuidadoso, responde de acordo com o quanto o resultado lhe importa. Só que a preocupação com o resultado e o comportamento real não são a mesma coisa. Perfeccionismo alto com diligência média produz alguém que vai dormir com a sensação de ter fracassado, embora a única coisa que não tenha conseguido foi começar.

A melhor previsão de desempenho no trabalho que existe

Em 1991, Murray Barrick e Michael Mount percorreram mais de cem pesquisas anteriores e calcularam como os traços de personalidade se relacionam com o desempenho no trabalho. Pegaram cinco grupos ocupacionais, de vendedores e policiais a gestores, profissões especializadas e ofícios manuais, e três critérios diferentes: a avaliação do superior, dados duros de produtividade e o sucesso no treinamento.

Atravessando tudo isso, sustentou-se um único traço, e foi a conscienciosidade. O resto funcionava por partes. A extroversão ajudava onde se lida com gente, a abertura sobretudo durante o treinamento, mas fora do seu domínio ambas se dissipavam.

Por que justamente ela? A explicação acaba sendo bastante prosaica. Uma pessoa conscienciosa passa mais tempo real sobre a tarefa, segue o procedimento também no momento em que ninguém está olhando, e com menos frequência faz as coisas que corroem o trabalho por dentro: a entrega atrasada, o documento que falta, o dia de ausência sem explicação. Não se trata de rompantes de genialidade. Trata-se de menos dispersão, porque o desempenho oscila menos.

A relação, aliás, não é nenhuma bomba. É um vínculo fraco a moderado, portanto a conscienciosidade não vai explicar a maior parte das diferenças entre duas pessoas no mesmo cargo. Interessante é outra coisa: ela não tem concorrência. Sete anos depois, Frank Schmidt e John Hunter resumiram décadas de pesquisa sobre seleção de pessoal e concluíram que a capacidade intelectual somada à conscienciosidade prevê o desempenho melhor do que qualquer indicador isolado.

Não termina no trabalho. Howard Friedman e Leslie Martin examinaram os dados do estudo de longo prazo que Lewis Terman iniciou em 1921 e, entre os traços de personalidade, quem melhor previu a longevidade foi a conscienciosidade na infância. Não por causa de uma grande coisa. Por causa de milhares de pequenas decisões sobre cinto de segurança, cigarro, doenças tratadas até o fim e riscos em que a pessoa nem entra.

Como um C alto aparece numa terça comum

Beatriz cuida das obras contratadas numa construtora. Os documentos ela manda no dia anterior ao prazo, não uma hora depois dele. De uma reunião sai com uma ata em que cada tarefa tem nome e data. Quando três meses mais tarde a equipe discute o que ficou combinado na época, Beatriz tem aquilo escrito.

Nada disso parece imponente. O trabalho de uma pessoa conscienciosa aparece principalmente no que não aconteceu: na reunião de emergência que não precisou ser convocada, no material que chegou na hora porque alguém o pediu antes das férias, na fatura que ninguém precisou contestar. O elogio por isso vem raramente, mas o primeiro telefonema quando surge um problema vai sempre para a mesma pessoa.

Um C alto não significa talento nem inteligência. Significa que certos movimentos custam menos energia do que custam aos outros: começar mais cedo, aguentar na parte pouco atraente, voltar para conferir. Quem os tem baixos dá conta do mesmo, só que à custa de mais vontade e com menos frequência.

As notas da escola entregam esse mesmo traço ainda mais cedo. Arthur Poropat resumiu em 2009 as pesquisas sobre personalidade e resultados escolares, e a conscienciosidade saía nelas como um indicador das notas comparável à capacidade intelectual. As provas premiam a regularidade tanto quanto a rapidez de raciocínio. Depois da escola, no entanto, ninguém distribui mais grade horária e os prazos a pessoa precisa fabricar por conta própria.

Em processos seletivos esse traço é mais difícil de achar do que se esperaria. Numa entrevista percebe-se uma impressão, não um hábito. Quase todo mundo diz de si que é confiável, e a maioria fala com sinceridade.

Quando a diligência se vira contra você

Agora a parte que contraria a intuição. Perfeccionismo e adiamento andam frequentemente de mãos dadas, ainda que se esperasse exatamente o contrário. Quem coloca a barra mais alta costuma entregar por último e, ao longo de um ano, às vezes conclui menos do que o colega que não perde o sono por causa de detalhes.

O mecanismo é simples. Se a primeira versão precisa já sair boa, não há quando começar, porque para uma versão boa nunca há tempo suficiente. Uma tarefa de vinte minutos incha até ocupar uma tarde inteira. E como não se consegue fechá-la, ela se transfere para amanhã, onde já espera a seguinte.

Quando foi a última vez que você mandou algo antes de considerar pronto? E o que aconteceu depois, de fato?

A segunda forma desse freio se chama microgerenciamento. Um chefe com organização alta e sensível a erros vê a imprecisão alheia antes que ela tenha tempo de se manifestar. Reescreve e-mails que não escreveu, verifica a formatação das tabelas, devolve a tarefa com quatorze comentários. A equipe aprende isso rápido e para de decidir por si, porque a correção vai chegar de qualquer forma.

A terceira forma é a mais silenciosa. A prudência se transforma na incapacidade de arriscar qualquer coisa: a proposta não aceita porque não dava para calcular tudo de antemão, a ligação não feita enquanto não houver resposta pronta para cada objeção. De fora parece responsabilidade. De dentro é medo com um bom alibi.

Do que são capazes aqueles com um C baixo

Rafael tem três reuniões sobrepostas na agenda e procura as chaves toda manhã. Mas quando na terça chega o aviso de que o escopo muda pela terceira vez, isso lhe custa quarenta minutos de trabalho. Ana, no mesmo instante, joga fora um plano que passou uma semana ajustando.

Conscienciosidade baixa não é preguiça, mesmo que seja quase sempre descrita assim. Costuma ser outro jeito de trabalhar: partida rápida, calma na incerteza e capacidade de soltar da mão uma coisa pela metade sem lamentar. Onde o escopo muda antes que um plano possa amadurecer, essa configuração ganha. Vale também para setores em que se testa muito e a maioria das tentativas vai para o lixo de todo modo.

A conta chega, claro. Prazos esquecidos, uma pilha de trabalho pela metade, uma decisão tomada no calor da hora e consertada por dois meses. Quem tem prudência baixa arrisca mais do que ele mesmo acredita, principalmente com dinheiro e atrás do volante.

Na equipe essa diferença se percebe na hora. Um grupo formado só por gente cuidadosa entrega o material sem um único erro, apenas dois meses depois do momento em que fazia sentido entregar. Uma turma de puros improvisadores começa primeiro e no meio do caminho descobre que uma parte foi feita duas vezes e a outra ninguém começou. Uma dupla em que um vigia a direção e o outro os detalhes briga mais vezes do que as duas anteriores, e entrega melhor.

Mais útil do que perguntar se o seu C é alto o bastante é saber qual dos quatro componentes está freando você. Com organização baixa resolve um sistema comum de lembretes. A diligência baixa não se contorna assim; ali só ajuda mudar o tamanho dos passos.

Deslocamento em passos curtos

A personalidade muda na vida adulta, só que devagar e sem chamar atenção. Brent Roberts e colegas documentaram repetidamente que a conscienciosidade cresce em média a partir dos vinte anos, à medida que a pessoa assume compromissos no trabalho, na relação e na família. Quem quer acelerar esse deslocamento vai mais longe reconstruindo situações do que fazendo promessas a si mesmo.

Antes de reconfigurar qualquer coisa, vale ver a que altura está de fato a sua conscienciosidade em comparação com os seus outros traços. Nosso teste HEXACO tem sessenta perguntas, leva cerca de dez minutos e mostra todos os seis fatores, incluindo o C. A comparação com outras pessoas é orientativa, não é um diagnóstico.

O que funciona na rotina:

  • Uma intenção de implementação em vez de uma promessa. Peter Gollwitzer mostrou que a frase “quando voltar do almoço, vou abrir aquele orçamento” leva à ação com mais confiabilidade do que “preciso finalmente começar isso”. A decisão cai antes, então no momento em si já não há nada a ponderar.
  • Uma definição de pronto escrita de antemão. Duas ou três condições que o material precisa cumprir, anotadas antes de você começar a produzi-lo. Assim que ele as cumpre, sai. Contra a décima segunda versão nada mais funciona.
  • Reduza o atrito em uma única tarefa, não em todas. Documentos preparados na noite anterior, o arquivo aberto na tela, o telefone no quarto ao lado.
  • Uma rodada de revisões e um teto de tempo. Acabou o tempo, sai no estado em que está.
  • Meia hora por semana sobre a agenda, na qual uma tarefa grande se desmancha no primeiro passo concreto. Não numa lista de desejos, só nesse primeiro passo.

Aos perfeccionistas serve ainda a pergunta invertida. Em lugar de “como fazer isso melhor”, pergunte o que concretamente vai acontecer se você mandar agora. A resposta costuma ser “nada”, e a ela não se chega de outro jeito senão tentando.

Se algo se mexeu, você vai reconhecer pelas desculpas que fabrica para si mesmo. Anote durante uma semana, toda noite, uma única coisa que empurrou para depois e uma palavra dizendo por quê. Passados sete dias, nessa coluna se repete sempre a mesma palavra. Em uns é “chato”, em outros “ainda não está bom o suficiente”, e cada uma leva para um lado diferente.

Ana entregou aquela apresentação na quarta pela manhã, na décima segunda versão. A diretoria pediu uma única alteração: cortar pela metade. O erro de digitação no título de Rafael ninguém notou, porque todos estavam olhando os números do terceiro slide.

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