Meia hora antes de o congresso começar, Ana está ao lado da mesa do café conversando com um homem que ela vê pela primeira vez na vida. Nesse intervalo curto ela descobre onde ele trabalha, por que trocou de área um ano atrás e como se chama o cachorro dele.
Rafael está a três metros dela, folheando a programação, esperando que abram o auditório. Não puxou conversa com ninguém e nem tentou. Só que em duas horas ele vai subir ao palco, falar quarenta minutos para duzentas pessoas e, no debate, contrariar com toda a calma o palestrante que falou antes dele.
Qual dos dois é o extrovertido? Responder “a que conversa perto do café” cobre apenas uma fatia do que se esconde sob a extroversão. A disposição de Rafael para se colocar diante de um auditório cheio também é extroversão, só que outro componente dela. E é exatamente essa distinção que o modelo HEXACO faz com mais cuidado do que a maioria das tipologias populares.
Quatro componentes de uma única escala
Na virada do milênio, os psicólogos canadenses Kibeom Lee e Michael Ashton desmontaram listas de adjetivos de personalidade tiradas de dicionários em vários idiomas, do coreano ao italiano. Queriam saber quantas dimensões independentes se repetem no modo como as pessoas descrevem as outras. De um idioma para outro davam seis fatores, não cinco, e um deles é a extroversão, representada no nome do modelo pela letra X.
O essencial é que na concepção de seis fatores ela não se sustenta como um bloco único. É formada por quatro partes separáveis que, numa mesma pessoa, podem apontar cada uma para um lado diferente.
| Componente | O que descreve | Como aparece na parte baixa da escala |
|---|---|---|
| Autoestima social | O que você acha da impressão que causa e se você se sai bem no meio das pessoas | A sensação de que os outros te suportam por educação, não por interesse |
| Ousadia social | Disposição para falar diante dos outros, conduzir, discordar em voz alta, abordar um desconhecido | A mão que não sobe na reunião mesmo com a sua proposta toda pensada |
| Sociabilidade | Quanta companhia faz bem a você e quanto gosta de conversar sem propósito nenhum | Um sábado sozinho como prêmio, não como castigo |
| Vivacidade | A dose de energia, entusiasmo e otimismo com que você entra nas coisas | Ritmo mais contido, menos reações empolgadas, estimativas mais sóbrias |
Ana, a da abertura, tem sociabilidade e vivacidade altas, e ousadia social bem menor, então ninguém a colocaria diante de duzentas pessoas. Com Rafael é o contrário. Ele palestra sem hesitar, mas a conversa solta perto do café custa mais energia do que a apresentação inteira. A média dos dois sairia parecida e diria absurdos sobre ambos.
Um desses quatro componentes surpreende quase todo mundo. A autoestima social, isto é, se você sente que serve para alguma coisa em companhia, é algo que a maioria de nós arquivaria entre as emoções ou na autoconfiança em geral. Na concepção mais antiga, de cinco fatores, é mais ou menos onde ela cai, normalmente como polo oposto do neuroticismo. No modelo de seis fatores, porém, ela fica junto da extroversão, e isso tem uma consequência: X baixo não significa necessariamente que você não se interesse por gente. Pode significar que você não tem certeza de que a gente se interessa por você.
Quando o X está alto
Você reconhece o X alto pela rapidez com que a pessoa se instala num grupo desconhecido. Ambiente novo a carrega, falar não abafa o pensamento dela, põe em movimento, e quando o silêncio cai na sala normalmente é ela que preenche. Os colegas descrevem alguém assim com palavras como “energia” ou “locomotiva”, ainda que ela própria não tenha nenhuma sensação de estar se esforçando.
É útil em tudo o que precisa ser posto em movimento. Conquistar gente para uma ideia, marcar uma reunião com alguém que você não conhece, segurar o clima da equipe depois de um trimestre ruim. Em todos esses casos o X alto poupa aos outros um trabalho que eles fariam com enorme resistência.
A conta chega em outro lugar. Quem fala muito e rápido conquista com mais facilidade a impressão de competência, tenha razão ou não. Neil MacLaren e seus colegas testaram isso em 2020 em grupos sem chefe formal e o resultado foi que o grupo apontava como líder quem tinha falado mais. A quantidade de fala pesou mais do que a qualidade das contribuições. Se o seu X é alto, esse efeito trabalha a seu favor e vale saber disso, porque a concordância de quem está em volta não prova que você pensou melhor no assunto.
O segundo imposto se paga nas decisões. A vivacidade empurra para um rápido “vamos nessa” e abafa os sinais incômodos que uma pessoa mais calada registraria. O risco não está em o extrovertido decidir pior, mas em chegar à decisão antes que as objeções cheguem até ele.
Vale dizer também o que o X alto não é. Não é habilidade social. Ler o clima de uma sala, ajustar a mensagem a quem ouve e parar de falar na hora certa se aprende em qualquer ponto da escala, e um monte de gente muito sociável nunca aprende. Também não é afeto. Quem se sente em casa no meio da multidão pode ser completamente indiferente às pessoas uma a uma, porque o que a alimenta é aquele movimento em volta, não as relações concretas.
X baixo: a introversão e o que ela definitivamente não é
Nessa concepção, a introversão não é nenhum distúrbio de contato. É um ajuste ao qual basta menos estímulo social para já ser suficiente. Sete pessoas na mesa, para o introvertido, é barulho; duas pessoas na mesa é conversa. Não que a primeira situação não lhe interesse, é que ele não sai dela carregado.
Com isso chegamos a duas coisas com que a introversão é confundida tão frequentemente que parte dos livros de divulgação também se enrolou. A primeira é a timidez. A pessoa tímida tem medo de como vai se sair diante dos outros e por isso desvia do contato. O introvertido não tem medo, apenas não precisa. A diferença foi descrita com clareza por Susan Cain no livro Quiet, de 2012: timidez é medo do julgamento social, introversão é preferência por ambientes menos estimulantes. O extrovertido tímido existe e costuma ser bem infeliz, porque quer estar entre gente e ao mesmo tempo se aterroriza com isso.
A segunda coisa é a ansiedade social, e essa pertence a uma categoria completamente diferente. Não se trata de um traço numa escala, mas de um estado que limita a vida de verdade, e se resolve com um profissional, não com um questionário. Na linguagem de seis fatores, ela se aproximaria da combinação de autoestima social baixa, ousadia baixa e emocionalidade alta, só que essa descrição nunca curou ninguém.
Quantas vezes você já exigiu de si mesmo ser “mais de gente”? Tente, com essa pergunta na cabeça, identificar qual dos quatro componentes falta de fato em você. Normalmente existe diferença entre “não estava me divertindo” e “não tive coragem”, e cada uma dessas frases leva para um lado.
Quatro frases que continuamos ouvindo sobre extrovertidos e introvertidos
“Introvertidos não gostam de gente.” O erro mais comum e, ao mesmo tempo, o mais fácil de derrubar. A sociabilidade descreve quanta companhia alguém aguenta, não qual é a relação dele com ela. Afeto, disposição para ajudar e apego aos próximos ficam em outro lugar do modelo de seis fatores, principalmente na emocionalidade e na amabilidade. Um introvertido com emocionalidade alta é aquela pessoa que lembra quando é o seu aniversário e que escapa da festa depois de uma hora e meia.
“Extrovertidos são chefes melhores.” Adam Grant, Francesca Gino e David Hofmann compararam em 2011 o desempenho de filiais conforme o temperamento de quem as chefiava e encontraram a condição de que todos se esquecem. Chefes extrovertidos obtinham melhores resultados com equipes passivas, que precisavam de um empurrão. Nas equipes em que as pessoas chegavam com ideias próprias, os chefes introvertidos se saíram melhor, porque não abafavam essas ideias com as suas. A questão não é quem lidera melhor, mas quem está sendo liderado.
A terceira frase é sobre vendas. A ideia de que o melhor vendedor é o mais falante durou décadas, até que Adam Grant, em 2013, comparou o faturamento de vendedores ao longo de toda a escala. No topo não ficaram nem os extrovertidos nem os introvertidos, e sim as pessoas em torno do meio, capazes de alternar entre falar e escutar conforme o que o cliente precisa naquele momento.
E a última: “Sou introvertido, já vem assim de fábrica.” A extroversão não parte a população em dois campos, ela se distribui de forma contínua e a maioria das pessoas fica em algum ponto do meio. O rótulo categórico é colado com mais frequência por quem tem um único componente dos quatro nitidamente alto ou baixo e ignora o resto do perfil.
Por que o X não é igual à extroversão do Big Five
As duas escalas medem uma coisa bem parecida, e quem sai alto numa sai alto quase sempre na outra também. A diferença está naquilo em torno do que a escala inteira gira. No modelo de cinco fatores, a extroversão se apoia no convívio, na atividade e nas emoções positivas. No de seis, o núcleo passa a ser a autoconfiança social, ou seja, como você se avalia como participante da vida entre os outros.
Na prática esse deslocamento aparece nas beiradas. A busca de emoções fortes, a vontade de arriscar e de dirigir rápido pertencem, na leitura de cinco fatores, mais à extroversão, enquanto na de seis se acomodam na emocionalidade, especificamente na tendência a se preocupar. Uma pessoa sem medo, portanto, não precisa ser extrovertida, pode ser simplesmente pouco emocional. O afeto pelos próximos, por sua vez, se desloca para a emocionalidade e a amabilidade, então não conta para o X.
A diferença vale ser guardada principalmente para ler o seu próprio perfil. Quando o seu X sai baixo, a interpretação de cinco fatores manda você pensar em quanto sai para ver gente. A de seis acrescenta a pergunta se você confia em si mesmo no meio dela, e para muita gente essa é a metade mais útil. A comparação dos dois modelos continua aproximada: não existe entre eles nenhuma ponte de conversão exata.
O que dá para fazer com isso
O pior plano é tentar se deslocar pela escala como um todo. “Vou ser mais extrovertido” é uma tarefa que não dá a ninguém o primeiro passo. Os componentes isolados, por outro lado, se comportam de maneiras muito diferentes: a sociabilidade é uma preferência e muda a contragosto, enquanto a ousadia social é em boa parte comportamento treinado e cede surpreendentemente rápido.
Rafael, da abertura, é o exemplo. Diante do auditório ele fica sem dificuldade, porque palestra há oito anos e tem a estrutura pronta. A conversa solta perto do café continuou difícil, porque ele nunca a praticou e não tem nenhum apoio nela. Se antes do evento preparasse duas perguntas que se possa fazer a qualquer pessoa, avançaria mais numa tarde do que com a promessa anual de ser mais aberto.
Algumas coisas funcionam de forma confiável nas duas pontas da escala:
- Sua ousadia é baixa? Combine antes com alguém que vá apoiar a sua proposta na reunião. A concordância de outra pessoa levanta o peso da sua frase antes que o silêncio consiga derrubá-la.
- A sociabilidade baixa não se corrige com mais eventos, e sim com menos tempo de permanência neles. Uma hora e ir embora sem se justificar funciona melhor do que três horas de desgaste e uma semana de recuperação.
- Com ousadia alta ajuda uma única regra: em cada discussão, falar apenas em segundo lugar. Vem à luz quanta coisa outra pessoa teria dito se você tivesse deixado espaço.
- A autoestima social não se move com discurso motivacional. Move-se com provas, isto é, anotando depois de cada encontro o que exatamente alguém valorizou, porque a memória apaga esse tipo de informação primeiro.
Nosso teste HEXACO tem 60 perguntas e leva cerca de oito minutos. Além da extroversão, ele avalia os outros cinco fatores, então você também vai ver se atrás do seu X baixo está mais a necessidade de calma ou a dúvida sobre a sua posição no meio das pessoas.
Independentemente de fazer o teste ou não, existe um jeito mais simples de apalpar o seu X. Nas próximas duas semanas, anote depois de cada situação social uma única coisa: você saiu com mais energia do que chegou, ou com menos? Acrescente quantas pessoas havia e se foi você quem falou ou quem escutou. Ao fim de quatorze dias, dessas anotações vai cair um padrão que nenhum questionário descreve com mais precisão: onde você se recarrega, onde se descarrega e quanto lhe custa a diferença entre uma coisa e outra.

Česky
Slovensky
English
Polski
Deutsch
Español
Magyar
Italiano
Português
Nederlands