Na sua conta caem quatrocentos dólares a mais do que deveriam. O pessoal da folha de pagamento errou no cálculo das horas extras e até agora ninguém percebeu.
Ana descobre no sábado de manhã, revisando as movimentações, e na segunda às nove liga para o RH. Rafael também percebe, só que deixa o dinheiro onde está. Não mente, não rouba ninguém, apenas espera para ver se alguém chega lá. Quando passam dois meses sem que uma alma viva se manifeste, ele compra uma bicicleta com aquilo.
Nenhum dos dois infringiu a lei. Os dois são confiáveis, os dois dão conta do trabalho e na avaliação do chefe saem quase iguais. A diferença entre eles não está na inteligência nem na conscienciosidade, mas em um traço que a psicologia chama de honestidade-humildade e que no modelo de seis fatores HEXACO carrega a letra H.
Quatro faces de um mesmo traço
O fator H não descreve uma única qualidade, e sim quatro tendências próximas que se sustentam juntas mais do que a gente esperaria. Quem sai alto em uma costuma sair alto também nas outras três.
| Componente | Do que fala | Como se reconhece |
|---|---|---|
| Sinceridade | Se conseguir o que é seu exige um desvio de caminho | Não diz ao colega o que ele quer ouvir só para conquistá-lo |
| Justiça | A disposição de não explorar a posição mais fraca do outro | Devolve um valor cobrado errado mesmo quando aquilo passaria batido |
| Modéstia | Quanto tratamento especial você acha que lhe cabe | Não insiste em que as regras sejam dobradas por causa dele |
| Independência de bens e status | Com que força a riqueza e as insígnias de posição puxam você | Uma coisa cara não a atrai como prova de que já chegou a algum lugar |
Sinceridade aqui não significa dizer na cara de cada um o que você pensa dele. A questão é outra: se, para conseguir o que quer, você precisa de um elogio bem colocado, de uma versão retocada da realidade ou de uma pequena manipulação. Quem tem H alto às vezes parece até entediantemente direto, porque não tem um fundo falso com que trabalhar.
A justiça se reconhece nos momentos em que a outra parte está em desvantagem e nunca vai ficar sabendo. Uma fatura inflada para um cliente que não entende do ramo. Um reembolso de viagem que ninguém confere. Uma condição escondida em um parágrafo que você sabe que a outra parte não vai ler.
A independência de bens e status soa como pergunta para milionários, mas se decide em quantias absolutamente comuns. O quanto atrai você aquela coisa em que os outros percebem quanto custou? Quanto risco você aceita correr por um dinheiro que você mesmo sabe que não precisa? Pessoas com H alto não costumam ser pobres nem ascéticas, é que o patrimônio simplesmente não as puxa forte o bastante para que cedam em outro lugar por causa dele. É justamente esse componente que toma a palavra nas decisões em que há algo palpável em jogo.
E a modéstia, nesse modelo, tem um sentido diferente do que a palavra costuma carregar. Ela não mede autoconfiança nem timidez. Alguém com H alto pode ter uma opinião bem alta das próprias capacidades e falar delas em voz alta sem constrangimento. Só não conclui daí que por isso lhe cabe um tratamento diferente do dos outros. Esse é também o motivo pelo qual modéstia baixa não é a mesma coisa que autoestima saudável, e pelo qual elogio não a cura.
O H alto aparece quando ninguém está olhando
O melhor teste desse traço é uma situação sem testemunhas. Uma carteira na calçada. Uma cancela quebrada no estacionamento. Uma tarefa em que você pode creditar a si mesmo um pedaço de trabalho feito por outra pessoa, sem que ninguém consiga rastrear.
Pessoas com H alto se comportam nesses momentos exatamente como se comportam sob supervisão. E não por heroísmo nem por autocontrole. A maioria descreve que nem chegou a pensar naquela possibilidade, porque não a registrou como uma oferta. Onde outro vê uma oportunidade, elas veem apenas um erro no sistema.
Na prática isso aparece em detalhes pequenos. Negociam com menos dureza do que poderiam. Custa-lhes vender a si mesmas e, numa entrevista, preferem mencionar o que ainda não sabem fazer. Prometem com cuidado, porque contam com o fato de que vão ter de cumprir. E quando o mérito é dividido no time, tendem a recuar mesmo quando fizeram a maior parte.
Essa última frase indica que H alto não sai de graça. Quem não consegue defender o que lhe cabe recebe uma fatia menor, e ao longo dos anos aquilo se soma. Por um trabalho comparável negocia uma remuneração mais baixa, porque simplesmente não pede mais. A isso se junta a tendência de acreditar em boas intenções por mais tempo do que seria razoável. A pessoa com H alto que foi passada para trás muitas vezes defende a outra parte dizendo que com certeza foi só um engano.
O H baixo de perto
Descrever o H baixo como um defeito de caráter seria confortável e impreciso. Olhe como ele se manifesta e você verá antes um outro jeito de lidar com pessoas do que má vontade.
A base é o cálculo estratégico: os outros entram como parte de uma equação, não apenas como companhia. Quando você negocia, tem na cabeça o que aquela pessoa precisa escutar para ir ao seu encontro. Somam-se a isso a sensação de ter direito, ou seja, a suposição silenciosa de que a sua situação é excepcional e a regra comum não se encaixa bem nela. E, com frequência, a capacidade de encantar, que quem tem H baixo usa com toda a naturalidade e sem culpa.
Essa combinação tem vantagens reais. Em uma negociação comercial perde-se menos dinheiro. Na política interna da empresa uma pessoa assim se orienta antes das outras e sabe nomear quem de fato decide o quê. Não tem medo de pedir promoção, preço mais alto nem exceção, e quando algo novo está começando, a disposição dela de empurrar os limites costuma ser o que mantém o projeto vivo. A pesquisa sobre primeiras impressões mostra ainda, de novo e de novo, que nas primeiras semanas essas pessoas parecem mais seguras e mais interessantes do que os colegas mais modestos. A avaliação cai só com o tempo, à medida que a experiência compartilhada se acumula.
H baixo também não é diagnóstico. Ele se distribui em uma escala na qual a maioria das pessoas fica em algum ponto do meio, não em categorias nitidamente separadas. Só na ponta extrema da escala é que se sobrepõe a algo mais sério: em 2005 Kibeom Lee e Michael Ashton compararam maquiavelismo, narcisismo e psicopatia com os dois modelos de personalidade e verificaram que no HEXACO o que une os três é sobretudo o H baixo, enquanto no modelo de cinco fatores eles se espalham por várias escalas diferentes. Onde exatamente passa a fronteira entre uma garra saudável e algo que já prejudica quem está por perto é o que desdobra o texto sobre a relação entre fator H baixo e tríade sombria.
Por que você não encontra esse traço no Big Five
O Big Five não nasceu numa mesa de escritório. Ele parte da hipótese lexical, segundo a qual todas as diferenças relevantes entre as pessoas com o tempo se depositam na língua corrente. Os pesquisadores pegaram então um dicionário, tiraram dele os adjetivos que descrevem o caráter, deixaram que amostras grandes de pessoas os avaliassem e olharam quais se agrupavam. Em inglês saíam repetidamente cinco grupos.
Ficou interessante quando o mesmo procedimento foi repetido em outros lugares. Em 2004 Michael Ashton, Kibeom Lee e seus colegas resumiram estudos lexicais de sete idiomas, entre eles o coreano, o húngaro, o italiano, o polonês e o alemão. Em todos eles apareceram seis grupos em lugar de cinco, e o sexto girava em torno de palavras como sincero, honesto, ganancioso, jactancioso ou hipócrita. Em inglês ele se encaixava nos outros fatores de forma discreta o suficiente para que as análises anteriores o deixassem passar.
Para onde foi então o conteúdo do fator H no Big Five? Dissolveu-se, principalmente na amabilidade. O problema é que a amabilidade no modelo de cinco fatores mistura duas coisas diferentes: se você é cordial com as pessoas e se, ao mesmo tempo, não as usa. Por isso alguém pode sair como uma pessoa extraordinariamente amável e ainda assim tratar você de modo puramente utilitário, desde que faça isso com um sorriso. O HEXACO separa essas duas coisas, mesmo ao preço de que a sua própria amabilidade passe a significar outra coisa, principalmente brandura, paciência e capacidade de perdoar. Seis fatores não são, portanto, cinco fatores mais um de brinde: o sistema de eixos inteiro girou. Fala disso com mais detalhe o panorama sobre o que é o HEXACO.
Confiança no trabalho e em casa
Sobre o desempenho comum no trabalho o fator H tem pouca influência. Onde ele se manifesta por inteiro é na zona cinzenta, isto é, nas situações que nenhuma norma cobre. O H baixo reaparece com regularidade na pesquisa sobre comportamentos contraproducentes no ambiente de trabalho: do pequeno dobrar de regras à apropriação do mérito alheio. Para o empregador é uma das poucas dimensões de personalidade que fala de risco e não de capacidade.
Beatriz lidera um time comercial de cinco pessoas e duas vezes seguidas contratou o candidato mais eloquente do processo. Os dois esmagaram os números no primeiro trimestre. Os dois foram embora antes de completar um ano e deixaram atrás de si clientes com promessas impossíveis de cumprir dentro de contratos assinados e colegas que descobriram que os próprios negócios deles tinham aparecido nos relatórios com outro nome. Na terceira vez ela escolheu uma pessoa que na entrevista pareceu bem menos segura. Um ano depois, é quem tem o menor número de contratos novos e a maior proporção de clientes que ficaram.
Nas relações o H se manifesta com um atraso ainda maior. A paixão favorece a segurança, o encantamento e os gestos grandes, que são exatamente as coisas em que o H baixo se destaca. A justiça, por outro lado, não fica visível até chegar uma situação em que daria para ganhar algo às suas custas. A divisão do dinheiro. Uma doença que não diverte ninguém. Uma separação em que se descobre se o outro luta por si mesmo ou contra você.
As pesquisas com casais sugerem ainda que em honestidade-humildade as pessoas escolhem parceiros parecidos consigo de forma mais marcada do que em outros traços. Um casal em que um joga no seguro e o outro joga na vantagem chega mais cedo ou mais tarde a um tema que não dá para dividir ao meio. No gosto ou no temperamento as diferenças podem ser lixadas; aqui é sempre o mesmo dos dois que cede o que é seu.
Quando foi a última vez que você teve a chance de ganhar algo em silêncio, sem que ninguém viesse a saber? Tente trazer à memória a situação concreta e, principalmente, o que você fez, não o que gosta de pensar sobre si mesmo. A resposta a essa pergunta em geral diz mais do que qualquer lista de valores.
Como descobrir onde você está
Diante de um questionário que pergunta sobre justiça e ganância, você espera que todo mundo minta. O estranho é que, numa situação comum, isso não acontece na medida que se poderia supor. As pessoas com H mais baixo em geral não veem nada de problemático nas próprias respostas. Parece óbvio a elas que a gente cuida principalmente de si, e respondem de acordo. É diferente onde há um cargo ou dinheiro em jogo; no momento em que o resultado decide algo, a autoavaliação deixa de valer, e nenhum teste desse tipo tem lugar em um processo seletivo.
O nosso teste HEXACO tem 60 perguntas e leva cerca de oito minutos. Além do H você recebe também os outros cinco fatores, uma comparação com o Big Five e uma análise do que a sua combinação significa na prática. A comparação com as outras pessoas é aproximada, como em qualquer questionário desse tipo.
Ao lado do resultado, vale um método mais incômodo. Pergunte a duas pessoas que já te viram numa situação em que você poderia ganhar algo à custa de outro como foi que você se comportou. Não o parceiro e não o melhor amigo, o viés deles corre a seu favor. Um ex-colega de trabalho, ou alguém com quem você dividiu dinheiro, vai ver as coisas que a sua memória esqueceu piedosamente.
E se, ao ler a descrição do H baixo, veio à sua cabeça o nome de uma pessoa específica e nem por um segundo o seu próprio, vale parar nisso. É exatamente assim que esse traço funciona por dentro: o cálculo dos outros salta aos olhos, o próprio parece bom senso.

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