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Relacionamentos e comunicação

Por que as pessoas traem e o que fazer depois da infidelidade

Por que as pessoas traem, do que diz a pesquisa ao que ajuda de verdade depois da infidelidade: motivos, mitos e a decisão de ficar ou ir embora.

Quando um dos poucos estudos que perguntam diretamente ouviu pessoas que haviam traído, mais de sete em cada dez não falaram nada sobre sexo. Falaram em não se sentir amadas, em serem esquecidas ou em querer algo diferente. Muitas descreveram o próprio relacionamento como algo que basicamente funcionava.

É essa a parte incômoda. A traição não se limita a relacionamentos quebrados; quem marcaria “satisfeito” no papel também trai. Ou seja, a infidelidade não é um diagnóstico confiável da saúde de um relacionamento. Às vezes ela diz muita coisa, outras vezes quase nada.

Este texto não vai desculpar a traição nem chamá-la de catástrofe. Ele explica por que a traição acontece, separa fato de mito e oferece algo utilizável para quando isso cair sobre você ou sobre alguém próximo.

Qual é, de fato, a frequência da infidelidade

Ninguém sabe o número exato, e ninguém tem como saber. A infidelidade é medida com questionários, e as pessoas mentem sobre as próprias traições ou ficam caladas. Toda estatística é um piso, não a verdade.

Com essa ressalva: a General Social Survey norte-americana, que pergunta desde a década de 1970, segue encontrando que cerca de 20% a 25% dos homens casados e de 13% a 15% das mulheres casadas relatam sexo extraconjugal. Amplie a definição para incluir casos emocionais e contato íntimo sem relação sexual e os números saltam, segundo a American Association for Marriage and Family Therapy, para cerca de 45% dos homens e 35% das mulheres. Em qualquer estimativa em que você confie, esta é uma história compartilhada por milhões, não uma esquisitice de minoria.

A diferença entre os sexos também diminui com a idade. Entre os casais mais jovens ela é quase zero e, em alguns dados, as mulheres até passam à frente. A traição como hábito estritamente masculino é mais estereótipo do que fato medido.

Por que as pessoas traem

O melhor mapa dos motivos vem de Dylan Selterman, Justin Garcia e Irene Tsapelas, em um estudo de 2019 publicado no Journal of Sex Research. Eles perguntaram a quase quinhentas pessoas que haviam traído por que fizeram aquilo. Surgiram oito razões recorrentes, e o sexo não estava nem perto do primeiro lugar.

Motivo Relatado por cerca de
Desamor, ou paixão por outra pessoa 77%
Vontade de variedade, tédio 74%
Sensação de descaso 70%
Situação e oportunidade (bebida, acaso) 70%
Necessidade de elevar a autoestima 57%
Raiva, vontade de punir o parceiro 43%
Baixo comprometimento com o relacionamento 41%
Desejo sexual 32%

Note a ordem: o desejo sexual ficou em último lugar. O motivo principal foi o desamor ou a paixão por outra pessoa, com a variedade logo atrás. O resto é sobretudo emocional: sentir descaso ou precisar se sentir desejado de novo. Às vezes é pura raiva sem ter para onde ir.

Os homens citaram com mais frequência a variedade, a situação e o desejo sexual; as mulheres citaram com mais frequência o descaso. O velho clichê de que o homem trai por sexo e a mulher por sentimento se sustenta só pela metade. Mesmo entre os homens o sexo não é o motor principal; ele apenas aparece um pouco mais do que entre as mulheres.

Os motivos também se misturam. Veja o caso de Pedro. Em casa ele se sentia invisível, ouvindo sobretudo o que havia feito de errado mais uma vez. Em uma festa do trabalho, uma colega escutou e riu das piadas dele, e pela primeira vez em muito tempo ele sentiu que contava para alguém. O descaso escorregou para a autoestima e para a oportunidade em uma única noite. Aponte um motivo único e não existe nenhum.

O apego evitativo e a atração pela traição

Um padrão de personalidade acompanha a infidelidade de forma especialmente próxima: o apego evitativo. Para essas pessoas, a independência é o valor máximo e a proximidade é um peso. A equipe de C. Nathan DeWall testou isso em oito estudos (Journal of Personality and Social Psychology, 2011), e o resultado se manteve. As pessoas evitativas tinham uma visão mais permissiva da traição, notavam mais as alternativas atraentes, se interessavam mais por elas e traíam com mais frequência ao longo do tempo.

A parte reveladora é o que movia isso. Não o apetite, e sim o comprometimento menor. Uma pessoa evitativa investe menos, e quanto menor o comprometimento, mais fraco é o freio para um passo ao lado. Menos uma desculpa do que um mecanismo.

Isso não significa que as pessoas evitativas estejam destinadas a trair, nem que os tipos ansioso e seguro sejam imunes. O apego apenas empurra as probabilidades. Para ver como os quatro estilos se diferenciam e de onde vêm, o nosso guia sobre os estilos de apego apresenta o assunto em detalhe.

Quatro mitos que atrapalham

Só quem é infeliz trai. Como mostram os números, a infidelidade aparece também em relacionamentos que parecem bons por dentro. Às vezes é tédio ou uma situação isolada, e não uma falha profunda do casal. O reflexo de ler aquilo como “ele traiu, então eu falhei neste relacionamento” muitas vezes não corresponde à verdade.

A traição sempre significa o fim. Alguns casais permanecem juntos, e alguns terminam em melhor forma do que antes. Isso nunca sai de graça e não dá para planejar, mas o término não é o único roteiro.

A traição emocional não conta. Um vínculo que nunca chegou ao quarto, mas desviou atenção, intimidade e segredo para outro lugar, pode doer tanto quanto um vínculo físico. Cada casal traça a própria linha, e o ocultamento costuma ser um marcador mais verdadeiro do que o que aconteceu fisicamente.

A culpa é de quem foi traído. Aqui é preciso precisão. As duas pessoas moldaram o relacionamento antes do caso, mas só uma escolheu trair. A responsabilidade por essa escolha não se dissolve em “bom, você me empurrou para isso”. Entender o contexto não é o mesmo que entregar a culpa.

O que fazer nos primeiros dias

Logo depois da descoberta, a pessoa está em choque agudo, e o choque dá péssimos conselhos. O corpo funciona na adrenalina, o sono some, os pensamentos ficam em circuito. Não é hora de decisões que moldam uma vida.

  • Não faça nada irreversível nos primeiros dias. Sair de casa ou ligar para um advogado pode esperar a primeira onda passar. A decisão que dura é tomada depois.
  • Não interrogue o seu parceiro até o último detalhe. As imagens que um interrogatório de “onde, com que frequência, como” produz não têm como ser apagadas, e voltam por meses.
  • Cuide do básico: comida, sono, água, uma caminhada. Soa banal, mas você pensa com mais clareza quando o corpo se assenta.
  • Escolha para quem contar. Uma ou duas pessoas de confiança, que estabilizem você em vez de agitar. Espalhar aquilo para a família ou nas redes sociais quase sempre sai pela culatra.

Quando foi a última vez que você tomou uma decisão importante às três da manhã, sem ter dormido, e no dia seguinte sentiu orgulho dela? É por isso que a fase aguda tem uma única tarefa: atravessá-la, não resolver o futuro dentro dela.

Ficar ou ir embora

As duas escolhas são legítimas. Não existe uma resposta moralmente correta que você deveria sustentar, e as pessoas que sabem exatamente o que fariam “no seu lugar” não ajudam. Algumas perguntas valem mais do que a opinião dos outros.

  • Foi um deslize isolado ou um padrão? Um caso repetido e longo é uma situação diferente de uma única noite de bebedeira.
  • O seu parceiro assumiu por conta própria ou você descobriu? Levar aquilo até você por vontade própria diz algo que ser pego não diz.
  • A outra parte está disposta a encarar as consequências e a fazer o trabalho? Um pedido de desculpas sentido, sem disposição de mudar nada, é apenas alívio breve.

Os casais que sobrevivem a um caso raramente conseguem sem trabalho deliberado, muitas vezes terapia de casal. Reconstruir a confiança leva anos, não uma noite de arrependimento, e o ponto não é desculpar a traição, e sim decidir se dá para reconstruir algo que valha a pena manter. Quando não dá, ir embora não é perda; até esse caminho é melhor do que o pânico, como descreve o texto sobre como superar um término. E, se você ficar, muita coisa depende de conseguir falar sobre o que é difícil, e é aí que um guia sobre como melhorar a comunicação no relacionamento ganha o seu lugar.

Quando a traição é sintoma e quando é só um impulso

Às vezes a traição é mesmo um sintoma. O relacionamento está oco há anos, duas pessoas correndo lado a lado como colegas de apartamento, e o caso é apenas o formato que a saída assume. Outras vezes é um impulso dentro de um relacionamento que funciona: uma oportunidade, ou um momento de fraqueza depois de alguns drinques que a pessoa desfaria na hora se pudesse. Os dois pedem respostas diferentes; confundi-los é um erro.

A terapeuta Esther Perel oferece em The State of Affairs (2017) uma lente que vale pesar, embora seja um ponto de vista, não um fato comprovado. Na leitura dela, quem está em um caso muitas vezes persegue não um parceiro diferente, e sim uma versão diferente de si. A traição é então menos uma fuga da outra pessoa do que um retorno a algo que foi silenciado há muito tempo. Isso explica por que pessoas que ainda amam o parceiro traem.

Cuidado com uma armadilha. A explicação de por que o caso aconteceu nunca pode azedar em culpar quem foi traído. “Ela era fria, então não é de espantar” não é análise, é álibi. O contexto ajuda a entender; ele não move a culpa. E quando a traição aparece onde um dos parceiros é constantemente diminuído, controlado ou isolado, a pergunta real é se você está diante de um relacionamento tóxico, e não do caso em si.

O padrão que você leva para os seus relacionamentos

A infidelidade nunca tem uma causa universal, mas costuma ser alimentada por um padrão carregado durante anos sem ser visto. Uma evitação que foge no instante em que o relacionamento se aprofunda. Uma ansiedade que caça uma certeza que o relacionamento nunca fornece. Ou o hábito de escolher, repetidas vezes, o tipo de parceiro com quem a traição já vem quase embutida.

Entender o seu próprio estilo de apego não significa cavar atrás de um defeito nem supor que o fracasso é inevitável. Significa pegar as suas tendências antes que elas peguem você. Para começar por você, faça o teste de estilo de apego. Ele mede a sua ansiedade e a sua evitação e coloca você em um dos quatro estilos, para você enxergar onde fica o seu ponto fraco e por que ele puxa você para um certo tipo de parceiro.

De qualquer lado de um caso em que você esteja, ou se quiser apenas dar sentido àquilo, a pergunta mais útil não é “de quem é a culpa”, e sim “e agora”. Essa tem resposta, mesmo quando arde, e só com a cabeça fria, não no meio da primeira onda.

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