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Empreendedorismo e liderança

Segurança psicológica - o que separa as melhores equipes

O projeto Aristóteles do Google apontou a segurança psicológica como o maior preditor de desempenho de equipe. O que ela é e o que ela não é.

No fim dos anos 1990, Amy Edmondson estudou equipes de enfermagem em dois hospitais esperando um resultado óbvio: as equipes com as melhores relações cometeriam menos erros de medicação. Os dados mostraram o contrário. As equipes mais bem avaliadas relatavam mais erros, não menos.

Por um momento aquilo pareceu absurdo. Então Edmondson entendeu. As melhores equipes não cometiam mais erros. Elas simplesmente não tinham medo de falar sobre eles. Onde o medo reinava, a enfermeira enterrava o erro em silêncio e torcia para ninguém notar. Onde havia segurança, ela relatava o erro, a equipe discutia e da próxima vez todos desviavam dele.

Essa relação invertida deu nome a um conceito que o Google coroaria duas décadas depois como o maior preditor de desempenho de equipe. Chama-se segurança psicológica. E, se você imagina um clima ameno e sem conflitos, entendeu ao contrário.

O que é de fato a segurança psicológica

Edmondson (1999, Administrative Science Quarterly) definiu o conceito como a crença compartilhada de que a equipe é um lugar seguro para correr riscos interpessoais. A palavra “compartilhada” não está ali por acaso. Não se trata do que você sente por conta própria. Trata-se de uma norma que o grupo sustenta em conjunto.

Correr riscos interpessoais soa abstrato, mas você conhece isso de toda reunião. Perguntar sobre algo que todo mundo talvez tenha entendido há muito tempo. Admitir que errou. Discordar da chefia na frente da sala. Dizer “não estou entendendo isso” ou “acho que estamos enganados”. Cada um desses momentos traz o risco de parecer ignorante, incompetente ou de estar criando caso.

Em uma equipe segura você corre esse risco, porque espera que ninguém vá humilhar ou punir você por isso. Em uma equipe insegura, você se cala. E o silêncio no trabalho é caro, porque um problema do qual ninguém fala é um problema que ninguém resolve.

Edmondson nomeou quatro medos dos quais desviamos instintivamente no trabalho. Não queremos parecer ignorantes, então pulamos a pergunta. Não queremos parecer incompetentes, então escondemos a fragilidade. Tememos parecer inconvenientes, então a ideia fica só na nossa cabeça. E não queremos ser quem critica o tempo todo, então deixamos passar uma decisão que nos incomoda. Cada um desses medos faz sentido no momento e, com o tempo, rouba informação da equipe.

Cuidado com uma confusão comum. Segurança não significa ter intimidade de amizade com os colegas, nem que vocês sejam gentis e agradáveis uns com os outros. Uma equipe pode gostar sinceramente de si mesma e ainda assim temer a verdade difícil. E uma equipe que discute com ardor sobre conteúdo pode ser extraordinariamente segura, desde que essa discussão não custe a ninguém a sua posição ou o seu respeito.

O Google quis provas: o projeto Aristóteles

Em 2012, o Google lançou um estudo interno com um objetivo ambicioso: descobrir o que torna uma equipe excelente. O projeto recebeu o nome de Aristóteles e, ao longo de cerca de dois anos, percorreu aproximadamente 180 equipes da empresa. A pergunta era simples. Por que algumas equipes se destacam enquanto outras, cheias de pessoas igualmente inteligentes, ficam para trás?

A pesquisa apostou primeiro na composição. Juntar pessoas introvertidas e inteligentes, ou misturar pessoas introvertidas com extrovertidas, ou aproximar quem compartilha interesses. Nenhuma dessas hipóteses se sustentou. Descobriu-se que quem está na equipe importa muito menos do que a forma como essas pessoas tratam umas às outras.

Cinco fatores separavam as melhores equipes das demais: segurança psicológica, confiabilidade, estrutura e clareza, sentido no trabalho e a convicção de que ele tem impacto. E um deles se erguia muito acima dos outros.

A segurança psicológica apareceu como de longe o mais importante dos cinco fatores e, ao mesmo tempo, como a base sobre a qual os outros quatro se apoiam.

A lógica por trás disso é simples. Sem segurança, as pessoas não admitem que estão ficando para trás, e a confiabilidade desmorona. Não dizem que a instrução está confusa, e a estrutura desmorona. Ficam caladas quando o sentido escorre do trabalho. A segurança não é um entre cinco fatores independentes. É o solo em que os outros crescem.

Segurança não é conforto

É aqui que muita gente na gestão se perde. Ouve “segurança psicológica” e traduz como “vamos ser gentis e nunca cobrar ninguém”. O resultado é uma equipe em que ninguém tem medo e ninguém se esforça. Edmondson passou anos corrigindo esse mal-entendido e, no livro The Fearless Organization (2018), usa uma matriz simples para isso.

Coloque dois eixos um contra o outro: segurança psicológica e nível de exigência, ou seja, responsabilidade pelos resultados. Você obtém quatro quadrantes.

Exigência baixa Exigência alta
Segurança alta Zona de conforto: as pessoas falam abertamente, mas nenhum resultado cobra ninguém Zona de aprendizado: abertura somada a uma vontade real de entregar
Segurança baixa Zona de apatia: ninguém se engaja, o trabalho é feito no automático Zona de ansiedade: pressão por resultado sem coragem de dizer a verdade, um caminho para o burnout

Mire o canto superior direito, a zona de aprendizado. Segurança alta combinada com exigência alta. As pessoas perseguem uma meta difícil e ainda assim se sentem livres para admitir que o plano não está indo bem, pedir ajuda ou questionar a direção.

A diferença entre a zona de conforto e a zona de aprendizado costuma ser sutil e brutal ao mesmo tempo. Nas duas, as pessoas falam abertamente. Só na segunda existe uma meta exigente por trás dessa abertura, obrigando a equipe a usá-la de fato. Segurança sem exigência fabrica uma cultura de reuniões agradáveis, cheia de trocas calorosas e sem nada entregue.

Essa zona de conforto é uma armadilha traiçoeira. Parece saudável, todo mundo se sente bem, e mesmo assim a equipe não sai do lugar. E a zona de ansiedade é exatamente o hospital de Edmondson antes de a segurança chegar: pressão alta, nenhuma disposição para admitir um erro, e então os erros escorregam para debaixo do tapete até explodirem.

Como quem lidera constrói isso

A segurança psicológica não pode ser decretada em uma reunião. A frase “a partir de agora este é um espaço seguro, fale à vontade” não faz nada, porque a segurança é deduzida do comportamento, não dos anúncios. As pessoas observam o que acontece com quem fala primeiro. Depois se organizam de acordo.

Veja uma cena típica. Na reunião rápida da manhã, um desenvolvedor júnior chamado Lucas conta que subiu uma alteração que derrubou parte do site por vinte minutos. Quem lidera tem duas opções. Ou “como é que você deixou isso acontecer” na frente da equipe inteira, ou “agradeço por avisar na hora, o que aprendemos e como percebemos isso mais cedo da próxima vez?”. A primeira reação garante que o próximo erro será escondido. A segunda transforma um erro em matéria-prima para melhorar. A diferença é uma frase, e ela molda a equipe por meses.

Há algo de impiedoso nisso. A segurança se constrói devagar e se destrói rápido. Você pode passar meio ano convidando as pessoas com paciência a se abrirem e depois derrubar tudo por meses com uma única piada às custas de alguém. A equipe lembra dessa reação, não das vinte reações acolhedoras que vieram antes.

Edmondson e os dados do projeto Aristóteles concordam sobre um punhado de comportamentos que constroem segurança mais do que qualquer outra coisa:

  • Admita a própria falibilidade. Quando quem lidera diz “interpretei isso errado” ou “não sei bem o que concluir, preciso da opinião de vocês”, todo mundo ganha permissão para fazer o mesmo.
  • Pergunte mais do que responde. A pergunta “o que pode estar me escapando aqui?” no fim de uma reunião abre uma porta que dez apelos à abertura nunca abrem.
  • A sua reação a uma má notícia decide tudo. Alguém traz um problema, você explode, e acabou de fechar a porta para a próxima vez.
  • Separe um experimento honesto do descuido. Uma tentativa fracassada com a qual a equipe aprendeu não é o mesmo que negligência, e punir as duas da mesma forma ensina as pessoas a não tentarem nada novo.
  • Agradeça pela coragem, não só pelas boas notícias. “Agradeço por dizer isso em voz alta” honra o ato de falar, mesmo quando o conteúdo dói.

Reagir de forma produtiva a uma má notícia é, no fundo, dar feedback em tempo real. A segurança e a capacidade de dar e receber feedback se alimentam mutuamente, e destrinchamos essa mecânica no nosso guia sobre como dar e receber feedback.

Como saber em que ponto a sua equipe está

A segurança pode ser medida. Na pesquisa de 1999, Edmondson usou um questionário de sete itens respondidos em uma escala de concordância. Você não precisa aplicá-lo formalmente. Basta percorrer os itens mentalmente pensando na sua equipe e responder com honestidade. Alguns deles, parafraseados:

  • Quando você comete um erro nesta equipe, isso é usado contra você? Quanto mais vezes a resposta for sim, pior.
  • Você consegue levantar um tema difícil ou um problema aqui sem se queimar por causa disso?
  • Você se sente em segurança para se expor e correr um risco?
  • É fácil pedir ajuda aos colegas ou pedir dá vergonha?
  • A equipe valoriza as suas habilidades específicas ou passa por cima delas?

Quando foi a última vez que você disse “não estou entendendo isso” em uma reunião? E quando foi que você engoliu a frase porque o silêncio parecia mais seguro? A sua resposta revela mais sobre a equipe do que qualquer questionário.

Os sinais de alerta também aparecem sem papel nenhum. As mesmas duas pessoas falam em todas as reuniões. Ninguém nunca faz uma pergunta boba. Os erros só vêm à tona quando já é tarde para consertá-los. E, quando a chefia pergunta “alguém tem alguma preocupação?”, vem o silêncio, e depois as mesmas pessoas dizem algo completamente diferente no corredor.

O que uma pessoa comum da equipe pode fazer

A maior parte do que se escreve sobre segurança psicológica mira a gestão, como se quem está na base fosse apenas um receptor passivo do clima. Não é assim que funciona. A norma se forma de baixo tanto quanto de cima, e uma pessoa corajosa pode elevar o patamar da equipe inteira.

Quando você faz uma pergunta em voz alta ou assume um erro, faz duas coisas ao mesmo tempo. Resolve o seu próprio problema e mostra a todo mundo que o mundo não acabou. Da próxima vez, outra pessoa fala. A segurança é contagiosa nos dois sentidos, porque o medo se espalha e a coragem também.

Proteger quem corre um risco também está ao seu alcance. Quando um colega lança uma opinião impopular e a sala cai em cima, basta uma frase: “espera, essa ideia merece uma olhada”. Quando alguém pergunta sobre algo básico, não dê sinal de que aquilo está abaixo de você. Essas pequenas reações decidem se as pessoas vão falar da próxima vez ou se vão se recolher de novo.

Ajuda conhecer as próprias tendências. Em uma equipe, uma pessoa assume naturalmente o papel de fazer as perguntas incômodas, enquanto outra suaviza o conflito por instinto e cuida do clima. Nenhum dos dois é errado, mas cada um molda a segurança ao redor de um jeito diferente. Se você quiser ver para quais papéis pende, um teste de papéis de equipe dá uma leitura.

Edmondson nos deixa uma observação incômoda: em uma equipe sem segurança, o silêncio é um comportamento completamente racional. Calar não custa nada, falar pode custar caro. Enquanto alguém não inverter essa equação, seja quem lidera, pela forma como reage a más notícias, seja um colega que fala primeiro, nenhuma reunião sobre os valores da empresa vai mover isso um centímetro.

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