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Relacionamentos e comunicação

O tratamento de silêncio no relacionamento

Por que o silêncio no relacionamento dói tanto, como distinguir castigo de pausa e como rompê-lo sem perder a pose. Com tempo combinado.

Ricardo e Carla estão há quatro dias sem se falar. Dividem o mesmo apartamento, se cruzam na cozinha de manhã e o que precisa ser dito passa pela filha de oito anos. Na bancada há um papelzinho com uma palavra: “Aluguel”.

De fora, parece ausência de comunicação. Na prática a comunicação funciona a todo vapor, só que sem palavras. O tratamento de silêncio carrega um recado bem específico: eu vejo você, você está aí, e mesmo assim não vou levar você em conta. Esse recado sempre chega.

Silêncio como castigo e silêncio como pausa

Antes de resolver qualquer coisa, vale separar duas situações que, vistas do sofá, parecem quase iguais. Uma é o recuo por sobrecarga. A outra é o silêncio usado como ferramenta.

A pausa tem prazo e tem volta. Você diz que precisa de meia hora e, meia hora depois, volta mesmo para a conversa. O castigo tem destinatário e tem finalidade. Não tem um fim que a outra pessoa conheça e é construído para ser sentido.

A diferença é percebida até por quem nunca abriu um livro de psicologia. Pergunte a si mesmo se o silêncio que você está segurando tem data para acabar. Se a resposta for “acaba quando ela pedir desculpa”, isso não é descanso, é negociação sem palavras. E é uma das manifestações de manual do comportamento passivo-agressivo: por fora não acontece absolutamente nada, por baixo corre pressão.

No idioma a diferença é pequena, na prática é gigantesca. “Agora eu não tenho palavras” descreve um estado. “De mim você não ouve uma palavra” descreve uma sanção. A maioria, no meio de uma briga, não sabe qual das duas está vivendo, e isso faz parte do problema.

Por que o silêncio no relacionamento dói tanto

Kipling Williams passou décadas pesquisando o ostracismo, o que acontece com alguém quando as pessoas ao redor fingem que ele não está ali. Sua ferramenta mais conhecida se chama Cyberball e é de uma simplicidade quase absurda. Na tela, três bonequinhos jogam uma bola entre si e, depois de algumas rodadas, os outros dois passam a jogar só entre eles.

Os participantes estão sozinhos diante do computador, nunca viram os colegas de jogo e não há nenhuma recompensa em disputa. Ainda assim, em poucos minutos o humor piora e cai a sensação de pertencer a algum lugar e de ter a situação sob controle. Williams constatou repetidamente que o ostracismo dói mesmo quando você avisa de antemão que quem está jogando contra é apenas um programa de computador.

Em 2003, Naomi Eisenberger e colegas colocaram esse jogo para pessoas deitadas dentro de um scanner. Durante a exclusão acendia uma região do cérebro que também aparece na dor física, mais precisamente no componente desagradável dela, o que responde a “o quanto isso me incomoda”. A dor social e a de uma canelada dividem um pedaço da mesma maquinaria. O cérebro não trata a rejeição como abstração, trata como lesão.

Agora leve isso para dentro de casa. O Cyberball dura alguns minutos, é jogado por desconhecidos e não está valendo nada. O tratamento de silêncio dura dias, é sustentado pela pessoa com quem você divide a cama, e está valendo tudo. Por isso “meu parceiro não fala comigo” não descreve apenas um clima pesado em casa. Descreve um estado ao qual o corpo reage como a um machucado.

O que esse silêncio faz com os dois lados

Quem fica calado costuma ser visto como o lado mais forte. Está com a carta, decide quando o jogo termina e, por fora, parece tranquilo. Só que essa calma quase sempre é superfície.

John Gottman, que passou décadas filmando e dissecando casais em plena briga, coloca o recuo crônico da conversa entre os sinais de alerta mais fortes para o futuro de um relacionamento. Em quem se fecha ele descrevia uma contradição chamativa: por fora um rosto imóvel, por dentro um corpo em prontidão total. Quem para de responder não está acima da situação. Está inundado, e o silêncio foi a única coisa que lhe ocorreu.

O outro lado, enquanto isso, roda no próprio carrossel. Repassa a última conversa, procura a frase que disparou tudo, escreve mensagens e apaga. Quando o silêncio dura o suficiente, passa a se comportar de maneira mais complacente do que gostaria, só para aquilo acabar. É aí que o silêncio vira instrumento de poder, mesmo que ninguém tenha planejado isso.

A discussão, enquanto isso, não anda. Congela. Depois de uma semana o casal volta à rotina, porque é preciso buscar a filha e pagar o aluguel, só que o assunto original continua intocado sob a superfície. Da próxima vez reaparece maior, com o histórico das rodadas silenciosas anteriores em cima.

Ninguém puxou de propósito a filha da cena inicial para isso. Ainda assim ela virou caixa de correio, e crianças leem esse papel com precisão: meus pais brigaram, falar está proibido, e eu levo os recados. Uma briga aberta no jantar costuma ser mais digerível para uma criança do que três dias de silêncio que ela não entende.

No modelo de dupla preocupação, descrito nos anos sessenta por Robert Blake e Jane Mouton, esse comportamento cai no estilo evitativo: pouca assertividade, pouca disposição para atender o outro, e o resultado não é acordo nem concessão, é adiamento. Evitar não é erro em si e, em bobagens, é até prático. O problema começa quando vira a única reação disponível ao desconforto. Para ver para que lado você pende quando a tensão sobe, faça o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e o resultado é um estilo primário e um secundário, além da sua posição no mapa entre assertividade e cooperação.

Meu parceiro não fala comigo. Como romper o silêncio sem perder a pose

O motivo mais comum para o tratamento de silêncio durar mais do que precisava não é raiva. É prestígio. Quem fala primeiro parece estar admitindo que tinha um pouco menos de razão, e isso, com os nervos à flor da pele, pesa.

Ajuda dar um primeiro passo pequeno o bastante para não parecer rendição. Não é preciso começar pela briga. Basta uma frase corriqueira dita em voz normal: oferecer um café, perguntar se precisa comprar algo, um comentário sobre o tempo na escada. Soa banal, mas sinaliza que o canal está aberto de novo.

O segundo passo é nomear o estado em vez do conteúdo. “Não sei como começar a falar com você, mas assim eu não quero” não admite derrota na discussão. Admite apenas que o silêncio incomoda você, o que é bem diferente. O curioso é que é quase impossível recusar, porque não exige nada.

Algumas coisas que facilitam esse primeiro contato:

  • uma frase curta sobre o dia a dia em vez do retorno imediato ao tema da briga
  • ofereça um horário, não uma conversa agora: “a gente pode falar disso hoje à noite, quando a pequena estiver dormindo?”
  • uma mensagem, não uma sequência de mensagens que ninguém responde
  • sem condições do tipo “eu falo quando você pedir desculpa”
  • se o outro responder de forma seca, encare como largada e não como recusa
  • recados pela filha somem por completo, inclusive os práticos

Sobra uma pergunta que os casais raramente fazem em voz alta. Quantas horas de silêncio costumam passar na sua casa antes de alguém falar primeiro, e é sempre a mesma pessoa? Se a resposta para a segunda metade for sim, você não tem em casa uma briga, tem um mecanismo já rodado.

Tempo combinado em vez de castigo

Existe uma versão do silêncio que faz bem ao relacionamento. Ela se diferencia por uma coisa: é combinada antes, com calma, não no meio da gritaria.

O tempo significa que qualquer um dos dois pode parar a conversa, mas ao mesmo tempo precisa entregar duas informações. Que precisa sair para respirar, e quando vai voltar. “Preciso de uma hora, às oito a gente senta.” Sem essa segunda parte, a pausa vira só silêncio de novo, e o outro lado lê silêncio como castigo.

Gottman recomenda dar ao corpo tempo suficiente para descer da prontidão, e vinte minutos costumam ser o piso a partir do qual faz sentido continuar. Durante a pausa ajuda qualquer coisa que não seja reencenar a briga na cabeça. Uma caminhada, um banho, a louça. Quem passa o tempo montando contra-argumentos volta tão ligado quanto saiu.

A volta é compromisso, não opção. É nisso que a pausa combinada se distingue do tratamento de silêncio, embora nos primeiros dez minutos as duas pareçam idênticas. Se um de vocês declara pausa com frequência e raramente volta, vale olhar como são os outros estilos de resolução de conflitos e o que dá para pegar emprestado.

Quando o silêncio vira ferramenta de controle

A maior parte desses silêncios é falta de jeito, não crueldade. As pessoas se calam porque ninguém lhes mostrou outro modo de agir quando estão magoadas e furiosas ao mesmo tempo. Aprenderam em casa, onde se fazia exatamente assim.

Há padrões, porém, em que o silêncio cumpre outra função. Dura dias ou semanas, volta com regularidade, termina só quando o outro lado cede, e a casa inteira se ajusta a ele. Quando você se pega medindo as frases para que “não comece de novo”, não está resolvendo uma discussão. Está descrevendo o regime em que vive.

Por dentro, a fronteira entre uma briga acirrada e um padrão de pressão nem sempre é nítida. Você encontra pistas no texto sobre como reconhecer um relacionamento tóxico. E se você se reconhecer nelas repetidamente, um terapeuta de casal ou psicólogo não é sinal de fracasso, é só um olhar de fora de quem vê isso todo dia.

Ricardo e Carla romperam no quinto dia, junto da lava-louças. Ele não disse “me desculpa” nem “a gente precisa conversar”. Perguntou se tinha comprado o tipo certo de pastilha, porque na caixa havia duas versões. Carla respondeu com duas frases sobre pastilha e uma sobre não querer continuar daquele jeito. A conversa sobre o fim de semana na casa dos pais dele veio dois dias depois e durou menos de meia hora. O papelzinho escrito “Aluguel” alguém já tinha jogado no lixo.

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