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Personalidade e autoconhecimento

Autoironia: quando ela ajuda e quando derruba

Rir de si mesmo aproxima as pessoas, até virar hábito. A diferença entre autoironia e autodepreciação e o que a pesquisa achou nas duas.

Rafael conta na mesa que, numa reunião com cliente, compartilhou a tela e, no lugar dos números do semestre, apareceu para todo mundo o pedido de ração de gato que tinha deixado pela metade. Ele conta com ritmo, com o detalhe de quanto tempo levou para achar a janela certa, e a mesa cai na gargalhada.

Seis meses depois ele conta a mesma história de novo, só que mais baixo e com um pedido de desculpas colocado na frente: que ele é assim mesmo, é com ele que essas coisas acontecem. As palavras quase não mudaram. A primeira versão somou para ele no grupo, a segunda subtraiu.

A diferença entre essas duas versões é, no fundo, o assunto inteiro da autoironia. O alvo é o mesmo nos dois casos, ou seja, você. O que muda é a posição de onde você o ocupa e o que sobra de você depois da piada.

Por que uma piada à própria custa desarma

Em qualquer grupo as pessoas ficam medindo quem se permite quanto. Quem faz alvo de si mesmo desce um degrau sem que ninguém tenha mandado. E como fez isso por vontade própria, quem está em volta lê como sinal de segurança: descer se atreve quem não tem medo de não voltar.

O segundo efeito é mais prático. Se o ponto fraco é você quem nomeia primeiro, ninguém precisa descobrir. Quem chega a uma apresentação com o cabelo rareando e começa dizendo que os três últimos fios foram embora justamente durante o preparo daquela apresentação tira o material dos outros antes que consigam usar. A alfinetada pelas costas não tem onde encaixar, porque o lugar está ocupado.

E em terceiro lugar existe uma permissão para os outros. Ao lado de quem visivelmente não se incomoda de não ser perfeito, admitir a própria imperfeição sai mais barato. O novato relaxa perto de um colega assim em dez minutos, porque lê no comportamento dele que erro aqui não custa a cara.

Com modéstia isso quase não tem nada a ver, ainda que de fora pareça a mesma coisa. Uma pessoa modesta diminui o resultado que alcançou. Uma autoirônica admite uma fraqueza concreta e deixa o resultado onde está. Uma frase tira daquilo que você fez, a outra do quanto você parece infalível ao fazer. A diferença dá para ouvir quando você elogia alguém e a pessoa responde que não foi nada, comparado a quando responde que só ficou bom na terceira tentativa.

Só que a autoironia não funciona no vácuo, e essa costuma ser a parte menos evidente. Ela funciona como desconto sobre algo que já está à vista. A mesma frase vinda de quem o time observa há um ano fazendo bom trabalho e de quem começou na segunda-feira não é a mesma frase. No primeiro caso fica guardada como calma, no segundo como primeiro dado da pasta. A autoironia precisa de contexto; sem ele não há o que baixar e sobra só a baixada.

Quando o alvo é sempre o mesmo

Bruna entrou numa empresa em que nas reuniões se falava baixo e direto ao ponto. No primeiro mês reparou na única coisa que ali fazia rir sem falhar: alguém se rebaixar. Ela disse que entendia de planilha o tanto que jabuti entende de escada, e pela primeira vez em semanas a sala relaxou. Dois meses depois era hábito, um comentário sobre si por reunião.

Um ano depois ela descobriu que as análises mais complicadas estavam indo para outra pessoa. Ninguém cobrou nada dela nem pensou mal dela. Todos montaram, com o material dela mesma, uma imagem que fechava. Uma história contada pela quinta vez não fica guardada como piada, e sim como fato.

É por aqui que passa a fronteira entre autoironia e autodepreciação. Ela não está em uma frase isolada, que pode ser exatamente a mesma. Está na proporção, na repetição e principalmente no motivo pelo qual você escolheu aquele alvo. A autoironia é uma escolha, uma entre várias formas de segurar a situação. A autodepreciação é automática: aparece a insegurança, sai a piada sobre si mesmo.

Nessa posição o humor vira ingresso para a turma. Você não precisa ser o mais interessante da mesa, basta ser aquele com quem sempre tem graça, porque a graça é feita dele. É um ingresso barato e disponível na hora. Só que se paga parcelado, e as parcelas chegam quando você precisa que alguém o leve a sério.

O efeito colateral mais discreto aparece no retorno que você recebe. Quem nomeia as próprias fraquezas em voz alta para de ouvi-las dos outros. As pessoas partem do princípio de que você já sabe, guardam o comentário e só entram na risada. A crítica que daria para aproveitar nunca chega até você, e sobra apenas a sua versão, repetida sem parar.

Por trás desse padrão não precisa haver drama. Muitas vezes é só um movimento aprendido que funcionou uma vez e desde então se repete sozinho. O jeito como você fala de si em voz alta, porém, acaba se emparelhando com o jeito como fala de si em silêncio, e a essa segunda conversa é dedicado um texto à parte sobre como aumentar a autoestima.

O que a pesquisa sabe sobre isso

O psicólogo canadense Rod Martin e seus colegas propuseram em 2003 um modelo que não separa o humor pelo fato de ser bom, e sim por a quem e a que ele serve. Usa dois eixos independentes: o tom, se a piada é gentil ou afiada, e a direção, se ela mira nos outros ou em você. Da combinação dos dois saem quatro estilos de humor: agregador, fortalecedor, ácido e autodepreciativo.

O interessante é o que aconteceu nos dados com os dois que miram para dentro. Ambos têm o mesmo alvo, a própria pessoa, e mesmo assim ficaram em lados opostos. O humor fortalecedor, a capacidade de achar o lado cômico do próprio azar, andava junto com um bem-estar melhor. O autodepreciativo, com um pior. A escolha do alvo, portanto, não decide nada. Quem decide é a direção para a qual a piada empurra a sua posição.

Essa frase precisa ser lida com cuidado. São correlações, não causa, e a ordem inversa pode valer igualmente bem: quem há muito se sente pior recorre mais a se rebaixar. Além disso, é um hábito medido ao longo de dezenas de situações, não uma piada isolada. De um comentário sobre si mesmo não decorre nada.

Vale mencionar que as quatro escalas são independentes. Você não é um de quatro tipos, você tem uma porção de cada estilo. Uma pontuação alta em se rebaixar encontra na prática, com frequência, uma pontuação alta no humor agregador, e daí sai alguém que faz a mesa inteira rir e guarda para si o papel principal.

O psiquiatra George Vaillant, que por décadas acompanhou como as pessoas lidam com coisas desagradáveis, coloca o humor entre os mecanismos de defesa maduros. Maduro quer dizer aqui que ele diminui o peso sem distorcer a realidade. É justamente nas piadas à própria custa que isso se rompe mais depressa, porque a mesma ferramenta consegue elaborar uma coisa desagradável e também empurrá-la para depois. Onde fica a fronteira é o que o texto sobre humor como defesa destrincha.

Você ri com você ou por baixo de você?

Existe um teste simples e ele não está no conteúdo da piada. Está no que acontece com você dez segundos depois que a risada some. A autoironia saudável deixa leveza, como quando você tira a mochila das costas. O rebaixamento deixa uma pontada fraca e, junto com ela, a vontade de explicar aquilo de algum jeito ou de emendar logo outra coisa.

Você lembra da última piada que fez à sua custa? Quem estava na sala, por que você a fez naquela hora e como você se sentiu um minuto depois? A resposta a essa última pergunta costuma ser mais precisa do que qualquer reflexão sobre que tipo de humor você tem.

O segundo indicador é a autoria. Você escolheu aquele alvo porque era a possibilidade mais engraçada ou porque o silêncio tinha ficado incômodo e essa é a forma mais rápida de preenchê-lo? Escolha e fuga parecem iguais de fora. De dentro raramente se confundem.

E em terceiro lugar, o teste do silêncio. A autoironia aguenta, porque a piada foi subproduto de uma calma que você tem também sem plateia. O rebaixamento não aguenta o silêncio, porque a risada é a única recompensa dele. Se ninguém ri, na mesa fica só o que você disse de si. Se você quiser saber em que proporção essas quatro posições se misturam em você, um breve teste de estilos de humor dá uma orientação aproximada.

Quando ocupar o alvo e quando deixá-lo livre

Uma regra que funciona: ocupe o alvo onde a sua competência aparece por outro caminho. Um deslize pequeno numa área em que as pessoas conhecem você como alguém confiável é piada. O mesmo deslize numa área em que ainda não têm certeza de você não é piada, é prova. Por isso a autoironia cai bem num médico experiente e não num estudante na prova oral, embora os dois digam a mesma coisa.

Deixe o alvo livre em três situações. Quando você precisa emplacar alguma coisa e as pessoas têm de acreditar na sua versão. Quando você está de fato lá embaixo, porque a piada sobre o próprio fracasso naquele momento é só um caminho mais rápido para a mesma conclusão. E quando quem está em volta ainda não tem com o que comparar você.

Situação Autoironia Autodepreciação
Você chega dez minutos atrasado à reunião. “Minha agenda mentiu na minha cara hoje de manhã.” A tensão cai e a reunião segue. “Eu não sirvo para nada mesmo, desculpem.” Agora a sala está cuidando de você, e não da pauta.
Você recebe uma crítica concreta ao trabalho entregue. Você admite o erro específico com leveza e pergunta como consertar. Você joga fora a sua capacidade inteira. O outro troca o corrigir pelo consolar e na próxima prefere ficar calado.
O colega novo está sem jeito no primeiro dia. Você desencava um mico de iniciante do seu primeiro emprego. Em pouco tempo ele relaxa. Você despeja uma série de histórias sobre como nada dá certo com você. O colega novo não sabe se pode rir.
Alguém elogia você por um resultado. Você agradece e acrescenta um exagero sobre quantas versões anteriores não prestavam. Você varre o elogio da mesa. Quem elogiou não se dá ao trabalho na próxima vez.
Você teve uma semana realmente péssima. Você diz direto que está péssimo e guarda a piada para outro dia. Você transforma aquilo num número para os outros e à noite reprisa sozinho.

Conta também quem está mais no alto na sala. Um chefe que tira sarro do próprio deslize baixa a tensão e não arrisca nada, porque a posição dele se sustenta em outra coisa que não a impressão de uma reunião. A mesma frase vinda da pessoa mais nova do time se lê de um jeito completamente diferente: muitas vezes como um pedido de garantia que alguém precisa responder. Autoironia de cima é presente, autoironia de baixo costuma ser conta que os outros pagam acalmando.

Especialmente traiçoeira é a forma escrita. No chat e no e-mail faltam o tom de voz e o ritmo, exatamente o que na autoironia carrega o sentido inteiro. A frase sobre como você estragou tudo de novo soa leve ao vivo e, em uma linha de texto, como reclamação ou caça a consolo. A versão escrita ainda por cima permanece: uma piada solta no café se dissolve em um minuto, a mesma no canal de trabalho dá para recuperar rolando a tela meses depois.

Além da situação, conta a dose. Uma piada à própria custa por noite as pessoas guardam como calma, a quinta como assunto. Não existe tabela para isso, a fronteira se ouve quando quem está em volta para de rir e começa a acalmar.

A mudança mais útil, porém, é de linguagem e leva um segundo. Troque um traço permanente por uma situação pontual. Dizer que você é uma pessoa caótica é uma afirmação sobre o seu caráter, e os outros a tomam como informação. Dizer que hoje de manhã a agenda passou a perna em você descreve uma manhã específica. A risada costuma ser a mesma, o resto não. Aliás, estilo de humor é hábito, não sentença sobre o caráter, e hábitos se reescrevem frase por frase.

A semana em que você faz a conta

Tente uma coisa só durante sete dias. Toda vez que fizer uma piada à sua custa, anote no celular três dados: onde você estava, quem estava com você e se depois ficou mais leve. Não pense em mais nada, não se proíba de nada.

Depois de uma semana, dessas poucas linhas costuma sair um padrão que de dentro se enxerga mal. Na maioria das pessoas as piadas sobre si mesmas se acumulam perto de gente específica e em salas específicas, e não espalhadas de forma uniforme pela vida inteira. O Rafael do começo tem duas salas assim, e numa delas ele tem ainda dois colegas que lembram das histórias dele melhor do que ele mesmo.

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