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Relacionamentos e comunicação

Brigas no relacionamento: o que realmente pesa

Casais que duram não brigam menos. O que muda é o jeito: quatro padrões que desgastam, a proporção cinco para um e as tentativas de reparo.

Casais que duram não brigam menos do que os casais que se separam. Não é frase de consolo: é um achado repetido na pesquisa de John Gottman e Robert Levenson, que desde os anos setenta e oitenta observaram centenas de casais discutindo de verdade num laboratório em forma de apartamento apelidado de “Love Lab”. Satisfeitos e insatisfeitos se diferenciavam pelo jeito de se tratar durante a discussão, não pela frequência dela.

Isso muda a pergunta que vale a pena fazer. “A gente briga demais?” não leva a lugar nenhum, porque não existe número certo. Mais útil é reconhecer quais padrões corroem o relacionamento durante a briga e quais seguram a dupla de pé mesmo numa troca áspera.

Brigas no relacionamento não são defeito, são funcionamento

Duas pessoas que dividem espaço, dinheiro, tempo e decisões sobre os filhos vão discordar em algum ponto. Conflito é o preço corriqueiro da proximidade. Um relacionamento em que ninguém levanta a voz há anos costuma ser menos um relacionamento com tudo resolvido e mais um em que alguém perdeu a coragem de falar.

Gottman e Levenson mediam, além do comportamento, as reações do corpo: batimentos, respiração e condutância da pele. Ficou claro que os primeiros minutos de uma discussão dizem muito sobre o rumo do casal. O volume de brigas não explicava a diferença entre casais estáveis e casais em rota de separação. O jeito como a briga corria, sim.

Daí sai uma conclusão desconfortável para quem sonha com um relacionamento “sem brigas”. O objetivo é inalcançável e, como efeito colateral, produz silêncio acumulado: os assuntos não se resolvem, só vão para uma prateleira de onde um dia caem todos de uma vez. A meta realista é outra: brigar de um jeito que ainda permita conversar normalmente à noite.

Temas eternos: dois terços dos desacordos nunca se resolvem

Gottman aponta que cerca de 69% dos desacordos de casal entram na categoria dos problemas perpétuos. São conflitos que nascem de diferenças de personalidade, de ritmo, de valores ou daquilo que cada um chama de organização. Não somem depois de uma boa conversa nem de um acordo, porque não nasceram de mal-entendido. Nasceram do fato de vocês serem duas pessoas diferentes.

Thiago e Juliana brigam por causa do sábado. Depois de uma semana de trabalho, Thiago imagina folga como agenda vazia e tarde sem plano. Juliana organiza um passeio, uma visita ou pelo menos um cinema, porque dia livre sem programa parece a ela dia jogado fora. Em oito anos juntos, inventaram uns trinta acordos, e nenhum resolveu a questão de forma definitiva.

Não resolveu porque não há o que resolver no sentido em que se resolve uma máquina de lavar quebrada. O sossego de Thiago e o estímulo de Juliana são traços estáveis. A pergunta não é quem está certo, e sim se os dois conseguem falar dessa diferença com algum humor, sem a sensação de que o outro veio com defeito de fábrica.

A diferença entre um tema eterno tolerável e um tóxico está em ainda dar para conversar sobre ele. Quando a conversa sobre o sábado desanda sempre numa lista de mágoas antigas, cria-se em volta do assunto uma zona congelada que os dois contornam. Quando ainda cabe uma ironia com a própria cara, o tema continua chato, mas para de machucar.

Com dinheiro funciona parecido. A briga sobre quanto é razoável gastar na viagem quase nunca é sobre número: é sobre duas relações diferentes com segurança e com prazer. Por isso as brigas por dinheiro voltam em ciclos e deixam tanto ressentimento: os dois sentem que brigam por algo maior do que o valor, e os dois têm razão.

Separar um tema resolvível de um eterno compensa logo no começo. No resolvível, você procura um acordo. No eterno, um jeito de conviver com a diferença sem que ela vire guerra fria todo mês. Qual foi a última vez que você brigou por algo que sabe que volta à mesa daqui a um ano?

Quatro padrões que desgastam o relacionamento

A parte mais conhecida do trabalho de Gottman descreve quatro jeitos de se comunicar que apareciam com frequência chamativa nos casais instáveis. No original, ele os chama de quatro cavaleiros. São padrões de comportamento, não tipos de gente, e a diferença importa: dá para perceber um padrão e trocá-lo por outro.

O primeiro é a crítica à pessoa no lugar do comportamento. A frase “você esqueceu de descer o lixo de novo” fala de um ato. A frase “você é irresponsável, não dá para contar com você” fala de caráter. A segunda ataca a identidade e liga a defesa antes de a conversa chegar naquilo que estava em jogo.

O segundo padrão é o desprezo e, dos quatro observados, é o sinal de alerta mais forte. Entram aí a zombaria, o sarcasmo, a repetição irônica das palavras do outro, revirar os olhos, o comentário na frente de terceiros. O desprezo comunica que a outra pessoa está abaixo do seu nível. A crítica diz “você fez uma coisa ruim”; o desprezo diz “você é uma pessoa pior”.

O terceiro é a postura defensiva. Aparece como contra-ataque (“e você? quando foi a última vez que arrumou alguma coisa?”), como desculpa ou como papel de vítima. Tem cara de autodefesa, mas funciona como recusa de qualquer parcela de responsabilidade, então a briga dobra de tamanho na hora.

O quarto padrão é o fechamento e o silêncio. Uma das partes para de responder, olha para o celular, sai da sala ou responde por monossílabos. De fora parece calma; por dentro costuma ser o contrário: corpo sobrecarregado, batimentos lá em cima e o cérebro cuidando apenas para que nada pior aconteça. Quando isso se estende por dias, vira tratamento de silêncio, castigo fantasiado de paz.

Quase ninguém roda em um padrão só. O mais comum é o casal travar em dupla: um critica, o outro se fecha, o que faz o primeiro apertar e o segundo sumir ainda mais. Fica traiçoeiro quando a insatisfação não aparece de frente, e sim em respostas atravessadas, “esquecimentos” e frieza repentina. Sobre isso existe um texto à parte, sobre comportamento passivo-agressivo.

Padrão Como soa O que fazer no lugar
Crítica à pessoa “Você é um desastre, não dá para contar com você.” “Me incomoda o lixo ter ficado cheio. Preciso que você desça na sexta.”
Desprezo “Claro, o senhor gênio sabe tudo de novo.” (revirando os olhos) Nomear a própria necessidade sem plateia e sem ironia, ou adiar a discussão para uma hora em que o outro não pareça ridículo a você
Postura defensiva “E você? Semana passada você também não fez nada.” “Em parte você tem razão, essa eu fiz mal feito. Mas a outra coisa me incomoda e quero terminar de falar.”
Fechamento e silêncio Silêncio, olhar para o celular, sair da sala sem dizer nada “Estou no meu limite, preciso de vinte minutos. Às oito a gente volta nisso.”

A proporção que decide o rumo da briga

Ao analisar as gravações, Gottman e Levenson contavam as interações uma a uma, separando positivas de negativas. Nos casais estáveis, durante o conflito, saía uma proporção de cerca de cinco interações positivas para uma negativa. Nos casais que depois se separaram, a proporção chegava perto do empate ou caía abaixo.

E interação positiva ali não é nada grandioso. Um aceno de cabeça, perguntar como o outro quis dizer aquilo, concordar com uma parte pequena do argumento, uma mão no ombro, uma risada do absurdo da cena. Miudezas que no meio da briga você quase não registra, mas que sinalizam ao corpo do outro que aquilo não é luta pela sobrevivência.

A reserva de boa vontade, aliás, não se forma dentro da briga. Forma-se entre uma briga e outra, em momentos banais em que um escuta o outro no café da manhã. Um casal com essa conta cheia aguenta uma troca bem mais dura do que um casal que no último mês conversou sobre logística e senha do banco.

Cinco para um não dá para contar ao vivo, e não é essa a utilidade dele. O número serve como régua para olhar para trás. Tente lembrar da última briga grande e conte os momentos em que um de vocês deixou claro que continua levando o outro a sério.

Tentativas de reparo: frases que seguram a queda

Quando a briga ganha velocidade, a maioria das pessoas tenta frear por instinto. Gottman chama esses gestos de tentativas de reparo, e nas gravações eles aparecem o tempo todo: uma piada no meio da irritação, “espera, vamos começar de novo, falei isso de um jeito ruim”, uma mão no braço, um café oferecido, um pedido de calma.

O essencial é que quem decide o efeito não é quem faz a tentativa. É quem recebe. Casais satisfeitos aceitam as tentativas um do outro mesmo desajeitadas, ou quando chegam com um dos dois ainda furioso. Casais insatisfeitos passam por cima ou recusam, porque naquele segundo aquilo soa como truque para encerrar a briga antes da hora.

No meio de um daqueles tiroteios de sábado, Juliana falou: “olha, a gente está brigando por um passeio que nenhum dos dois está a fim de fazer”. Thiago poderia ter se ofendido com a redução do assunto. Ele riu. A discussão não acabou; aconteceu só uma coisa menor e mais útil: os dois pararam de subir o tom.

Vale combinar um sinal de vocês com antecedência, fora da briga. Uma frase, um gesto ou uma palavra acertada entre os dois que signifique “não quero ganhar, quero parar”. Combinação feita na calma funciona melhor do que improviso no calor da hora, quando nenhuma formulação pacífica passa pela cabeça.

Como parar de brigar sempre pelos mesmos motivos

O conselho “não briguem” não serve para nada. O que dá para mudar é o começo, o tamanho e a hora da briga. Pelas observações de Gottman, o rumo de uma discussão fica em boa parte definido nos primeiros minutos, então o maior retorno está em trabalhar ali.

Começo suave significa abrir o assunto como reclamação sobre a situação, não como acusação contra a pessoa. A diferença entre “você nunca tem tempo para mim” e “sinto falta de a gente ter uma noite junto” parece cosmética, só que a primeira exige defesa e a segunda convida a uma resposta. Não é boa educação, é qual reação você força no outro.

A segunda regra: uma coisa de cada vez. No momento em que à louça suja se somam a viagem do ano passado, o comportamento da sua mãe e uma promessa não cumprida em março, a briga deixa de ser resolvível por princípio. Discussão sobrecarregada nunca termina em acordo, porque não há sobre o que fechar acordo.

A terceira regra é sobre o corpo. Quando os batimentos passam de uns cem por minuto, a capacidade de escutar e de formular frases sensatas despenca. Esse estado se chama inundação emocional, e só uma pausa funciona dentro dele. Não sair sem explicação, e sim um combinado explícito: preciso de vinte minutos, às oito a gente volta nisso. Na pausa, ajuda fazer qualquer coisa que não seja remontar a briga na cabeça.

A quarta coisa é entender como você se comporta no conflito. Tem quem pressione por decisão rápida, quem ceda para ter sossego, quem suma de cena e quem busque acordo a qualquer custo. Essas tendências aparecem no chamado modelo de dupla preocupação (dual-concern), de Blake e Mouton: conforme o interesse pelo próprio objetivo e pela relação com o outro, surgem cinco estilos típicos. O panorama está no artigo sobre estilos de resolução de conflitos.

Conhecer o próprio estilo ajuda principalmente em uma coisa: você para de traduzir o comportamento do outro como má intenção. Para montar esse retrato de forma estruturada serve o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e o resultado traz um estilo primário e um secundário, além da sua posição num mapa de assertividade e cooperação. Encare como ferramenta de autoconhecimento, não como veredicto sobre o relacionamento.

Quando brigar no relacionamento deixa de ser só briga

Existe uma linha a partir da qual não se trata mais de estilo de comunicação. Se você sente medo antes de uma discussão, se escolhe as palavras para não provocar explosão, ou se a outra pessoa repete que você não presta e não vale nada, não estamos falando de técnica ruim de briga.

Alguns sinais que merecem atenção:

  • o desprezo virou o tom normal, não a exceção de um momento tenso
  • depois da briga vêm dias de silêncio como punição
  • você tem medo de abrir um assunto porque já sabe como termina
  • a outra pessoa decide sobre o seu dinheiro, os seus contatos ou o seu tempo sem você
  • a humilhação acontece também na frente das crianças ou dos amigos
  • depois de cada briga quem pede desculpa é você, não importa o que aconteceu

Quando você reconhece vários pontos ao mesmo tempo e de forma prolongada, nenhum artigo de internet resolve isso, e nada substitui uma conversa com um terapeuta de casal ou um psicólogo. Ajuda profissional não é coisa só para a hora da crise; costuma ser mais eficaz na fase em que ainda existe conversa entre vocês.

Brigar bastante com quem você ama não é, por si só, má notícia. Má notícia é quando some dali a curiosidade. Enquanto você ainda quiser saber por que o outro enxerga aquilo de outro jeito, tem material para trabalhar, mesmo que o programa de sábado continue sem solução por mais oito anos.

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