Camila contou a Bruno, amigo de quinze anos, que estava esperando o resultado de uns exames e pediu que ele não comentasse com ninguém. Três semanas depois, uma colega de trabalho que joga futebol com Bruno perguntou a ela sobre o assunto. Dois anos depois daquela história, os dois não se falam, e Camila pensa nisso quase toda semana, enquanto Bruno se lembra uma vez por ano.
É aí que aparece a coisa menos intuitiva que sabemos sobre o tema. O perdão é antes de tudo um favor que você presta a si mesmo. A outra pessoa muitas vezes nem fica sabendo, e a vida dela não muda nada por causa disso.
Quatro mitos sobre o que significa perdoar
A maior parte da resistência ao perdão não mira o perdão em si, e sim uma caricatura dele. As pessoas ouvem a palavra, imaginam algo que ninguém em sã consciência exigiria de si, e recuam, com toda a lógica. Vale limpar primeiro quatro enganos comuns.
- Esquecer a mágoa não dá, e também não é o objetivo. A memória não tem botão de desligar.
- Perdoar não diz que era permitido. O que foi feito continua sendo o que foi, com todo o peso.
- A reconciliação precisa de duas pessoas. Ao perdão basta uma, a que foi ferida.
- Você não precisa reconstruir a relação. Às vezes é mais saudável que ela não se reconstrua.
A diferença entre perdão e reconciliação costuma ser a coisa mais útil que se leva do tema inteiro. Reconciliação é confiança refeita, e nesse processo entra também a outra pessoa com o comportamento dela. O perdão acontece dentro de você. Dá para perdoar alguém com quem você nunca mais vai falar, alguém que há muito tempo não sabe da sua existência e alguém que morreu no meio do caminho.
Na prática, isso significa que você não precisa escolher entre paz e limites. Camila pode perdoar Bruno e, ainda assim, nunca mais contar nada confidencial a ele. Não é contradição, é lição aprendida. O perdão muda a relação com o passado, os limites protegem o futuro, e um sem o outro em geral funciona mal.
O que o perdão é de fato
Uma definição aproveitável tem duas partes. O perdão é uma decisão que você toma em um momento específico e, ao mesmo tempo, um processo interno que depois se arrasta por semanas ou meses. Sem a decisão o processo nem começa, mas a decisão sozinha também não basta.
Ajuda a imagem de uma dívida. Alguém tirou algo de você: tempo, reputação, sensação de segurança, vontade de confiar nas pessoas. Você passa anos pagando juros do próprio bolso, porque a atenção que dedica àquela mágoa não vai para lugar nenhum além dali. Perdoar é dar essa dívida por perdida. Não porque ela fosse indevida, mas porque cobrar custa mais do que o valor original.
Dessa lógica sai também quem é o principal beneficiado. A raiva carregada por anos não pesa na outra pessoa. Pesa em você, porque roda com a sua energia, na sua cabeça e nas suas noites. Parar de pagar não inocenta ninguém, só devolve os recursos que você vinha colocando ali.
O que a pesquisa diz sobre o perdão
O psicólogo americano Everett Worthington estuda o perdão há décadas, e o trabalho dele ficou conhecido também por uma prova pessoal. Em 1996 a mãe dele foi assassinada durante um assalto à casa dela. Ele precisou então aplicar o próprio modelo a si mesmo, e mais tarde escreveu sobre isso contando que a primeira reação não foi nenhuma grandeza, e sim vontade de revidar.
A contribuição mais útil dele é separar duas coisas que normalmente se escondem sob uma única palavra. A decisão de perdoar é uma intenção: mudo o jeito como pretendo tratar essa pessoa e paro de planejar o troco. O perdão emocional é outra coisa. Significa que o rancor e a raiva vão sendo trocados aos poucos por outra emoção, de preferência a compaixão, muitas vezes simplesmente a calma.
O efeito prático dessa separação é grande. Decidir dá para fazer em uma tarde, mas emoção não recebe ordem. Por isso muita gente conclui que o perdão “não funciona” para ela, porque decidiu e no dia seguinte acordou com raiva do mesmo jeito. Nada de estranho aconteceu. Deram o primeiro passo e ficaram esperando o resultado do segundo.
As pesquisas sobre perdão apontam uma ligação com menos ruminação, ou seja, com menos daquele reprisar da mágoa na cabeça sem parar, e também com sono melhor e menos estresse percebido. Para que lado essa ligação corre é sempre uma pergunta cautelosa, e ninguém sério afirma que perdoar cure o corpo. Já chama atenção, de todo modo, que o perdão se comporte mais como alívio do que como sacrifício.
Como perdoar passo a passo
Worthington resumiu o procedimento dele em cinco passos sob a sigla REACH. Vamos descrevê-los com palavras nossas e sem tom terapêutico, porque é uma sequência bastante simples, que dá para percorrer sozinho com um caderno na frente.
- Recuperar a mágoa do jeito como ela aconteceu. Sem censura, sem diminuir com um “no fundo não foi nada”, mas também sem ligar a fantasia de vingança. A ideia é descrever o episódio com a maior precisão possível, incluindo o que você sentiu naquele momento.
- O segundo passo mira os motivos do outro. Não se trata de procurar desculpa para ele, e sim de reconhecer que as pessoas quase nunca agem por pura maldade. Costuma haver ali desatenção, medo próprio, bebida, burrice ou o fato de que elas lembram a situação inteira de um jeito completamente diferente do seu.
- Depois você oferece o perdão como presente, não como troca. Worthington sugere lembrar de alguma vez em que alguém perdoou você, e do alívio que veio junto. O presente tem a propriedade de não esperar nada de volta.
- Se comprometer com o que você fez. Escrever, contar para alguém próximo, colocar uma data. Sem isso, a decisão se dissolve na primeira lembrança ruim.
- E aí vem a parte mais longa: sustentar quando as emoções voltarem. Elas voltam, em geral às três da manhã. A raiva voltar não significa que o perdão esteja anulado, só que a memória está trabalhando. Nessa hora ajuda lembrar que você decidiu, mesmo que agora não esteja sentindo.
Camila provavelmente travaria no segundo passo. Os motivos de Bruno não eram maldosos, eram mais mesquinhos: ele estava de papo com a turma, queria ter o que contar e não lhe ocorreu que estava falando de algo que não era dele. Entender isso significa enxergar alguém que agiu como bobo em vez de alguém que quis machucá-la. O peso do que ele fez não muda, mas muda o formato da lembrança.
Em mágoas profundas, como maus-tratos, abuso prolongado ou trauma de infância, faz sentido atravessar esse processo com um terapeuta, porque ali se abrem coisas com as quais se trabalha mal sozinho.
Quando a outra pessoa não pediu desculpas
Um pedido de desculpas facilita muito o perdão. Tira dos seus ombros parte do trabalho, porque confirma que você não imaginou nada e que a mágoa era mágoa mesmo. A má notícia é que a maioria das pessoas nunca recebe esse pedido, nem depois de anos.
Por trás do silêncio costuma haver mais desconforto do que arrogância. Admitir a culpa significa se ver como alguém que machucou, e muita gente simplesmente não deixa essa imagem entrar na cabeça. Bruno quase com certeza lembra do episódio numa versão em que não havia segredo nenhum, só um comentário entre amigos que depois alguém passou adiante de forma desastrada.
A condição “vou perdoar quando ele pedir desculpas” soa justa e é uma armadilha. Você entrega a chave da sua própria paz para alguém que já mostrou uma vez que não dá para contar com ele. Às vezes, ainda por cima, não há quem possa dizer essas palavras, porque a pessoa está longe ou já morreu, e a espera se estica sem fim. A paz que depende da decisão alheia é exatamente tão incerta quanto essa decisão.
Vale conhecer também o outro lado dessa equação. A maioria de nós é ao mesmo tempo quem deve algo a alguém, e a diferença entre um pedido de desculpas que conserta alguma coisa e um que piora a situação não é por acaso; como é um pedido de desculpas que funciona de verdade nós destrinchamos à parte. Se é você quem está esperando um, talvez alguém esteja esperando um seu.
Perdoar a si mesmo costuma ser mais difícil
Consigo mesma, a maioria das pessoas usa uma régua mais dura do que com os outros. Você perdoa o amigo por não ter ido ao seu casamento e não se perdoa por não ter ligado para a avó a tempo, e carrega isso por dez anos. A falta própria ainda está sempre à mão, porque você é a única testemunha que nunca vai embora.
O curioso é que a dureza consigo mesmo tende a ser o motor da repetição, e não o seguro contra ela. Quem se corrói por muito tempo por causa de um adiamento ou de um erro gasta nisso a energia de que precisaria para consertar, e com mais chance vai adiar a mesma coisa da próxima vez. Perdoar a si mesmo não é moleza. É o jeito de voltar para o jogo.
O procedimento se diferencia do anterior em uma coisa: aqui falta o outro para quem presentear algo, então o trabalho se divide de outro jeito. Primeiro a admissão sem “mas”, depois o conserto do que dá para consertar, depois aceitar que o resto não tem conserto. E por fim a decisão de parar de cobrar isso de si, que você vai ter que renovar mais de uma vez.
A raiva é uma fase, não um fracasso
A frase “você tem que perdoar” faz um estrago surpreendente. Vem em geral de quem já ouviu a história pela quinta vez e empurra a pessoa a declarar algo que não sente. O perdão precoce depois parece perdão, mas funciona como repressão. Volta, quase sempre na hora errada e em forma pior.
A raiva, enquanto isso, carrega informação. Diz por onde passa o seu limite, o que tinha valor para você e o que não pode se repetir. Enquanto você não ler isso, há pouco a perdoar, porque ainda não sabe com precisão o que perdeu. Só depois que a informação foi extraída é que a raiva vira puro custo.
A pergunta certa, então, é sobre o momento, não sobre a obrigação. Quanto tempo do último mês foi embora reprisando uma mágoa específica, e a que esse tempo poderia ter servido em vez disso? A resposta costuma sugerir mais do que qualquer conselho vindo de fora.
Como lidamos com a mágoa e o que o conflito tem a ver com isso
O jeito como as pessoas perdoam copia com bastante fidelidade o comportamento delas nos conflitos. Tem quem vá para o embate aberto e só perdoe depois do pedido de desculpas dito em voz alta. Outro se recolhe, não levanta a mágoa em voz alta e a carrega em silêncio por anos. Um terceiro perdoa rápido demais, porque não suporta a tensão no ar, e depois se espanta de a coisa voltar.
Dá para descrever isso com o chamado modelo de dupla preocupação, que veio com Blake e Mouton. Ele acompanha duas coisas independentes: o quanto você empurra o próprio interesse e o quanto leva em conta o interesse do outro. Da combinação das duas nascem cinco estilos de resolução de conflitos típicos, da competição à acomodação. Nenhum deles é certo por si só, porque cada um tem situações em que funciona e situações em que faz estrago.
O padrão da gente, aliás, se enxerga melhor de fora do que de dentro. É para isso que serve o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e o resultado traz um estilo primário e um secundário, além da sua posição no mapa de assertividade e cooperação. Encare como ferramenta de autoconhecimento, não como diagnóstico.
Se o perdão pegou em você, dá para notar quase sempre num detalhe. Alguém fala aquele nome no almoço, você trava por um instante e depois segue conversando tranquilo, porque já não precisa contar a história inteira desde o começo. A lembrança ficou, só parou de cobrar pedágio.

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