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Trabalho e produtividade

Deep work - como se concentrar na era da distração constante

Cal Newport, quatro estratégias de trabalho profundo e por que o multitasking falha. Como a personalidade afeta a sua capacidade de concentração.

Sophie Leroy, pesquisadora da Universidade de Minnesota, conduziu em 2009 um experimento que explica por que você sente que não produziu nada, mesmo tendo trabalhado o dia inteiro. Ela deu a tarefa A aos participantes, interrompeu o trabalho no meio e passou todos para a tarefa B. O resultado? Mesmo quando as pessoas mudavam totalmente para a nova tarefa, uma parte da atenção continuava presa à anterior. Leroy chama isso de resíduo de atenção. Quanto mais você pula de tarefa em tarefa ao longo do dia, mais resíduo se acumula. No fim do dia, você está trabalhando com um cérebro repartido entre dezenas de ciclos inacabados.

Esse não é um problema de gente preguiçosa. É um problema de ambientes que nos obrigam a responder em tempo real a e-mails, mensagens no Slack, notificações e “perguntas rápidas” de colegas. Cal Newport, professor de ciência da computação na Universidade Georgetown, deu nome à solução em um livro de 2016: deep work, o trabalho profundo.

O que é deep work e por que isso importa

Newport define deep work como a atividade profissional realizada em estado de concentração plena, que leva as suas capacidades cognitivas ao limite. Pense em escrever código, analisar dados, planejar estratégias, escrever de forma criativa. Trabalho difícil de replicar e que cria valor real.

O oposto é o shallow work, o trabalho superficial. E-mails, tarefas administrativas, reuniões de rotina, preencher planilhas. Coisas que precisam ser feitas, mas que qualquer pessoa poderia assumir depois de uma breve orientação. Newport argumenta que a maioria das pessoas passa mais de 60% do dia de trabalho em trabalho superficial, deixando apenas fragmentos entre reuniões para aquilo que de fato importa.

Por que isso é um problema? Porque a capacidade de fazer deep work está ficando cada vez mais rara em um mundo cheio de distrações e, ao mesmo tempo, cada vez mais valiosa em uma economia que recompensa conhecimento especializado e resolução criativa de problemas. Se você consegue mergulhar regularmente em duas ou três horas diárias de trabalho profundo, tem uma vantagem enorme sobre quem passa o dia inteiro reagindo a estímulos.

Por que o multitasking não funciona

Voltemos ao resíduo de atenção. Leroy constatou que o resíduo é mais forte quando a tarefa anterior não foi concluída e você não tem um plano de quando vai retomá-la. Em outras palavras: quando um colega interrompe você no meio de uma análise e você não faz ideia de quando vai voltar a ela, uma parte do seu cérebro continua naquela análise, queira você ou não.

Aqui vem a parte contraintuitiva. O multitasking dá a sensação de produtividade. Você tem a impressão de estar dando conta de mais coisas ao mesmo tempo. Mas a pesquisa mostra o contrário de forma consistente. Um estudo de Stanford conduzido por Ophir, Nass e Wagner (2009) comparou pessoas habituadas ao multitasking com pessoas que se concentram em uma coisa de cada vez. Quem fazia multitasking era pior em filtrar informação irrelevante, mais lento para alternar entre tarefas e tinha memória de trabalho mais fraca. Essas pessoas eram piores justamente naquilo em que acreditavam se destacar.

O seu cérebro simplesmente não consegue processar duas tarefas cognitivas exigentes ao mesmo tempo. O que chamamos de multitasking é, na verdade, alternância rápida. E cada troca custa tempo, energia e uma fatia de capacidade mental que você nunca recupera.

Quatro estratégias de deep work

No livro dele, Newport descreve quatro formas de incorporar o deep work à vida. Nenhuma é a melhor universalmente. Depende do seu trabalho, da sua personalidade e das suas circunstâncias.

A estratégia monástica

Eliminação radical do trabalho superficial. Donald Knuth, o lendário cientista da computação de Stanford, não usa e-mail. Simplesmente não usa. Knuth explica no site dele que o e-mail é uma ótima ferramenta para quem tem um trabalho que exige contato com o mundo. O trabalho dele exige exatamente o oposto. Essa abordagem só é realista para quem tem todo o seu valor concentrado no trabalho profundo e pode se dar ao luxo de ignorar quase tudo o mais. A maioria de nós não pode.

A estratégia bimodal

Alternar períodos de imersão total com períodos de operação normal. Carl Jung construiu uma torre em Bollingen, na Suíça, para onde se recolhia regularmente por vários dias para escrever e pensar. No resto do tempo, funcionava normalmente: atendia pacientes, dava aulas, respondia à correspondência. Esse modo exige a capacidade de sumir por um dia ou mais, o que é viável para quem está na academia ou empreende, mas difícil para quem ocupa cargos corporativos.

A estratégia rítmica

Um bloco diário regular de trabalho profundo, sempre no mesmo horário. Das 6:00 às 8:30 toda manhã, você escreve, programa ou analisa. Depois passa para o modo normal. Para a maioria das pessoas, essa é a abordagem mais prática, porque não exige condições especiais. Basta uma agenda e disciplina. O ponto central é que o bloco de deep work não pode ser negociável. No momento em que você o sacrifica por uma reunião, o sistema inteiro começa a desmoronar.

A estratégia jornalística

Entrar em deep work sempre que surge uma oportunidade: uma hora livre entre reuniões, um almoço cancelado, uma manhã tranquila no escritório. Newport batizou a estratégia em homenagem aos jornalistas, que precisam escrever no meio do caos da redação. Mas ele alerta: esse método só funciona para quem já treinou a capacidade de mergulhar fundo rapidamente. Se você está começando agora no deep work, precisa de ritual e regularidade, não de flexibilidade.

Como a personalidade afeta a sua concentração

Nem todo mundo entra em deep work com a mesma facilidade. E as razões não têm a ver só com hábitos. Elas se conectam também com o seu tipo de personalidade.

Comece pelo fator mais visível: introversão e extroversão. As pessoas introvertidas têm vantagem natural em ambientes que pedem silêncio e solidão. Hans Eysenck mostrou já nos anos 1960 que a introversão vem acompanhada de um nível basal mais alto de ativação cortical, o que significa que a pessoa introvertida precisa de menos estimulação externa para se sentir “ligada”. Longos períodos de trabalho silencioso não são tortura para essas pessoas; são um estado natural. Para quem é extrovertido, é mais difícil. Essas pessoas precisam de estimulação e, quando ela falta, vão atrás dela: pegam o celular, mandam mensagem para um colega, buscam um café. Isso não quer dizer que quem é extrovertido não consiga fazer deep work. Mas as condições precisam ser outras: talvez trabalhar em uma cafeteria em vez de um escritório silencioso, ou fazer pequenas pausas sociais entre os blocos de concentração.

A diferença no eixo Sensação e Intuição também é interessante. Os tipos de Sensação preferem tarefas concretas e estruturadas, com etapas claras. O trabalho profundo vem com facilidade quando sabem exatamente o que fazer: ajustar um orçamento, revisar código, escrever um relatório a partir de um modelo. Já os tipos de Intuição precisam de espaço para o pensamento abstrato e para conectar pontos aparentemente sem relação. O deep work deles tem outra cara: brainstorming, planejamento estratégico, escrita. Mas os tipos de Intuição também têm uma tendência maior a se desviar da tarefa em direção à próxima ideia interessante, então costumam precisar de uma estrutura externa mais firme.

Se você não tem certeza de onde se encaixa nessas dimensões, um teste de estilo de trabalho pode ajudar. Ele mostra que tipo de ambiente e de condições fazem você produzir o seu melhor trabalho.

Como desenvolver a sua capacidade de deep work

Deep work é uma habilidade, não um talento inato. E, como qualquer habilidade, pode ser treinada. Newport compara a capacidade de se concentrar a um músculo: se você não a usa, ela enfraquece. Se a treina com regularidade, ela fica mais forte.

Aqui está o problema. A maioria das pessoas enfraquece ativamente o próprio “músculo da concentração”. Cada momento de tédio preenchido pegando o celular, cada conferida reflexa nas redes sociais, cada olhada na caixa de entrada “só por garantia” ensina ao seu cérebro que é aceitável redirecionar a atenção sempre que o impulso aparecer. E aí você se pergunta por que não consegue ficar 90 minutos com uma única tarefa.

O treino começa pequeno. Amanhã, experimente se dar 45 minutos de trabalho ininterrupto em uma única tarefa. Celular no modo avião. E-mail fechado. Slack desligado. Se depois de 20 minutos vier a vontade de conferir notificações, perceba o impulso e volte para o trabalho. Na semana seguinte, acrescente 15 minutos. Em um mês, você vai conseguir trabalhar 90 minutos seguidos e vai se surpreender com o quanto realiza nesse tempo.

Detox digital no trabalho: o que realmente ajuda

O conceito de detox digital costuma ser apresentado como um fim de semana sem celular em uma cabana no meio do mato. Isso é ótimo, mas trata apenas o sintoma. O problema de verdade são as oito horas de trabalho em que tudo, do Slack ao colega que passa “só um segundo”, despedaça a sua atenção.

Algumas abordagens que se sustentam na prática:

  • Processe a comunicação em lotes. Em vez de monitorar e-mail e chat continuamente, defina duas ou três janelas por dia para processar as mensagens de uma vez. Digamos 9:00, 13:00 e 16:30. No resto do dia, os seus canais de comunicação ficam fechados. Tim Ferriss popularizou esse método em Trabalhe 4 Horas por Semana, e muita gente descobriu que o mundo não desaba quando você não responde em cinco minutos.
  • Sinalize a sua indisponibilidade. Coloque fones de ouvido (mesmo sem música), configure um status de “deep work” no Slack ou combine um sinal visual com a sua equipe. Um estudo de Perlow e Porter publicado na Harvard Business Review (2009) constatou que equipes que introduziram “horas de silêncio” regulares ganharam tanto em produtividade quanto em satisfação.
  • Separe as suas ferramentas. Se puder, use um navegador ou um perfil de navegador diferente para o trabalho profundo e para a comunicação. O seu cérebro associa ambientes a tipos de atividade. Quando você abre um navegador em que a primeira aba é o Gmail e a segunda é o Slack, escorrega naturalmente para a comunicação.
  • A regra dos dois minutos ao contrário. Se surgir na sua cabeça algo que precisa ser feito e que levaria menos de dois minutos, não faça na hora. Anote e volte para o seu trabalho profundo. Esses dois minutos custam muito mais quando você soma o tempo de trocar de contexto e de reencontrar o fio da meada.
  • Tédio programado. Esta é uma recomendação de Newport que soa estranha, mas funciona. De vez em quando, fique na fila, espere o ônibus ou sente em uma sala de espera sem o celular. Deixe o tédio existir. O seu cérebro precisa se acostumar com a ideia de que nem toda pausa precisa ser preenchida com estímulo. Caso contrário, você nunca vai construir a capacidade de permanecer em uma tarefa quando ela fica momentaneamente chata.

Quando o deep work não é a resposta

Seria fácil transformar o deep work em mais um culto da produtividade. Mas o próprio Newport admite que algumas profissões extraem o seu valor central justamente do trabalho superficial. Um gestor cuja contribuição principal é coordenar uma equipe e responder rápido a problemas não pode sumir três horas em uma sala silenciosa. Quem trabalha com vendas precisa estar disponível para os clientes. Uma pessoa que atua como secretária executiva não pode fechar a caixa de entrada.

Também é verdade que nem todo trabalho valioso exige concentração profunda. Às vezes um brainstorming em grupo produz mais do que três horas de reflexão solitária. Às vezes um telefonema rápido resolve um problema que, de outro modo, você passaria o dia inteiro analisando.

O objetivo do deep work não é eliminar toda comunicação e colaboração. Ele é uma ferramenta para proteger a coisa mais valiosa que você tem: a sua capacidade de pensar. Mesmo uma hora por dia de trabalho realmente concentrado pode render mais do que um dia inteiro pulando de tarefa em tarefa de forma reativa. E essa é uma meta ao alcance de quase todo mundo.

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