Ricardo é o último a sair do escritório. Não porque tenha mais trabalho que os outros. O material da reunião de amanhã está pronto desde as três da tarde e desde então ele o relê pela quarta vez. Quando tranca a porta às dez para as dez, não leva para casa a sensação de trabalho feito. Leva a pergunta se foi suficiente.
No time o consideram o que puxa o carro, e na avaliação deste ano o chefe o apontou aos demais como exemplo. Dessa conversa Ricardo lembra de uma frase só: a que dizia o que da próxima vez daria para resolver mais rápido.
Esta não é uma história sobre ser trabalhador. É a descrição de um mecanismo em que as horas a mais não são ambição, e sim um seguro. E seguro se paga de novo todo mês.
Preparação em excesso como seguro contra ser descoberto
A síndrome do impostor é a sensação de não pertencer ao lugar onde a pessoa está e de que cedo ou tarde isso vai aparecer. As psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes a descreveram em 1978, e desde então ficou claro que vai trabalhar com ela um monte de gente com resultados comprováveis. Não é doença nem transtorno e não figura nas classificações de transtornos mentais. É um jeito aprendido de explicar a si mesmo o próprio sucesso.
As dúvidas, ainda por cima, não vêm de um lugar só. Dividem-se em três fontes: a sensação de fraude (meu lugar pertence a alguém mais capaz), a desvalorização do sucesso (o que deu certo não conta) e o acaso e as circunstâncias (deu certo por sorte). As três são desmontadas em detalhe no texto sobre o que é a síndrome do impostor e de onde vêm as dúvidas. Para o caminho até a exaustão importa sobretudo o que cada uma faz com a quantidade de trabalho.
Fazem a mesma coisa. Quando você não tem certeza de que dá conta, oferece-se uma defesa confiável: se preparar tão a fundo que não sobre nada a apontar. Ler mais material do que vai aparecer. Passar pela apresentação mais uma vez. Ficar até a noite. Funciona muito bem, e é justamente aí que está o problema.
O resultado sai bom, só que o mérito não vai para você. Vai para a preparação. Sem aquelas três horas a mais, teria aparecido. O alívio dura por isso até o fim do dia, e a próxima tarefa encontra a dúvida completamente intacta. Clance descreveu esse carrossel como o ciclo do impostor, e ele é desmontado com mais calma no texto sobre como se ligam síndrome do impostor e perfeccionismo.
O menos intuitivo é o seguinte: o sucesso não enfraquece o padrão, alimenta. Cada tarefa bem resolvida é ao mesmo tempo a prova de que sem o excesso de trabalho não teria saído, e a régua sobe mais um pouco na vez seguinte. Quem funciona assim há cinco anos não tem atrás de si cinco anos de confiança acumulada, e sim cinco anos de dose aumentada.
O que a pesquisa sabe sobre a ligação com o burnout
Que esse jeito de trabalhar custa energia dá para ver a olho nu. Mais interessante é que também aparece nos dados. Villwock e colegas levantaram em 2016, entre estudantes de medicina dos Estados Unidos, o quanto se enxergavam como impostores, e mediram ao mesmo tempo o nível de burnout. Os estudantes com dúvidas mais fortes sobre a própria competência saíam pior também nas escalas de exaustão e cinismo.
Não era um estudo grande e os próprios autores o chamaram de piloto, então dele não decorre lei nenhuma sobre a psique. Ele se encaixa, porém, num quadro mais amplo: as pesquisas ligam repetidamente dúvidas mais fortes sobre a própria competência a mais exaustão e a menos satisfação no trabalho, em áreas que vão da saúde à universidade.
A palavra “ligam” carrega numa frase dessas o peso inteiro. Ninguém mediu se duvidar de si leva à exaustão ou se uma pessoa exausta simplesmente começa a duvidar das próprias capacidades. Pode valer as duas ao mesmo tempo, porque uma alimenta a outra: quanto menos energia, pior o desempenho, mais forte a sensação de não estar dando conta, mais horas por cima.
Vale olhar também para aquilo com que o burnout costuma ser descrito. Christina Maslach distingue nele a exaustão, o cinismo e a sensação de que o seu trabalho não leva a lugar nenhum. Esse terceiro ponto é traiçoeiro em quem duvida de si, porque não o toma por sinal. Toma por uma descrição finalmente exata da realidade.
Por que uma noite livre parece um risco
Camila tirou depois da promoção uma semana de férias que esperava havia meio ano. Nos dois primeiros dias abriu o e-mail do trabalho três vezes, depois disse basta e largou o celular. O resto da semana passou pensando no que estaria desmoronando na ausência dela. Descansada, voltou mais ou menos um quinto.
Para quem atribui o sucesso à preparação, o descanso não é uma pausa inocente. É o tempo em que o seguro está desligado. Se nesse tempo alguma coisa der errado, confirma-se exatamente o receio por causa do qual se trabalha à noite. E se não der errado nada, você não fica sabendo de nada, porque uma semana sem catástrofe sempre se explica dizendo que não apareceu nada difícil.
A isso se soma uma questão de identidade bem corriqueira. Se o seu valor se apoia em quanto você dá conta de fazer, uma noite livre deixa de você só aquela pessoa em quem não confia. Desviar dela não é uma ideia estranha.
Quando foi a última noite livre em que não passou nem uma vez pela sua cabeça o que você poderia estar terminando? A resposta a essa pergunta diz mais sobre a sua situação do que o número de horas trabalhadas.
Onde a dedicação se quebra
Muitas horas por si só não significam nada. Tem gente que entrega quantidades enormes de trabalho durante anos sem se queimar, porque esse trabalho devolve alguma coisa. A diferença não está no volume, e sim no que acontece com o resultado depois.
| Em que reparar | Dedicação que se sustenta | Preparação como seguro |
|---|---|---|
| O que dispara o trabalho | A tarefa e o interesse pelo assunto. | Uma tensão que só outra rodada de conferência acalma. |
| Como você reconhece o fim | Pelo resultado: está pronto. | Por uma sensação que, no entanto, não chega. |
| O que sobra depois de entregar | Uma satisfação que dura um tempo. | Um alívio curto e logo atrás a próxima tarefa. |
| Como o elogio age | Confirma o que você fez. | Aumenta a exigência, porque agora aquilo precisa ser defendido. |
| O que faz um fim de semana livre | Devolve a energia para segunda. | Fabrica a sensação de atraso. |
Na coluna da direita dá para ver por que o cansaço se acumula mais rápido do que dizem as horas. O trabalho depois do qual não sobra nada contabilizado não se desconta de conta nenhuma. Começa-se sempre do zero.
Os sinais em que vale a pena reparar costumam ser discretos, e a pessoa os vê num colega antes de ver em si mesma:
- horas extras depois das quais o trabalho não andou mais do que se tivesse saído às cinco
- a uma oferta de ajuda você responde que explicar demoraria mais
- folga que você só tira quando uma doença obriga
- em coisas que antes te davam prazer, você se pega na ironia ou na indiferença
- uma reunião preparada durante uma semana não deixa nada em você quando termina
Aqui é honesto dizer até onde vai este texto. O burnout é um fenômeno de trabalho com sinais próprios e não se reconhece por um artigo nem por um teste na internet; o que a pesquisa sabe dele e como é o seu curso está descrito no texto à parte sobre burnout no trabalho. As dúvidas sobre a própria competência são apenas um dos caminhos que levam até lá, e certamente não o único.
Onde interromper esse círculo
A boa notícia é que o mecanismo tem vários pontos em que dá para desacoplar, e nenhum exige que você ganhe confiança de um dia para o outro.
O primeiro é um teto para a preparação. Decida de antemão quanto tempo dá para a tarefa e, quando ele acabar, encerre independentemente do que sentir. A preparação além do teto em geral não aumenta a qualidade, só acalma a insegurança por um instante e com isso ensina a ela a voltar na próxima. É desagradável umas duas vezes.
O segundo ponto é o momento da entrega. Ao lado de cada coisa terminada anote três passos que levaram até ela e quanto tempo custaram. O resultado pronto parece simples também para você, porque o caminho até ele não aparece de fora, e sem esse caminho o sucesso se reescreve com facilidade como trabalho comum, pelo qual ninguém elogia.
Depois vem o limite que você define uma vez e não renegocia todo dia. Depois das nove da noite não leio e-mail. Domingo fica livre. Soa banal, só que justamente em quem duvida de si essa coisa tem outra função que nos demais: cada noite em que nada desaba é uma anotação na coluna das provas.
O passo mais subestimado é dizer aquilo em voz alta. Clance e Imes trabalhavam com as pessoas em grupos exatamente porque a sensação de incapacidade excepcional se dissolve no momento em que alguém descobre que o colega que tem por mais seguro de todos conhece a mesma coisa. As maneiras concretas de agir conforme cada fonte de dúvida estão no texto sobre como superar a síndrome do impostor.
Qual desses quatro passos combina com você depende de onde saem as suas dúvidas. Na sensação de fraude funcionam mais o teto e a conversa; na desvalorização do sucesso, anotar o caminho; no acaso e nas circunstâncias, destrinchar o resultado em decisões concretas. Uma imagem aproximada dá um breve teste da síndrome do impostor, que mostra o nível geral de dúvida e qual das três fontes pesa mais em você. Tome como ponto de partida, não como veredicto.
Resta uma área que você não conserta sozinho. A preparação em excesso é em parte uma resposta a um ambiente em que só a entrega impecável é elogiada e o retorno chega em forma de ressalvas. O que dá para fazer com isso numa reunião, num cargo novo ou numa avaliação está no texto sobre como se manifesta a síndrome do impostor no trabalho.
Quando o autoconhecimento já não basta
Tudo o que está acima vale para um cansaço que tem limites. Quando a exaustão dura meses, quando você acorda de manhã tão cansado quanto foi dormir e quando nem as férias devolvem o estado que antes um fim de semana devolvia, já não se trata de um hábito de pensamento e nenhum teto para a preparação resolve.
Num momento desses faz sentido procurar o clínico geral ou um psicólogo, mesmo que com uma frase só sobre a energia ter acabado e não voltar. Não é admitir derrota e ninguém vai tirar de você a dedicação. A única coisa que muda é que você deixa de ficar sozinho com isso.
Ricardo tentou uma coisa. Anotou a hora em que o material ficou pronto e foi para casa duas horas mais cedo. A reunião do dia seguinte transcorreu exatamente como todas as anteriores, e ele creditou isso àquela hora.
Uma anotação dessas não prova nada. Dez já são um argumento bem razoável.

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