Juliana quer resolver isso agora. Fernando olha para o celular, diz “desse jeito, brava assim, eu não vou falar sobre isso” e desce para jogar o lixo fora. Volta vinte minutos depois. Ela, nesse meio-tempo, juntou mais três argumentos, e ele decidiu não responder a nenhum.
De fora parece uma briga sobre a louça, sobre dinheiro ou sobre a visita dos pais dele. Por baixo, porém, corre algo bem mais regular. Juliana pressiona porque Fernando cala. Fernando cala porque Juliana pressiona. Cada um conhece só a própria metade dessa volta, e dentro dessa metade tem razões bastante sensatas.
Cobrança e afastamento: um padrão que vocês constroem juntos
O psicólogo norte-americano Andrew Christensen descreveu esse padrão e, junto com Christopher Heavey, começou a medi-lo de forma sistemática em casais reais nos anos noventa. Recebeu o nome de cobrança e afastamento (na literatura, demand-withdraw) e a mecânica dele é desconfortavelmente simples. Uma pessoa abre o assunto, pede mudança, insiste ou critica. A outra fecha o assunto, desvia, acalma os ânimos ou para de falar de vez.
Quanto mais teimosamente a primeira insiste, com mais certeza a segunda se afasta. E quanto mais fundo a segunda se afasta, com mais urgência a primeira insiste. Nenhum desses dois movimentos é ilógico. Juliana levanta a voz porque lê o silêncio como prova de que o outro não se importa com o assunto. Fernando sai porque lê a voz alta como o começo de algo que não vai terminar bem.
E aqui está a parte que os casais costumam deixar passar: esse padrão é uma característica da dupla, não um defeito de um de vocês. Se Juliana morasse com alguém que puxa os assuntos difíceis por conta própria, nunca teria aprendido a insistir. Se Fernando morasse com alguém que deixa as coisas rolarem, não precisaria sumir na garagem. A pesquisa sobre esse padrão o associa há muito tempo a uma satisfação menor no relacionamento, e isso vale para os dois, não só para quem reclama em voz alta.
Christensen e colegas mostraram também que os papéis não estão pregados no lugar. Na posição de quem cobra costuma cair quem quer mudar o estado atual das coisas, porque o outro não tem motivo para abrir o assunto. Quando a conversa vai para algo que ele quer mudar, as posições muitas vezes se invertem e de repente recua quem da última vez pressionava. Em outras palavras, o silêncio não precisa ser um traço de caráter. Costuma ser uma reação ao que está em pauta naquele momento.
Também pesa quem ocupa cada posição com mais frequência. John Gottman, nas observações que fez de casais, descreveu o afastamento que chama de stonewalling como uma reação a que recorriam mais os homens. Isso está longe de valer em todo lugar, e existem muitos relacionamentos em que quem foge do conflito é ela e quem insiste é ele. Você lembra da última briga na sua casa que nunca chegou ao fim? Quem apertou e quem recuou?
Por que primeiro atrai o que depois incomoda
No começo de um relacionamento é justamente essa diferença que costuma ser uma vantagem. Juliana gostava em Fernando de nada abalá-lo e de sentir, ao lado dele, que o mundo não desaba por causa de um mal-entendido. Fernando se sentia atraído por Juliana falar as coisas em voz alta e não deixar nada guardado.
Alguns anos depois, as mesmas frases soam diferentes. De “ele é tão calmo” vira “não tem quem tire ele do lugar”. De “ela é tão viva” vira “ela sempre tem algo para discutir”. O comportamento continuou exatamente o mesmo, o que mudou foi o rótulo que você cola nele.
O motivo é prosaico. Enquanto não existe financiamento em conjunto, filho e divisão das tarefas de casa, não há assunto para conversas difíceis, então os estilos diferentes não têm onde aparecer. Assim que chegam decisões que não dá para adiar, cada um recorre ao que sabe fazer. Um à pressão, o outro à saída da sala.
Estilos diferentes não quebram um relacionamento sozinhos. O problema começa quando viram papéis dos quais ninguém sai mais, e quando o jeito de brigar fica tão fixo que os dois conseguem reproduzi-lo de antemão. O que separa as brigas no relacionamento comuns daquelas que estragam de verdade a relação é assunto à parte.
Estilos de conflito no casal: quais combinações travam e onde
Os jeitos de lidar com uma disputa dão para descrever com duas perguntas. O quanto você defende o que é seu (assertividade) e o quanto leva em conta as necessidades do outro (cooperação). Dessa disposição sai o dual-concern model, esboçado na psicologia do trabalho por Robert Blake e Jane Mouton e depois desenvolvido por Dean Pruitt e Jeffrey Rubin. Dele saem cinco posições: competição, colaboração, meio-termo, evitação e acomodação.
Nenhuma dessas cinco posições é um rótulo de personalidade. São jeitos de se comportar que mudam conforme a situação, conforme o outro lado e conforme o tanto de cansaço que você carrega. Com o chefe você provavelmente age de um jeito diferente do que em casa. Uma descrição mais detalhada de como cada um dos estilos de resolução de conflitos aparece e de quando cada um serve está num guia separado.
No casal, porém, a combinação é mais interessante do que um estilo isolado. O panorama abaixo mostra as quatro com que quem atende casais mais se depara.
| Combinação | Como é na prática | Onde trava |
|---|---|---|
| Competição e evitação | Cobrança e afastamento de manual. Um levanta a voz, o outro sai da sala ou fica calado. | Os assuntos não se encerram, só ficam adiados. Voltam na briga seguinte, em geral mais alto. |
| Dois que evitam | Em casa reina a paz há anos, brigas abertas quase não existem. | Anos de coisas não ditas. O estopim vem depois por algo aparentemente pequeno, as férias por exemplo. |
| Dois que competem | Fogos de artifício. Escalada rápida, volume alto e às vezes um fim igualmente rápido. | As frases ditas no calor da hora ficam na memória mais tempo do que o motivo original da disputa. |
| Acomodação e competição | As decisões saem lisas, porque um quase sempre cede. | A insatisfação se acumula em quem cede e fica muito tempo invisível. |
Faltam nesse panorama a colaboração e o meio-termo, e isso é de propósito. Essas duas posições não criam dificuldade no casal por si mesmas, a dificuldade aparece na combinação com os estilos extremos. Quem procura um meio-termo com um parceiro que compete logo descobre que “metade e metade” significa toda vez a metade do outro. E quem quer uma conversa conjunta e detalhada sobre cada assunto com alguém que evita recebe quase sempre um aceno de cabeça e uma fuga para outra atividade.
A maioria das pessoas, ainda por cima, não tem um estilo só, mas um primário e um secundário. O segundo aparece sob pressão: quem normalmente procura o meio-termo pode cair na competição quando está esgotado, ou então no silêncio. É exatamente por isso que os casais muitas vezes nem concordam na descrição da própria briga. Cada um lembra principalmente do que o outro fez.
Quando o parceiro foge do conflito e não quer mudar nada
O cenário ideal é os dois sentarem e combinarem um jeito novo. A realidade costuma ser outra. Um lê sobre relacionamentos, o outro se recusa a falar disso porque “não tem problema nenhum”. A boa notícia é que a espiral precisa dos dois lados para girar. Quando você muda um deles, o outro fica sem apoio.
Quando você é quem pressiona
Sua tarefa não é abrir mão do assunto. É trocar pressão por tempo e segurança, porque o parceiro que se afasta não reage ao conteúdo, e sim à intensidade. Algumas coisas que funcionam mais vezes do que repetir o argumento em voz mais alta:
- avise o assunto com antecedência e deixe o outro escolher a hora de sentar para falar
- um assunto por conversa, mesmo quando cinco se oferecem
- comece pelo que você precisa, em vez da lista do que o outro estragou
- combine antes um fim para a conversa, meia hora por exemplo
- uma pausa não é recusa, desde que tenha uma volta combinada
O mais difícil costuma ser aguentar o silêncio que vem depois da sua frase. O parceiro que se afasta precisa de mais tempo de arranque antes de começar a falar e, se você preencher esse tempo com outro argumento, confirma para ele que falar não adianta.
Quando você é quem se afasta
Sair de uma briga que está subindo é um movimento legítimo. O corpo nessa hora entra em estado de alerta e, nesse estado, os argumentos não são ouvidos, apenas rebatidos. Uma pausa da ordem de algumas dezenas de minutos costuma fazer mais do que uma hora de bate-boca.
A diferença entre uma pausa saudável e uma fuga é uma única informação: quando, não se vai acontecer. A frase “não adianta falar disso” faz a espiral girar. A frase “agora eu não dou conta, a gente senta às nove” faz ela parar, mas só se às nove você aparecer de verdade. Se furar o combinado duas vezes, o outro lado vai parar de acreditar em você mais rápido do que imagina.
Quando alguém se recusa a brigar e ao mesmo tempo espera que as coisas se resolvam sozinhas, raramente há indiferença por trás. Costuma ser uma defesa aprendida numa época em que o conflito ao redor dele não terminava bem. Isso não a torna eficaz, mas muda o jeito de trabalhar com ela.
O que evitar dos dois lados
Uma armadilha espreita justamente quem lê textos como este. Dar nome ao padrão convida a usá-lo como argumento: “isso é exatamente aquele seu afastamento sobre o qual eu li”. Nesse momento a descrição vira acusação e o outro lado a rejeita junto com a ideia inteira. É mais útil falar da própria metade, porque essa dá para assumir sem perder nada.
A segunda armadilha é o momento. O padrão não dá para desmontar no meio de uma briga, quando os dois estão ligados e escutam principalmente o tom. Uma noite tranquila, uma caminhada ou uma viagem de carro funcionam melhor do que tentar conversar sobre a conversa dez minutos depois de uma porta batida.
Como descobrir quais estilos existem na sua casa
Chutar de memória o estilo do parceiro é pouco confiável. O próprio comportamento a gente recupera junto com os motivos, o do outro sem eles, então dele sai um personagem pior do que foi de fato. É mais útil colocar dois olhares independentes lado a lado.
É para isso que serve o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, mais ou menos quatro minutos, e o resultado é um estilo primário e um secundário mais a posição no mapa de assertividade por cooperação. Cada um do casal pode fazer separadamente e depois comparar os resultados. Mais interessante do que os resultados em si costuma ser a conversa em cima deles, principalmente a pergunta de se você se reconhece na descrição também nos momentos de cansaço.
Uma coisa, porém, não espere daí: que saia quem dos dois faz errado. Saem duas estratégias diferentes que em certas situações combinam e em outras disparam uma a outra. O proveito só surge quando cada um dá nome à sua metade da espiral.
Fernando e Juliana não combinaram trocar de temperamento. Combinaram uma única frase que os dois podem usar: “Isso eu quero conversar, mas não agora. Às nove?” Para doze anos de vida em comum soa quase ridiculamente pouco. Por enquanto está segurando.

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