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Relacionamentos e comunicação

Humor no relacionamento: rir junto é um termômetro

Piadas internas, riso no mesmo segundo e o que some primeiro quando o casal emperra. O que a pesquisa sabe sobre rir a dois e como ler esse sinal.

Rafael e Camila têm entre eles uma frase, “mais uma curva”, depois da qual os dois caem na risada sem falha. Ela vem de um passeio em que se perderam na serra e chegaram três vezes à mesma ponte. Qualquer outra pessoa à mesa ouve três palavras comuns e olha em volta sem entender nada.

Uma piada interna parece uma bobagem e é a forma mais densa de memória compartilhada que um casal pode ter. Em uma única frase cabe um dia inteiro, o clima daquele dia, a discussão específica e como ela terminou. Os casais que juntam muitas delas em geral não são mais engraçados que os outros. Só viveram juntos mais coisas que valeu a pena nomear.

O que acontece quando dois riem ao mesmo tempo

Laura Kurtz e Sara Algoe observaram casais conversando em 2015, e uma coisa bem específica interessava a elas: com que frequência os dois riam no mesmo instante. Não era sobre qual dos dois é mais engraçado. Era sobre a sobreposição. Os casais em que o riso compartilhado aparecia com mais frequência descreviam a relação como melhor e se sentiam mais próximos do parceiro.

A isso pertence, porém, a segunda metade da frase, aquela que os textos de divulgação gostam de cortar. É uma associação, não um manual. Casais satisfeitos rirem mais não significa que o relacionamento se conserta quando você se força a rir. A ordem inversa vale igualmente bem: riem juntos os que estão bem juntos. O mais provável é que funcione nas duas direções e que o riso seja sobretudo um indicador, não uma alavanca.

É justamente por isso que ele é útil. Um indicador dá para ler no caminho, sem aquela conversa sobre o relacionamento que a maioria das pessoas prefere evitar.

E na expressão ao mesmo tempo pesa mais do que parece. Duas pessoas que caem na risada no mesmo segundo avaliaram a mesma situação do mesmo jeito, na mesma velocidade e sem combinar nada. É uma prova pequena de um olhar comum sobre o mundo e não dá para fingir: o sorriso de cortesia a gente veste, o tempo compartilhado não.

Robert Provine, que observou o riso dentro de conversas comuns e reuniu suas conclusões em um livro de 2000, acrescentou duas descobertas que viram a ideia corrente de cabeça para baixo. Rir é cerca de trinta vezes mais provável em companhia do que sozinho. E a maior parte do riso não vem depois de piada nenhuma, e sim de uma frase banal do tipo “bom, eu vou indo”.

Para um casal disso decorre algo inesperado: a qualidade do humor é quase secundária. Rir a dois não recompensa uma boa tirada, é o som com que as pessoas confirmam uma à outra que estão na mesma sintonia. Por isso em casa você ri mais das coisas que não conseguiria recontar para ninguém sem parecer meio bobo.

Robin Dunbar com sua equipe mostrou em 2011 que depois de rir junto o limiar de dor das pessoas sobe, e a explicação aponta para as endorfinas. O riso, então, não funciona como resenha da piada, e sim como ferramenta de vínculo social, algo parecido com a catação mútua entre os primatas, só que aplicável a mais gente de uma vez.

Um termômetro que cai antes de faltarem as palavras

Quando um relacionamento emperra, o tráfego de palavras fica muito tempo sem mudança. Continua-se falando das compras e continua alguém avisando quem busca as crianças hoje. Some outra coisa, bem menos chamativa: a tirada durante o preparo do jantar, o comentário sobre o tempo, a careta por cima da bancada da cozinha. A camada dispensável cai primeiro, porque ninguém a pede e ninguém sente falta dela de imediato.

O motivo é prosaico. O riso precisa de um corpo solto e de pelo menos um instante de sensação de que nada está por vir. Quem está em alerta não ri, mesmo querendo.

Rafael percebeu por causa de uma besteira. Camila parou de mandar fotos com legendas absurdas, o que ela fazia várias vezes por semana e sobre o que nunca tinha caído uma palavra. Discutiam com a mesma frequência de antes, talvez menos. Diminuiu algo que nenhum dos dois sabia nomear até que um deles reparou.

Pergunte por isso outra coisa em vez de “a gente briga demais?”. As brigas vão e vêm e por si só quase não dizem nada. Mais interessante é saber se entre vocês ainda nasce alguma coisa nova de que dá para rir, ou se vocês vivem de histórias juntadas cinco anos atrás.

Quando cada um traz um registro diferente

O humor hoje costuma ser descrito por quatro estilos que saem da pesquisa de Rod Martin de 2003. Eles se apoiam em dois eixos: o tom pode ser gentil ou afiado, e a mira aponta ou para os outros ou para si mesmo. Daí saem o estilo agregador (afiliativo na linguagem acadêmica), o fortalecedor, o ácido e o autodepreciativo, e um a um eles são destrinchados no panorama dos quatro estilos de humor. Os eixos são independentes entre si, então ninguém é apenas um deles, cada pessoa carrega a própria mistura.

A dois essas misturas se encontram e raramente são iguais. Aqui vão quatro combinações que aparecem nas casas com mais frequência, junto com o que elas fazem.

Combinação a dois No que ela é boa Onde ela emperra
Dois agregadores O menor atrito de todos os pares. De quase todo fim de semana nasce uma história comum. O assunto sério demora a abrir. Cada um espera que o outro alivie o peso e no fim não se diz nada.
Agregador e ácido De fora, um casal divertido: um dá o impulso, o outro dá o fio, e as noites deles têm ritmo. A diferença aparece no cansaço. Um comentário lançado como tempero cai em alguém que precisava era de carinho.
Dois ácidos O tiroteio como forma de proximidade. Nada é dito por mal, e um afago cauteloso os entediaria. Ninguém segura o freio. Na briga o registro não muda e as alfinetadas viram a moeda da discussão.
Fortalecedor e autodepreciativo Paz em casa. Um fabrica sozinho o distanciamento, o outro transforma os próprios micos em histórias. Para fora quase nada sai. Cada um processa o difícil do próprio jeito e o parceiro fica sabendo tarde.

Dacher Keltner e seus colegas descreveram em 2001 a brincadeira entre próximos como um jogo social com regras próprias. Entre pessoas que confiam uma na outra ela fortalece o vínculo, porque carrega o recado de que somos tão próximos que podemos nos permitir isso. Sem confiança a mesma frase machuca, mesmo dita com a mesma intenção.

Decidem, portanto, a dose e o momento, não o conteúdo da piada. Uma mesma tirada pode acertar em cheio na primeira vez e doer na segunda sem que nela tenha mudado uma única palavra. Mudou o dia de quem a escuta. Um registro afiado não é por isso pior do que um gentil, ele só exige mais tato de quem o carrega.

A forma escrita é nisso mais traiçoeira do que a conversa. Numa mensagem faltam o tom de voz e o rosto, então a ironia perde a marca pela qual se reconhece que não é ataque. A frase que no jantar passaria como provocação chega ao celular como acusação, e ainda é lida três vezes. Quem tem em casa o registro mais afiado economiza explicação com uma meia frase a mais.

No começo de uma relação o humor cumpre, além disso, um papel diferente do de dez anos depois. Naquela fase ele funciona como filtro e cartão de visita, o que é destrinchado no texto sobre humor na paquera. Mais tarde a pergunta muda: não se trata de conseguir divertir o parceiro, e sim de vocês conseguirem acertar o mesmo humor no mesmo instante.

O humor que faz mal ao relacionamento

A primeira armadilha é o sarcasmo dentro da briga. O sarcasmo diz uma coisa e pensa outra, então acrescenta trabalho extra ao conflito: o outro primeiro precisa decifrar o que você quis dizer de verdade e só depois pode responder ao conteúdo. Numa conversa tranquila isso é tempero, no conflito é um golpe, e depois se discute o golpe, não o assunto original. Onde passa a fronteira entre a ironia que diverte e a alfinetada que machuca é destrinchado num texto à parte sobre sarcasmo e ironia.

John Gottman, observando casais por muitos anos, descreveu que de tudo o que dá para rastrear numa briga, o que anuncia a separação com mais força é o desprezo. O sarcasmo em si não é desprezo. É, porém, um registro pelo qual se chega até ele em passos pequenos: primeiro o comentário venenoso, depois o veneno com os olhos revirados, depois o tom em que se ouve que o outro não entendeu nada.

A regra prática é chata e funciona. Enquanto a briga está em curso, o humor sai de cena, e aliviar faz sentido como ponto final, não como argumento no meio do caminho. Como conduzir uma discussão para que algo se resolva é descrito no texto sobre como resolver conflitos, e quase tudo o que aparece ali tem algo em comum: primeiro se acerta o conteúdo, e só depois vem o alívio.

A segunda armadilha é menos chamativa e pega justamente as pessoas de registro mais gentil. Camila começa a falar que está acontecendo algo desagradável no trabalho dela. Rafael tem uma boa tirada na ponta da língua, solta, os dois riem e o assunto some. Ninguém machucou ninguém, só que da próxima vez Camila não vai começar.

A piada usada no lugar de uma resposta é o jeito mais educado que existe de não escutar alguém. Ajuda uma ordem simples: primeiro a reação ao que foi dito, e só depois o exagero. Um alívio que chega dois minutos mais tarde não perde absolutamente nada, enquanto o precoce leva o assunto inteiro embora.

Tem seu preço também o humor autodepreciativo, por mais inofensivo que pareça. Ao lado de quem faz alvo de si mesmo ninguém se sente pequeno, e isso é raro. Ao mesmo tempo é difícil perceber quando essa pessoa está realmente mal, porque isso também sai em forma de história. A pesquisa sobre esse estilo acrescenta honestamente que ele costuma vir junto com um bem-estar pessoal mais baixo. Não é diagnóstico nem previsão, apenas uma associação em que vale a pena reparar.

Como descobrir o que vocês têm em casa

A avaliação do próprio registro erra nas duas direções. Quem tira sarro dos outros se vê como pessoa com distanciamento, e quem se diminui chama isso de modéstia. A descrição de si mesmo encaixa melhor lida com calma e sozinho do que servida no meio de uma briga.

Quando você quiser um retrato mais concreto do que uma impressão, façam cada um separadamente o teste de estilos de humor e depois troquem os resultados. A parte interessante chega na comparação: costuma aparecer um eixo em que vocês estão perto e outro em que se diferenciam mais do que esperavam. Encarem como um retrato aproximado e um assunto de conversa, não como veredito sobre quem é mais engraçado.

Na comparação compensa uma única regra: não ler o resultado do outro como acusação. O registro de humor é um hábito aprendido em algum lugar onde ele compensava, quase sempre muito antes de vocês se conhecerem, e com hábitos dá para trabalhar.

Mais útil do que o nome do estilo costuma ser mesmo um acordo concreto. Escolham uma área em que na casa de vocês não se alfineta, digamos a aparência, o dinheiro ou a relação com os pais. Uma zona dessas faz pelo clima do apartamento mais do que cinquenta páginas de descrição de personalidade.

Vocês riram juntos ou lado a lado?

Agora uma pergunta que só faz sentido se você responder com sinceridade: quando foi a última vez que vocês riram juntos? Não quando os dois estavam de bom humor diante de uma série em que o riso foi providenciado por um terceiro. Quando foi a última vez que vocês riram de algo nascido entre vocês dois.

Essa diferença dá para ouvir. Rir lado a lado é tráfego paralelo, duas pessoas reagem ao mesmo estímulo de fora e poderiam estar ali com qualquer outra. Rir junto tem autor dos dois lados: um diz algo, o outro pega e acrescenta a sua parte. O riso compartilhado da pesquisa de Kurtz e Algoe é esse segundo tipo.

Durante uma semana, tente reparar em uma coisa só. Quantas vezes por dia você ri de algo nascido entre vocês, e não numa tela. Não mude nada, apenas conte. Para a maioria dos casais sai um número mais baixo do que esperavam, e quase sempre se descobre que ele não depende do quanto gostam um do outro, e sim de quantos minutos por dia passam juntos sem estar resolvendo alguma coisa.

Aquela frase da curva nasceu num momento em que Rafael e Camila estavam cansados, com fome e sem saber por onde seguir. Piadas internas não dão para planejar. O que dá é aumentar o número de situações em que elas têm chance de nascer, e a maioria parece bem sem graça vista de fora.

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