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Relacionamentos e comunicação

Meio-termo no relacionamento: quando ajuda e quando não

O meio-termo divide a diferença; colaborar pergunta o porquê. Quando ceder pela metade ajuda o casal e quando os dois saem perdendo.

Juliana quer passar as férias de verão na serra. Thiago quer praia. Depois de três noites de negociação, os dois acabam numa semana à beira de uma represa no pé da serra, onde não tem nem montanha de verdade nem água quente, e depois ambos afirmam com bravura que foi ótimo.

Uma solução dessas tem fama de sensata. Cada um cedeu a mesma coisa, ninguém venceu à custa do outro, a justiça está formalmente preservada. Só que dividir de forma justa e chegar a um bom resultado não são a mesma coisa, e “se encontrar no meio do caminho” às vezes significa que os dois perderam.

Onde fica o meio-termo no mapa dos estilos de conflito

As maneiras como as pessoas resolvem desentendimentos podem ser descritas por dois eixos: quanta atenção você dá aos seus próprios interesses e quanta dá aos do outro. Esse esquema se chama modelo da dupla preocupação, o dual-concern model. Ele nasceu do trabalho de Robert Blake e Jane Mouton e mais tarde foi desenvolvido por Dean Pruitt e Jeffrey Rubin.

O meio-termo fica exatamente no centro desse mapa. Assertividade média, disposição média em relação ao outro, nada levado ao extremo para nenhum lado. Os outros estilos ocupam os cantos: a competição defende principalmente você, a acomodação defende principalmente o outro, a evitação não dá atenção a nenhum dos dois lados, e a colaboração tenta satisfazer os dois por inteiro. Há um panorama detalhado no texto sobre estilos de resolução de conflitos.

O centro do mapa, porém, não é uma versão reduzida de todos os outros estilos somados. É um comportamento próprio, com lógica própria e preço próprio. O meio-termo pressupõe que existe algo a ser dividido, e só dá para dividir aquilo de que existe uma porção fixa.

Quando o meio-termo funciona no relacionamento

Em muitas situações, o centro do mapa é o lugar mais sensato onde estar. A maior parte do movimento diário de um casal é feita de acordos pela metade, e ainda bem. Não faz sentido abrir um debate profundo sobre valores por causa de quem desce o lixo hoje e quem desce amanhã.

Ceder pela metade faz sentido principalmente onde vale alguma das coisas abaixo:

  • não há nada grande em jogo e procurar a solução perfeita custaria mais do que o assunto inteiro
  • é preciso decidir até hoje à noite, porque de manhã já será tarde
  • as duas posições são igualmente fortes e nenhum dos dois consegue se impor
  • as tentativas anteriores empacaram e é preciso avançar pelo menos um pouco
  • o clima em casa já está pesado e uma divisão rápida e justa ajuda mais do que uma análise impecável

Em todos esses casos, o meio-termo é uma decisão, não uma fuga. Você o escolheu porque pesou quanto custaria procurar uma opção melhor e concluiu que não compensa. A diferença entre uma divisão saudável e uma cansativa raramente está no conteúdo do acordo. Está em se houve uma avaliação consciente por trás dele ou apenas hábito.

Essa divisão rápida tem ainda outra vantagem, da qual pouco se fala. Mantém as negociações curtas. Um casal que abre uma conversa profunda sobre necessidades a cada bobagem, depois de um tempo passa a evitar até propor qualquer coisa, porque cada proposta significa uma hora de debate.

Quando o meio-termo vira armadilha no casal

O problema aparece no momento em que as coisas que realmente importam passam a ser resolvidas do mesmo jeito. O hábito de rachar ao meio tende a transbordar das miudezas para decisões em que a metade não tem nada a fazer. A represa no pé da serra não é uma solução justa para umas férias. É um resultado do qual duas pessoas voltam com a sensação de que faltou algo, e nenhuma delas tem quem culpar.

A insatisfação dividida ao meio, além disso, é difícil de nomear. Ninguém foi voto vencido, ninguém cedeu mais do que o outro, então reclamar parece mesquinho. Fica uma decepção silenciosa sem destinatário, que depois aparece em algo completamente diferente, tipicamente numa briga sobre dinheiro ou sobre visitar os pais.

A segunda armadilha tem formato de contabilidade. A contabilidade do casal começa de forma inocente, com a frase “da última vez fui eu que cedi, agora é a sua vez”, e aos poucos transforma a negociação num acerto de contas. Do assunto em si ninguém mais fala. Fala-se de quem ainda deve o quê a quem.

O estranho nessa conta é que ela nunca fecha para nenhum dos dois lados. As nossas próprias concessões a gente lembra em detalhe, porque nelas a perda era sentida. As do outro a gente registra como um fato seco, sem emoção. Por isso os dois afirmam de boa-fé que dão mais, e os dois têm razão segundo os próprios registros.

A terceira armadilha é a menos visível, porque parece boa educação. Dividir vira reflexo. Rachar a diferença ao meio é rápido, soa generoso e ninguém precisa perguntar nada desconfortável no caminho. Só que reflexo não é escolha. Você lembra de algum acordo que na hora pareceu perfeitamente justo e que mesmo assim ficou incomodando a semana inteira?

O meio-termo divide o bolo, a colaboração pergunta por que a gente quer

A diferença entre ceder pela metade e colaborar não está na quantidade de boa vontade. Está no que exatamente se está negociando.

Roger Fisher e William Ury descreveram em Getting to Yes (1981) a diferença entre posição e interesse. A posição é aquilo que você diz que quer. O interesse é o motivo pelo qual você quer. O exemplo conhecido dessa literatura fala de duas pessoas que brigam por uma única laranja e no fim a cortam ao meio, embora uma precisasse do suco e a outra da casca para a massa de um bolo. A pergunta pelo motivo teria dado a cada uma a sua parte inteira.

O meio-termo trabalha com posições, ou seja, com um bolo de tamanho fixo. Serra contra praia, sete dias contra dez, este sofá contra aquele. Quando se negociam posições, a única operação disponível é dividir, e a única pergunta é por onde passa o corte.

A colaboração primeiro dá um passo atrás e pergunta por que a gente quer esse bolo. De volta a Juliana e Thiago: as posições dizem serra e praia, mas os interesses por trás delas são de outra natureza. Juliana quer a serra por causa da calma e do silêncio, porque carrega uma temporada exaustiva no trabalho. Thiago quer a praia por causa do calor, o frio estraga o humor dele e na serra ele passa o dia inteiro gelado.

Calma e calor não se contradizem em nada. Assim que a conversa se desloca para lá, abre-se uma categoria inteira de lugares que não estava na lista original: uma vila silenciosa no litoral menos badalado, uma ilha pequena fora de temporada, uma região quente sem multidão. E nenhum dos dois precisa sacrificar nada, porque de repente ninguém está dividindo umas férias: estão procurando um lugar que atenda as duas coisas.

Aqui vem a parte menos agradável: colaborar custa tempo e exige uma abertura que no meio de uma briga ninguém tem à mão. Por isso não vale a pena usá-la para o lixo e para quem estende a roupa. Guarde-a para as coisas cujo resultado vai acompanhar você por meses.

Como testar a colaboração em casa

A passagem de dividir para procurar dá para treinar com relativa facilidade, porque se apoia em poucos hábitos.

  1. Pergunte pelo interesse que está atrás da posição. Em vez de “por que praia justamente”, experimente “o que você espera disso” ou “como essa semana teria que ser para dar certo para você”.
  2. Separe o assunto sobre o qual vocês falam do motivo pelo qual falam dele. Primeiro cada um diz as suas razões em voz alta; as propostas concretas vêm só depois. A ordem inversa leva sem falha à divisão.
  3. Uma terceira proposta em cima da mesa muda a matemática da discussão. Enquanto houver duas opções, é sempre uma questão de dividir. Assim que surge uma terceira, mesmo bem ruim, o pensamento destrava dos dois lados.
  4. Pergunte que parte disso é realmente importante para o outro. Essa pergunta move uma negociação mais do que o melhor dos argumentos.

O motivo de isso funcionar tem a ver com uma coisa que John Gottman estudou durante anos em casais: em relações estáveis e satisfeitas, as pessoas estão dispostas a se deixar influenciar. Não significa ceder. Significa levar a proposta do outro a sério o bastante para que ela possa mudar a sua própria opinião.

Sem essa disposição, perguntar pelos interesses vira apenas uma forma mais educada de convencer. Você reconhece pelo fato de que, depois de dois minutos ouvindo, continua exatamente de onde parou, com a mesma proposta e a voz um pouco mais firme. Como cada estilo se manifesta dentro de um casal e o que dois estilos diferentes disparam um no outro, a gente destrincha com mais detalhe no texto sobre estilos de conflito no casal.

Quanto de meio-termo é a medida certa

Dose universal não existe, mas existe uma pergunta de controle útil. Pergunte a si mesmo se o acordo a que vocês chegaram é algo que você teria proposto por conta própria. Se for, o meio-termo cumpriu o papel. Se você nunca o proporia e o aceitou sobretudo para o barulho parar, você resolveu o volume, não o conteúdo.

Às vezes, porém, a terceira alternativa realmente não existe. Duas pessoas querem passar a ceia de Natal em duas famílias diferentes, e nenhuma pergunta sobre interesses dissolve essa contradição. Dividir é então uma resposta honesta, só vale a pena dizer isso em voz alta. A frase “este ano assim me incomoda e no ano que vem eu quero diferente” é uma base melhor do que fingir em silêncio que a solução serve para os dois.

Também ajuda olhar para o próprio padrão. Tem quem recorra à divisão automaticamente em tudo, e tem quem a recuse até onde ela pouparia horas de discussão. Se você quiser ver a sua jogada habitual de fora, temos um teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e como resultado um estilo principal e um secundário mais a sua posição no mapa de assertividade e disposição em relação ao outro. Encare como ferramenta de autoconhecimento, não como diagnóstico.

Juliana e Thiago, aliás, no verão seguinte experimentaram aquela vila silenciosa. Não saiu perfeito: fazia mais calor do que Thiago esperava e uma vez por dia chegava um ônibus de excursão. Mas nenhum dos dois precisou fazer cara de que estava ótimo a semana inteira.

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