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Psicologia e bem-estar

Notívago: por que a manhã não rende

Ser vespertino não é preguiça, é relógio interno deslocado. O que a pesquisa mostra, as vantagens da coruja e como montar bem o seu dia.

Camila faz capas de livro e, segundo ela mesma, antes das onze da manhã não adianta tratar de nada importante com ela. De manhã ela empurra camadas de um lado para o outro, olha o resultado e à tarde costuma apagar tudo. Por volta das dez da noite, quando no estúdio os outros já apagaram as luzes, chega a solução que ela esperou em vão o dia inteiro.

Essa diferença não é feita de força de vontade nem de quantidade de café. É um deslocamento de fase do relógio interno, dá para medir e entre duas pessoas pode chegar a quatro horas. Camila é um dos tipos vespertinos, gente que todo mundo chama de notívago, e o problema dela não é trabalhar mal. O problema dela é que o mundo do trabalho começa às oito.

Ser notívago é ajuste de relógio, não defeito de caráter

No fundo do cérebro existe um grupo de células que mede um ciclo aproximadamente diário. Sozinho ele não acerta exatamente as vinte e quatro horas, então a luz o reajusta toda manhã. Nesse compasso interno está pendurado o resto do dia: a queda da temperatura corporal, a subida da melatonina, o hormônio que traz o sono, o baixo-astral do meio da tarde e a segunda onda de energia da noite.

Na coruja a curva inteira está empurrada para trás. A melatonina começa mais tarde, a temperatura cai mais tarde, e o despertar da manhã cai portanto numa fase em que o organismo ainda está mergulhado na parte noturna do ciclo. Daí vem a famosa névoa até as onze. Não é falta de sono, embora ela costume se somar por cima. É que o despertador puxou você para fora de uma fase que o corpo ainda não tinha encerrado.

Quanto disso é herdado e quanto é aprendido? A pesquisa com gêmeos indica que a hereditariedade explica boa parte das diferenças entre pessoas. O cronotipo se transmite nas famílias como a altura: seus pais não passam uma hora específica de acordar, passam uma inclinação para uma das pontas do eixo. O resto é ajustado pelo ambiente, principalmente pela quantidade de luz do dia que você pega e pelo horário em que pega.

Conta também o que uma mudança de rotina faz com você. Tem quem cruze dois fusos e no dia seguinte funcione. Tem quem leve uma semana para se recuperar de um atraso de uma hora. Ao primeiro chamamos de ritmo flexível, ao segundo de ritmo fixo, e esse eixo é independente de você ser do tipo matutino ou vespertino. A coruja de ritmo fixo tem a combinação mais difícil de todas num mundo que começa cedo, porque não a favorece nem o horário nem a capacidade de se adaptar. Os dois eixos são destrinchados no guia do cronotipo.

O auge de coruja acontece aos vinte

O cronotipo ainda muda ao longo da vida, e de um jeito que pega a maioria de surpresa. O cronobiólogo alemão Till Roenneberg descreveu com colegas, em 2004, a partir de dados de dezenas de milhares de respondentes, que na puberdade o ritmo se desloca para a noite praticamente em todo mundo. Não em parte dos adolescentes. Em todos. O pico dessa condição de coruja chega por volta dos vinte anos, nas mulheres um pouco antes do que nos homens, e Roenneberg propôs usá-lo como marca biológica do fim da adolescência. Depois dos vinte o ritmo volta devagar para a manhã, e aos sessenta a pessoa média é mais matutina do que era aos doze.

Daí saem algumas coisas práticas. O filho de quinze anos que às onze da noite não vai dormir e de manhã não acorda de jeito nenhum não está fazendo isso por implicância. Vale também o contrário: se você era coruja aos vinte e aos quarenta acorda às sete sozinho, não foi a disciplina que mudou você, foi a idade. A descoberta menos agradável aparece quando você passou dos trinta e continua uma coruja marcada: aí provavelmente não é uma fase passageira, é a sua configuração de verdade.

Roenneberg mostrou ao mesmo tempo, em amostras grandes, que a distribuição dos cronotipos tem formato de sino. A maior parte da população fica em algum ponto do meio, ou seja, onde na nossa terminologia se encaixa o pombo. Corujas marcadas são minoria, mas de raridade não têm nada, e uma inclinação leve para a noite pertence a bastante gente que nunca se pensou como pessoa da madrugada.

Em que os tipos vespertinos saem na frente

Aqui é preciso ter cuidado, porque a internet está cheia de afirmações sobre corujas mais criativas ou mais inteligentes. Alguns estudos de fato encontraram relações fracas entre o tipo vespertino e certas medidas de capacidade intelectual, só que os efeitos são pequenos, os resultados inconsistentes e em outros aspectos as corujas saem pior, por exemplo em notas escolares ou em conscienciosidade. As diferenças entre pessoas dentro de um mesmo cronotipo são bem maiores do que as diferenças entre cronotipos. Quem afirma que corujas são mais talentosas está vendendo elogio.

As vantagens reais do tipo vespertino são mais pé no chão e mais úteis:

  • Render dentro da própria fase. A pesquisa psicológica sobre atenção e memória mostra repetidamente que as pessoas rendem melhor no horário do dia que corresponde ao seu cronotipo. Uma coruja avaliada às oito da manhã parece alguém mais fraco. A mesma coruja às seis da tarde parece outra pessoa.
  • O silêncio da noite. Depois das sete não chegam e-mails, ninguém convoca reunião e o celular fica quieto. A coruja tem acesso a duas ou três horas diárias de trabalho sem interrupção sem precisar acordar às cinco para isso.
  • Fôlego tarde da noite. Quando o trabalho se estende pela madrugada, os tipos vespertinos costumam segurar o nível por mais tempo do que os matutinos, cujo rendimento nessa hora despenca. Útil em prazos apertados, em escalas por turno e no trabalho com times do outro lado do oceano.
  • A arrancada da tarde. Enquanto os colegas depois do almoço brigam com a queda de energia, a coruja está só começando a acordar direito. O bloco da tarde, que os outros temem, costuma ser para o tipo vespertino a parte mais produtiva do expediente.

Responda a isso com números: quantas das suas melhores ideias de trabalho do último ano nasceram antes do meio-dia? Se der pouca coisa, você não tem problema de produtividade matinal. Você tem uma agenda mal montada.

O que o mundo das oito custa a uma coruja

As vantagens do tipo vespertino têm uma condição: você precisa chegar ao sono de que precisa. E é exatamente isso que o mundo matutino nega às corujas. Você pega no sono à meia-noite ou mais tarde, porque antes simplesmente não vai, e o despertador toca às seis e meia. A hora ou duas que faltam você anota na dívida todo dia útil, e no sábado tenta quitar dormindo até as onze.

Esse deslocamento de fim de semana tem nome. Roenneberg introduziu o conceito de jetlag social para a diferença entre a hora em que você dorme na folga e a hora em que dorme em dia de trabalho: você se comporta como se voasse para o oeste toda sexta e voltasse na segunda. O corpo não viajou a lugar nenhum, só recebe ordens contraditórias. O problema não é dormir até tarde no fim de semana em si, é que isso empurra o relógio interno para trás justamente antes do dia em que você precisa dele o mais adiantado possível. A saída é discutida no texto sobre jetlag social.

Vale separar duas coisas que vivem se misturando. Uma é o cronotipo, ou seja, quando fica o seu pico e quando fica o seu fundo. A outra é a dívida de sono, ou seja, quantas horas faltam no total. A maior parte do que as corujas não suportam em si mesmas vai para a conta da dívida, e não do deslocamento: irritação, esquecimento, vontade de doce antes do meio-dia, concentração péssima na reunião. Uma coruja que dorme sete horas e meia da uma às oito e meia é, ao meio-dia, outra pessoa em relação a uma coruja que dorme cinco horas da uma às seis. A fase é a mesma, a dívida não.

O segundo custo é social e costuma doer mais do que o biológico. Acordar cedo é, na nossa cultura, categoria moral. Quem levanta às cinco é trabalhador. Quem levanta às nove é folgado. Uma coruja que chega ao escritório às nove e meia e sai às sete cumpre as mesmas horas que o colega das sete às quatro e meia, só que o que aparece é apenas a chegada atrasada. Da saída ninguém mais está prestando atenção.

O rótulo de preguiçoso tem uma consequência desagradável: as corujas costumam adotá-lo. Passam anos ouvindo que bastaria querer, então começam a explicar a própria névoa matinal como fraqueza de caráter. Depois vem mais uma tentativa de acordar às cinco, ela desaba em dez dias e confirma aquilo em que elas já acreditavam. E a única coisa que a tentativa mostrou de fato foi o deslocamento do relógio interno.

Como montar o dia quando o mundo começa às oito

A maioria das corujas não tem como reconstruir o dia inteiro sob medida. Algumas coisas, porém, se mexem mesmo num emprego comum, e a diferença no que sai pronto costuma ser surpreendente. A orientação é simples: de manhã faça o que não exige julgamento e deixe o exigente para as horas em que você está acordado por dentro também.

Período do diaO que costuma render para a corujaO que não colocar aqui
7:00-10:00Rotina, burocracia, organizar e-mails, tarefas mecânicasDecisões, apresentações, cálculos pesados
10:00-13:00Aquecimento, compromissos, contato com outras pessoasTrabalho que pede concentração profunda
14:00-18:00Bloco principal, trabalho analítico, criaçãoReuniões que caberiam igualmente de manhã
19:00-23:00Concentração sem interrupção, ideias, fechamentoTrabalho que você não sabe encerrar em hora razoável

Com reuniões de manhã dá para negociar mais do que as pessoas imaginam. Não precisa explicar cronotipo nem pedir desculpa pela biologia, basta um argumento prático: “Levo material melhor se passarmos para dez e meia”. A maioria das empresas quer o resultado, não a hora do despertador. Se mudar for impossível, tente pelo menos combinar que o bloco da manhã tenha acompanhamento e organização, e não decisão sobre orçamento.

As horas da manhã saem melhor no piloto automático. Quanto menos decisões você tomar até as dez, menos erros acumula. Deixe a roupa separada na noite anterior, mantenha o café da manhã sempre igual e fixe a primeira hora de trabalho como uma sequência invariável de gestos. O piloto automático aguenta bem a névoa na cabeça, porque não precisa de julgamento, precisa de hábito.

O bloco da noite esconde uma armadilha de que pouco se fala. Quando às dez e quinze a concentração finalmente engata, parar é terrivelmente difícil, então o trabalho se estica até uma da manhã e o despertador toca do mesmo jeito. A coruja que não vigia o fim desperdiça a própria vantagem em dívida de sono. Ajuda um limite duro definido de antemão, de preferência com algo externo: uma ligação combinada para a noite, ou um aplicativo que se tranca sozinho na hora marcada. A decisão de “mais meia hora” à uma da manhã não é você quem toma, é o estado embalado em que você está.

Em casa entra ainda um fator que os textos sobre produtividade esquecem: o parceiro com a configuração oposta. A cotovia quer falar de coisa séria no café da manhã, que é exatamente quando a coruja não constrói uma frase. À noite se inverte, e a briga parece então má vontade dos dois lados. Em geral bastam dois combinados: conversa séria não acontece antes das nove da manhã, e a última hora da noite é de cada um separadamente.

E uma coisa funciona independentemente de você querer deslocar alguma coisa: luz logo depois de acordar. Não para reeducar o relógio, mas porque encurta aquela névoa. Dez minutos ao ar livre no caminho até o ponto de ônibus fazem mais do que o segundo café, porque o café mascara o cansaço enquanto a luz avisa ao relógio interno que o dia começou.

Quando vale a pena deslocar e quando não

Um deslocamento moderado é realista. Uma hora, para alguns uma hora e meia, quando se juntam luz de manhã, noites mais escuras, horário estável de acordar inclusive no fim de semana e paciência medida em semanas. Passos de quinze minutos funcionam melhor do que o salto, porque no salto você só fica uma hora na cama se irritando. O procedimento detalhado está no texto sobre como acordar cedo.

O que não é realista é a inversão completa. De uma coruja forte não se faz uma cotovia, nem aguentando um ano. Você desloca a fase um trecho, mas a ordem no eixo permanece: entre as pessoas ao seu redor você continuará sendo o mais tardio. Quem aceita isso para de gastar energia na briga e começa a colocá-la num dia organizado do jeito que serve.

Para escolher entre deslocar e adaptar ajudam algumas perguntas. Quantos dos seus compromissos matinais são realmente fixos? Quantos deles sairiam do lugar se alguém insistisse? Quanto durou a última tentativa de rotina matinal e o que acabou com ela? E se você não sabe em que ponto do eixo está nem o quanto uma mudança de rotina desestabiliza você, o teste de cronotipo mostra isso em poucos minutos.

Existem situações em que é mais sensato procurar o arranjo certo do que se reeducar. Trabalho autônomo, escala por turno em que dá para escolher, colaboração com o outro lado do oceano ou uma área em que se avalia o trabalho entregue e não a presença na sala. A coruja que encontra um lugar assim costuma descobrir em meio ano que passou muitos anos tratando como fracasso pessoal algo que o tempo todo foi apenas um choque de horários.

Camila resolveu no fim com uma mudança pequena. Parou de colocar na parte da manhã qualquer coisa que exija ideia e passou as ligações com clientes para depois das duas da tarde. De manhã ela agora faz revisão, notas fiscais e respostas de e-mail. Experimente anotar durante um mês a hora em que pela primeira vez no dia lhe ocorre algo aproveitável. Esse registro vai dizer mais sobre a sua agenda do que qualquer promessa de acordar às cinco.

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