Rafael e Beatriz passaram a tarde de sábado no sofá, com o telefone na mão. Nenhum dos dois fez nada do que tinha planejado. Por fora, duas cenas idênticas; por dentro, dois estados completamente diferentes: o estômago de Rafael apertava toda vez que ele olhava o relógio, enquanto Beatriz simplesmente aproveitou a folga.
É exatamente aí que passa a fronteira entre procrastinação e preguiça. Ela não está em quanto uma pessoa realiza por dia, e sim no que acontece por dentro enquanto isso. E como cada um desses dois estados pede uma solução diferente, vale a pena saber distingui-los em você mesmo.
Por fora a mesma cena, por dentro dois estados diferentes
Uma tarefa não feita tem sempre a mesma aparência. Um documento em branco, um e-mail não enviado, uma conta embaixo da caneca sobre a mesa. Quem observa de fora enxerga uma coisa só, que nada está acontecendo. Por isso as duas palavras se misturam com tanta facilidade, e por isso a maioria escolhe a mais curta e mais dura.
A experiência interna, no entanto, é radicalmente diferente. Rafael queria. Tinha um plano, sabia qual era o primeiro passo, chegou até a abrir a pasta com o material. Depois fechou, porque ao olhar para ela algo apertou de forma desagradável, e passou o resto da tarde rolando a tela com a sensação de estar estragando a noite, o domingo e a segunda.
Beatriz não tinha plano nenhum. Na sexta decidiu que o sábado ficaria livre, e no sábado deixou o dia livre. Quando apagou a luz à noite, nada a corroía. Isso não é preguiça, é descanso. E a diferença entre descansar e adiar aparece com mais clareza em como você se sente na manhã seguinte.
Confundir as duas coisas custa caro. Quem conclui que é preguiçoso recorre às receitas contra a preguiça: rotina mais rígida, lista de tarefas mais longa, palavras mais duras contra si mesmo. Quando o adiamento é movido por uma emoção desconfortável, esse método costuma jogar lenha na fogueira. É como tratar febre com banho gelado.
Procrastinação: a intenção existe, a emoção bloqueia
O psicólogo canadense Piers Steel define a procrastinação como o adiamento voluntário de uma ação pretendida, apesar de esperarmos ficar em situação pior por causa da demora. Nessa definição há duas coisas essenciais escondidas. A primeira é a intenção, ou seja, algo que você realmente queria fazer. A segunda é a consciência de que adiar vai piorar a sua situação, não melhorar.
Quem procrastina, portanto, não está indeciso nem mal informado. Sabe o que precisa fazer, sabe para quando e sabe que esperar vai prejudicá-lo. Ainda assim adia. Se fosse um problema de planejamento, bastaria um calendário melhor. Só que as pessoas que adiam costumam ter mais calendários do que as outras.
Fuschia Sirois e Timothy Pychyl ofereceram em 2013 uma explicação que se sustenta desde então: adiar funciona como um conserto de humor de curto prazo. A tarefa provoca uma sensação desagradável, o cérebro procura alívio e o encontra em qualquer outra coisa. O alívio chega na hora e dura cerca de uma hora. Depois, ao desconforto original se somam a culpa e um prazo correndo.
Daí vem uma observação que surpreende quase todo mundo: quem procrastina raramente fica de braços cruzados. Trabalha, só que em outra coisa. A cozinha mais bem esfregada do prédio costuma ser a de alguém que precisa entregar o trabalho de conclusão amanhã. Separar a gaveta dos cabos é bem menos desagradável do que abrir um arquivo em que corre o risco de ficar claro o quão pouco você entende do assunto.
Preguiça: falta até a intenção
Falamos de preguiça quando a pessoa simplesmente não quer fazer o esforço e não tem nenhum conflito interno com isso. Falta intenção, falta tensão, faltam remorsos. O trabalho oferecido não a atrai e a ideia não tira o sono dela. A palavra em si carrega um julgamento moral, o que, aliás, explica por que ela é usada quase só para os outros.
Teste em você. Quando foi a última vez que você deixou algo de lado e realmente não se importou? Não que tenha se justificado depois, mas de verdade, sem qualquer traço de desconforto. A maioria precisa procurar um tempo e muita gente não encontra nada. Isso por si só indica como esse estado é raro.
Sob o rótulo de preguiça costuma se esconder outra coisa. Esgotamento depois de um período longo sem pausa, quando o corpo freia antes de você conseguir decidir. Falta de sentido, porque ninguém explicou para que aquilo é feito. Ou uma tarefa que pertence a outra pessoa e, no fundo, você sabe disso. Tudo isso pode ser chamado de preguiça, só que a palavra não traz solução alguma.
O cansaço, felizmente, tem um sinal reconhecível. Depois de um descanso decente, a vontade de encarar as coisas volta, às vezes depois de dois dias sem fazer nada. O adiamento não se comporta assim. Dá para estar bem dormido e descansado e ainda assim travar de novo na mesma tarefa, porque o que freia é um sentimento específico ligado a um assunto específico, não uma bateria vazia.
Cinco perguntas que separam os dois estados
O jeito mais rápido de descobrir do que se trata é percorrer os cinco pontos em que procrastinação e preguiça se separam com mais nitidez.
| Onde olhar | Procrastinação | Preguiça |
|---|---|---|
| Intenção | Você queria fazer e tinha até prazo | Nenhuma intenção chegou a existir |
| Emoção ao adiar | Tensão, inquietação, discussão interna | Calma, no máximo desinteresse |
| O que você faz no lugar | Outra atividade, muitas vezes trabalhosa e útil | Nada de especial, ou o que dá prazer |
| Sensação depois | Culpa, alívio substituído por estresse | Nenhum eco |
| O que ajuda | Trabalhar a emoção, encolher o primeiro passo | Achar um motivo para fazer aquilo |
A última linha é a mais interessante. Contra a procrastinação, apertar mais não funciona, porque a pressão só aumenta a emoção desconfortável. Contra a recusa genuína, por outro lado, não funciona fatiar a tarefa em passos pequenos, porque o problema não é o tamanho e sim o sentido.
Por que o rótulo “sou preguiçoso” atrapalha
A frase “eu sou preguiçoso mesmo” soa como uma admissão sóbria. Na prática, é um diagnóstico do próprio caráter, e bastante desajeitado. Descreve você como alguém que é assim, e não como alguém que reagiu de determinada maneira em determinada situação. Com o caráter se trabalha muito mal. Com a situação, bem razoavelmente.
Pior é o segundo efeito. A vergonha e a autocobrança pioram o humor e, como sabemos por Sirois e Pychyl, o humor ruim é justamente o combustível que move o adiamento. Você se cobra pelo adiamento da manhã, se sente pior e, à tarde, precisa de alívio com mais urgência ainda. O ciclo se fecha e o rótulo segura a porta.
A diferença prática está no que você diz a si depois. Um rótulo é uma frase fechada e dela não decorre nenhum passo seguinte. Já uma descrição como “aquele e-mail está parado há uma semana por receio da reação do outro lado” mostra na hora para onde mirar. A primeira versão fala de caráter, a segunda de situação, e só uma delas pode mudar.
Michael Wohl e seus colegas acompanharam em 2010 estudantes ao longo de dois períodos de provas. Quem conseguiu se perdoar pelo adiamento antes da primeira prova procrastinou menos antes da seguinte do que os estudantes que continuaram se martirizando pelo primeiro atraso. Um trato mais brando consigo mesmo não levou, portanto, a mais acomodação, e sim a melhor desempenho.
Soa contraintuitivo, porque a maioria de nós cresceu convencida de que rigor consigo mesmo é motor e indulgência é freio. No adiamento funciona ao contrário. O perdão a si mesmo aqui não é prêmio pelo fracasso, e sim uma forma de interromper o ciclo de emoções desagradáveis que alimenta o problema inteiro.
Como descobrir o que realmente trava você
A diferença entre procrastinação e preguiça se confirma melhor em um único instante, aquele em que você se afasta da tarefa. Ele dura uns dois segundos e costuma passar despercebido. Da próxima vez, tente capturá-lo e faça três perguntas.
- O que você sentiu logo antes de pegar o telefone? Tédio, aperto, ou nada?
- A atividade substituta diz muito: faxina e outro trabalho apontam para um lado diferente da rolagem de tela.
- Se a tarefa sumisse amanhã, viria alívio ou indiferença?
As respostas costumam cair em três grupos. Uns são freados pelo tédio e pela rejeição a uma atividade sem graça. Outros são parados pelo receio do resultado, tipicamente na forma de perfeccionismo, quando não começar é mais fácil do que entregar algo mediano. E o terceiro grupo é desmontado pela impulsividade e pelo barulho ao redor, porque a atenção escapa antes que qualquer rejeição consiga se formar.
Vale a pena se observar assim por uma semana inteira e anotar sempre apenas duas coisas: o que você adiou e o que sentiu na hora. O padrão aparece rápido e costuma ser surpreendentemente estreito. Na maioria das pessoas não se trata de adiar tudo, e sim de alguns tipos de tarefa que têm algo em comum. A avaliação dos outros, por exemplo, ou uma instrução pouco clara.
Cada um desses três freios pede um caminho diferente, o que também explica por que conselhos genéricos sobre disciplina erram o alvo com tanta frequência. Técnicas concretas para cada caso estão no guia sobre como parar de procrastinar. Se você não tem certeza de qual fonte predomina em você, dá para descobrir no teste de procrastinação: 21 perguntas, cerca de três minutos e um resultado que separa essas três fontes. Não é diagnóstico, é material para autoconhecimento.
Rafael, depois de um mês observando assim, percebeu que em três de cada quatro tarefas adiadas havia sempre o mesmo receio, o de ficar evidente que ele não sabia algo. Com isso dá para trabalhar. O rótulo “sou preguiçoso” não tinha lhe dito nada em dez anos.

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