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Psicologia e bem-estar

Temperamento, caráter e personalidade - qual é a diferença

Temperamento é como você reage, caráter é o que você faz com isso. Onde está a diferença, o que dá para mudar e por que isso não serve de desculpa.

“Desculpa, eu sou colérico mesmo.” A frase surge na reunião um minuto depois de a pessoa cortar a colega no meio e varrer a proposta dela da mesa como perda de tempo. Soa como explicação, só que cola duas coisas diferentes: o temperamento decide a que velocidade a sua pressão sobe, e o caráter decide o que você faz nos três segundos seguintes.

Na fala do dia a dia, esses conceitos se fundiram faz tempo. “Tem personalidade forte” significa voz e autoconfiança, “tem caráter” significa que não trai e, quando se diz que alguém tem temperamento, o que se quer dizer em geral é que a pessoa bate a porta. A psicologia trata esse trio de outro jeito, e não é preciosismo. A diferença entre eles determina o que faz sentido mudar em si mesmo e o que é perda de tempo.

Aliás, o sentido original da palavra é exatamente o oposto do de hoje. O latim temperamentum significa mistura correta, ou seja, medida equilibrada. Ter temperamento não queria dizer ser explosivo, e sim ter os fluidos em equilíbrio.

Temperamento: aquilo com que você chegou ao mundo

O temperamento é o estilo inato de reagir. Ele não descreve o que você pensa nem em que acredita, e sim como a reação acontece em você: com que velocidade ela dispara, qual a força dela, quanto tempo leva para se dissipar e quantos estímulos você aguenta antes de ficar sobrecarregado.

A psicóloga americana Mary Rothbart o definiu como a combinação de duas partes: reatividade e autorregulação. Reatividade é o que dispara em você sozinho, antes de você conseguir ponderar qualquer coisa. Autorregulação é a capacidade de desacelerar essa onda, redirecioná-la ou esperar que ela passe. A primeira parte é estável por anos; a segunda amadurece aos poucos e pode ser treinada.

Quem melhor mostrou que essa base existe desde o começo foi Jerome Kagan. Nas suas pesquisas de longo prazo, ele acompanhou bebês de quatro meses e distinguiu entre eles crianças altamente reativas e pouco reativas, conforme a intensidade da resposta a estímulos novos. Essa característica simples previa o grau de retraimento e de cautela muitos anos depois, apesar de as crianças terem passado, nesse meio-tempo, por famílias e escolas diferentes.

Vale dizer também o que o temperamento não é. Ele não diz nada sobre inteligência, sobre capacidades ou sobre o quanto você faz bem o seu trabalho, e também não determina as suas opiniões e os seus valores. Uma pessoa lenta e cautelosa pode ser mais corajosa ao decidir do que um tipo rápido, porque a coragem não se mede pelo ritmo, e sim pelo que a pessoa arrisca.

No quarteto clássico dos temperamentos isso se reflete de forma bem direta. Nos anos 1950, Hans Eysenck mostrou que os velhos tipos podem ser descritos por dois eixos: extroversão e estabilidade emocional. O sanguíneo aparece como extrovertido estável, o colérico como extrovertido instável, o fleumático como introvertido estável e o melancólico como introvertido instável. Essa história está detalhada no panorama sobre os quatro temperamentos.

Caráter: aquilo que você fez com isso

O grego charaktér designava a cunhagem, a marca gravada numa moeda. A imagem continua valendo. O caráter é a marca deixada em você pela criação, pelo ambiente e, sobretudo, pelas suas próprias decisões repetidas.

Entram aí os valores, as posições morais e os hábitos. Se você cumpre a palavra quando ela não é conveniente. Se admite um erro que ninguém descobriria. Se arruma tempo para alguém no momento em que você mesmo está esgotado. Nada disso já vem pronto e nada disso se descobre medindo o ritmo ou a irritabilidade de alguém.

A separação também tem respaldo na literatura moderna. Nos anos 1990, o psiquiatra Robert Cloninger propôs descrever os dois planos em separado: o temperamento como reações emocionais automáticas, que aparecem cedo e se mantêm, e o caráter como um sistema de objetivos, valores e ideias sobre si mesmo, construído a vida inteira. Ele argumentava, entre outras coisas, que duas pessoas com o mesmo perfil de temperamento se comportam de maneiras totalmente diferentes na vida, conforme o quanto o caráter delas amadureceu.

Uma coisa no caráter surpreende: ele fica mais visível justamente onde vai contra o temperamento. Um pedido de desculpas tranquilo, vindo de quem se inflama num segundo, pesa mais do que o mesmo pedido vindo de um fleumático que aquela situação nem abalou. O preço de uma decisão se calcula pelo quanto ela custou a você.

Personalidade: o conjunto em que os dois se encontram

Personalidade é o conceito mais amplo. Gordon Allport a definiu, em 1937, como a organização dinâmica dos sistemas psicofísicos que determinam o modo como a pessoa se adapta ao mundo. Na definição dele, o temperamento é a parte mais ligada à base biológica e, portanto, a mais hereditária.

A visão de hoje desdobra isso em camadas. Dan McAdams e Jennifer Pals (2006) descreveram a personalidade como três andares sobrepostos: os traços básicos, depois as chamadas adaptações características (objetivos, valores, papéis, estratégias de enfrentamento) e, por fim, a história de vida que a pessoa conta sobre si mesma. O temperamento fica no andar de baixo, o caráter no do meio e no de cima. A personalidade é a construção inteira.

Temperamento Caráter Personalidade
O que descreve Como você reage: ritmo, força do estímulo, tempo de dissipação O que você faz com essa reação e com base em que decide O quadro geral, incluindo papéis, interesses e história de vida
De onde vem Em boa parte da base biológica Da criação, das experiências e das escolhas repetidas Dos dois, mais o ambiente e a cultura
Quando aparece Desde os primeiros meses de vida Da idade pré-escolar em diante, amadurece por décadas Com mais nitidez na vida adulta
Como muda O núcleo permanece, mudam as manifestações Devagar, mas com influência intencional Desloca-se com a idade, os papéis e a experiência
Dá para julgar? Não, nenhum tipo é melhor que outro Sim, aqui se fala de honestidade e de confiabilidade Só em parte e sempre com contexto
Exemplo em uma frase “Eu explodo em três segundos.” “Mas peço desculpas e da próxima vez faço uma pausa.” “Sou uma pessoa direta em quem os outros confiam, porque sabe pedir desculpas.”

Por que “eu sou colérico” não funciona como desculpa

Vamos levar essa lógica até o fim. Se o temperamento realmente determinasse o comportamento, todos os coléricos teriam que se comportar igual. Basta olhar dois escritórios.

Diego e Marcelo lideram equipes e os dois têm pavio curto. Chega um erro no material e, num segundo, os dois ficam vermelhos. Diego escreve uma mensagem ácida no grupo e passa dois dias tentando entender por que as pessoas passaram a falar com ele por intermediários. Marcelo tem um procedimento treinado: escrever a mesma coisa num documento em branco, levantar, ir buscar um café e só então decidir o que envia. Ele manda cerca de um terço do texto original, e o assunto está resolvido antes do almoço.

O temperamento fez a mesma coisa nos dois. A diferença está no que cada um fez com aquela onda. E é exatamente nessa diferença que mora o caráter, porque o procedimento do Marcelo não é dom de nascença, e sim um hábito que ele criou um dia e depois repetiu cem vezes.

A desculpa tem ainda outro ponto fraco: a seletividade. Quase ninguém a usa para uma pequena desonestidade ou para o fato de ter esquecido de ligar para a mãe. Ela é sacada sobretudo para coisas que, de qualquer forma, a gente não teria vontade de resolver. Quando foi a última vez que você ouviu alguém dizer “desculpa, eu sou fleumático, então não tomei aquela decisão e outra pessoa a tomou por mim”?

Uma versão dessa frase, porém, faz sentido, e isso depende de quando ela é dita. “Eu falo rápido e às vezes corto o outro, então por favor me interrompa” é uma informação dada antes, que facilita a vida do outro lado. “Cortei você porque sou colérico” é a mesma coisa dita depois e funciona para encerrar o assunto. A diferença entre aviso e desculpa esfarrapada está inteira no momento.

O atalho útil é este. O temperamento explica por que você teve aquela vontade. Não explica por que você a atendeu.

O que dá para fazer com o temperamento, já que não dá para trocá-lo

O trabalho com o próprio temperamento não mira a reação em si, que via de regra é mais rápida que a consciência. Ele mira os três segundos seguintes e o ambiente em que você circula. Alguns procedimentos funcionam bem em todos os tipos:

  • Conhecer o próprio sinal de alerta. Mandíbula travada, respiração acelerada, vontade de sair da sala ou, ao contrário, necessidade de ter logo a última palavra.
  • Colocar um obstáculo mecânico entre o estímulo e a resposta. Escrever, mas não enviar. Levantar. Adiar a decisão para o dia seguinte.
  • Escolher o ambiente em vez de lutar consigo mesmo dentro de um que não serve. Para uma pessoa altamente reativa, uma rotina previsível rende muito mais do que outra rodada de promessas.
  • Combinar as coisas de antemão com quem convive com você. A frase “quando eu falar rápido demais, me interrompa” poupa um monte de explicação depois.
  • Aprender a consertar. Um pedido de desculpas rápido e concreto custa menos energia do que uma semana de silêncio tenso.

Quanto disso dá para mudar de verdade e o que permanece está no texto à parte sobre se o temperamento pode mudar. Em resumo: a reatividade básica se mantém, o repertório de reações se amplia a vida toda.

Como saber o que em você é temperamento e o que é só hábito

A distinção prática se apoia em três perguntas. Isso aparece em você em situações diferentes, em casa e no trabalho? Você se lembra disso em si mesmo desde a infância? E aquilo dispara antes de você conseguir ponderar qualquer coisa? Três respostas afirmativas apontam para o temperamento. Quando a coisa se prende a um único ambiente ou a uma etapa da vida, trata-se mais de um jeito aprendido, que dá para desaprender.

A autoavaliação, aliás, erra mais do que se espera, porque nos julgamos pelo que gostaríamos de ser. A pessoa quieta que se orgulha da própria determinação se descreve como colérica. O tipo rápido que gosta da imagem do estoico equilibrado se classifica entre os fleumáticos. Justamente por isso vale comparar a própria impressão com respostas sobre situações concretas: o teste de temperamento tem 24 perguntas e leva cerca de quatro minutos, e o resultado traz o tipo principal e o toque dele. Outros caminhos para chegar ao mesmo ponto estão no texto sobre como descobrir o seu temperamento, e quem quiser uma medida mais fina do que quatro caixinhas a encontra na comparação entre temperamento e o modelo Big Five.

Durante uma semana, tente manter um registro de duas colunas. À esquerda, a situação que tirou você do sério ou que puxou você para baixo; à direita, o que você fez com aquilo. Depois de sete dias, a coluna da esquerda vai mostrar a você o temperamento em toda a sua repetição. A da direita vai mostrar o caráter e, principalmente, onde por enquanto há um espaço em branco nele.

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