Lucas está numa reunião e concorda com a cabeça. Ele não concorda com a proposta: tem três objeções concretas e não diz nenhuma. Quando Juliana pergunta depois o que ele achou, ele responde que provavelmente vai dar certo.
De fora, parece calma e disposição para colaborar. Por dentro, rodou um cálculo rápido em que o preço de dizer a discordância saiu mais caro do que o de ficar calado. Esse cálculo tem nome. Evitar conflitos é um dos cinco estilos descritos pelo chamado dual-concern model, ou modelo da dupla preocupação (Blake e Mouton, depois Pruitt e Rubin), e se apoia na combinação de baixa assertividade com baixa atenção ao interesse do outro. Você não defende o que é seu e, ao mesmo tempo, não cuida do que a outra parte precisa. Você sai de campo.
Como o hábito de evitar conflitos aparece de perto
A maioria das pessoas imagina silêncio. É só uma das formas, e não a mais comum. Muito mais frequente é o sim rápido, cuja função é encerrar a conversa antes que ela comece.
Lucas diz de si mesmo que “não faz escândalo”. Não é pose, ele fala sério e considera aquilo boa educação. Quando Juliana comenta que ele ficou de novo no trabalho até as sete, ele responde “você tem razão, desculpa” e vai esvaziar a lava-louças. Que o assunto importa para ele e que ele teria o que dizer, ninguém descobre naquela conversa. Nem Juliana, nem, na verdade, ele mesmo.
O repertório do estilo evitativo costuma ser surpreendentemente rico. Fazem parte dele manobras como estas:
- o sim rápido que na verdade significa “vamos encerrar isso”
- a piada ou o comentário leve exatamente quando a conversa chega perto do essencial
- o “para mim tanto faz, decide você” em algo que não é nem um pouco indiferente
- adiar o assunto para nunca, um adiamento ao qual ninguém volta
- a saída física: para outro cômodo, para o celular, para fumar
- uma resposta tão genérica que não dá para concordar nem discordar dela
Todas têm uma coisa em comum: dá para defendê-las como boa educação. Por isso o estilo evitativo se sustenta tão bem. Não parece fuga, parece qualidade de caráter, e as pessoas ao redor costumam recompensar. Quem usa esse estilo ganha fama de colega tranquilo e de parceiro sem complicação. Quantas objeções não ditas se escondem atrás dessa fama, ninguém faz ideia.
De onde vem o medo do conflito
Quase ninguém decide ficar calado depois de uma reflexão madura. O estilo evitativo se aprende, normalmente antes de você conseguir avaliar se ele serve. Três caminhos levam até ele com mais frequência.
O primeiro é a família. Tem quem cresceu numa casa de brigas altas que terminavam com porta batendo e aprendeu que conflito é algo que sai do controle. E tem quem cresceu onde ninguém brigava e a discordância se resolvia com frieza e dois dias sem dirigir a palavra. As duas versões ensinam a mesma coisa: disso a gente não fala.
O segundo caminho passa por uma experiência específica. Uma vez você falou e deu errado. O chefe guardou aquilo, o parceiro ficou emburrado uma semana, uma amiga parou de escrever. Um único episódio desses configura o comportamento por anos, porque o cérebro guarda muito bem as situações que doeram e não leva em conta que, da segunda vez, você pode falar de outro jeito e com outra pessoa.
O terceiro é a crença que nasce dessas experiências: discutir coloca a relação em risco. Quando na cabeça vale a equação “discordar é igual ao risco de perder essa pessoa”, ficar calado é uma escolha racional. O problema não está na lógica, está na premissa de partida. Discordância e fim de relação se ligam de forma muito mais frouxa do que essa equação supõe.
A isso se soma uma recompensa discreta. Evitar funciona na hora. No segundo em que você empurra o assunto para longe, a tensão no corpo cai e vem o alívio. Esse alívio é real, e o cérebro o arquiva como prova de que você se saiu bem. A conta chega depois e se espalha por tantos dias que ninguém a associa àquele alívio. Você lembra da última frase que terminou só na sua cabeça? E do que esperava que acontecesse se tivesse dito aquilo em voz alta?
Quanto custa ficar calado por muito tempo
Um único ato de evitação não custa quase nada. A conta se forma com as repetições e tem vencimento adiado, e é por isso que dá para ignorá-la por tanto tempo.
O item mais visível é a frustração acumulada. As objeções não ditas não somem, se depositam, e quando juntam o bastante, basta um detalhe. Lucas ficou oito meses sem falar da divisão das tarefas de casa e explodiu por causa de uma lava-louças mal arrumada. Juliana reagiu de forma perfeitamente lógica: por uma lava-louças não vale a pena fazer drama. Ela não tinha como saber que a lava-louças não era o assunto, apenas a última gota de oito meses. É assim que o estilo evitativo se vira contra si mesmo, porque quem o usa acaba parecendo aquele que faz escândalo do nada.
O segundo item são as decisões tomadas sem você. Em grupo, o silêncio é lido como concordância, não como neutralidade. Se na reunião ninguém levanta objeção, o projeto começa no formato proposto por quem falou. E ninguém age de má-fé: as pessoas trabalham com a informação que receberam, e as suas objeções não estavam ali.
O terceiro item é o mais silencioso e o mais caro. Nasce uma relação em que a outra pessoa não desconfia que algo está errado. Não falta a ela disposição para resolver, falta o dado. Quando isso vem à tona depois de um ou dois anos, geralmente não soa como “sinto muito”, e sim como “por que você não me disse antes”, e nessa pergunta tem um pedaço de mágoa legítima. Sobre a forma extrema desse mecanismo escrevemos no texto sobre o que é o tratamento de silêncio e por que os dois lados saem exaustos dele.
A pesquisa apoia essa intuição por vários lados. John Gottman, acompanhando casais por muito tempo, descreveu o chamado stonewalling, que é a retirada crônica da conversa, quando um dos dois para de responder e se desliga. Ele o coloca entre os sinais de alerta mais fortes para o futuro do relacionamento, mais fortes do que a briga em si. Casais que discutem alto e depois fazem as pazes costumam estar melhor do que casais em que um cala e o outro fala com a parede.
Ainda mais contraintuitivo é o que aponta a pesquisa de James Gross sobre supressão emocional. Quando você segura na conversa o que sente, o estresse fisiológico sobe não só em você, mas também na pessoa à sua frente, mesmo que ela não faça ideia da sua batalha interna. O seu silêncio, portanto, não é neutro para o outro lado. Ele se transmite, só que sem explicação, então a outra pessoa associa aquilo a outra coisa, na maioria das vezes a si mesma.
Quando evitar o confronto é a escolha certa
Seria desonesto escrever sobre o estilo evitativo como se fosse um defeito. No dual-concern model nenhum dos cinco estilos é melhor que os outros, quem decide é a situação, e a evitação tem as suas poucas situações em que ganha de todas as demais. Comparamos essas situações no panorama que coloca lado a lado os diferentes estilos de resolução de conflitos.
Numa besteira com a qual daqui a três dias você não vai se importar, calar sai mais barato do que debater. Numa situação que pode virar perigo, calar protege a saúde: uma pessoa agressiva na rua, uma discussão acalorada com álcool no meio. A hora errada é outro caso em que adiar vence, porque à meia-noite, exausto ou na frente das crianças não se negocia nada de bom. E ainda existem as batalhas alheias, as brigas em que você entra só pelo hábito de bancar o mediador.
A diferença entre evitar com critério e simplesmente fugir aparece em algumas perguntas.
| Pergunta | Evitar é a escolha certa | Evitar é fuga |
|---|---|---|
| Por quanto tempo isso vai me incomodar? | À noite eu já nem lembro | Faz semanas que eu volto nisso na cabeça |
| Quantas vezes já aconteceu? | Aconteceu pela primeira vez | Se repete e toda vez eu fico calado |
| Posso fazer alguma coisa? | A decisão está fora do meu alcance | Bastaria uma frase na hora certa |
| De quem é o assunto? | A briga é de outra pessoa | Diz respeito diretamente a mim, só que eu não quero admitir |
| Por que estou calado justamente agora? | Não é a hora, eu volto nisso | Tenho medo da reação do outro |
A última linha é a decisiva. Evitar como tática e evitar por medo parecem idênticos de fora. A diferença está em você deixar ou não um caminho de volta para o assunto.
Passos pequenos para começar a dizer o que pensa
O conselho “você precisa se comunicar mais” não serve para nada aqui. Quem evita conflitos há anos não tem o problema de não saber que deveria falar. Tem problema com os primeiros dez segundos em que isso deveria acontecer. Por isso vale começar pela menor dose possível.
Experimente a menor discordância possível. Não se trata de ganhar o debate, e sim de dizer uma frase que apenas anuncia a discordância. Sem argumentação, sem introdução pedindo desculpa, sem explicar por que você se atreve a dizer aquilo. Dá para treinar em coisas de baixo risco: na escolha do restaurante, na data de uma reunião, no filme da noite.
Algumas frases que funcionam como primeiro passo:
- “Eu vejo isso um pouco diferente, posso dizer por quê?”
- uma pergunta no lugar de um contra-argumento: “O que aconteceria se a gente fizesse ao contrário?”
- “Concordo com a maior parte, só tenho dúvida em uma coisa.”
- um adiamento assumido, não uma retirada: “Agora eu não tenho cabeça para isso. A gente volta nisso amanhã à noite?”
A última merece atenção à parte, porque transforma a evitação numa jogada legítima. A diferença entre “não quero falar sobre isso” e “a gente volta nisso amanhã às sete” é enorme, mesmo que as duas frases encerrem a conversa agora. A segunda dá à outra pessoa a informação de que o assunto existe, e dá a você tempo para organizar o que quer mesmo dizer. O retorno adiado funciona sob uma única condição: precisa acontecer de verdade. Dois adiamentos não cumpridos e a frase perde todo o peso.
As primeiras tentativas serão desconfortáveis mesmo quando derem certo. O corpo está acostumado ao alívio imediato da evitação e desta vez não vai recebê-lo. No lugar dele aparecem o coração acelerado e a vontade de retirar a frase. É o desconforto de algo pouco familiar, não um sinal de que você está errando.
Como enxergar esse padrão em você
O estilo evitativo é difícil de observar por dentro, porque a essência dele é que nada aconteceu. Não deixa brigas nem rastros, só conversas que correram lisas e sobre nada. Além disso, a própria parte a gente costuma explicar de forma mais favorável do que foi: o que era medo do conflito depois traduzimos como consideração.
Um olhar de fora ajuda. É para isso que serve o nosso teste de estilos de conflito: 30 perguntas, cerca de quatro minutos, e o resultado é o seu estilo primário e o secundário, mais a posição no mapa de assertividade e cooperação. Não é diagnóstico nem rótulo, mais um ponto de apoio ao qual dá para relacionar comportamentos concretos das últimas semanas.
Na reunião seguinte, Lucas disse uma frase. Que concordava com a proposta, só tinha dúvida no orçamento do primeiro trimestre. Ninguém saiu da mesa, a discussão se estendeu por seis minutos e o orçamento acabou sendo ajustado em um item. No caminho de casa ele percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, não estava levando na cabeça uma conversa que já tinha terminado.

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