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Psicologia e bem-estar

Humor negro: o que ele diz sobre a inteligência

Você ri do que os outros têm medo de rir? O que a pesquisa achou sobre humor negro e inteligência, para que serve no resgate e onde é o limite.

No almoço depois do enterro da avó, Rafael, sentado de frente para a tia, comentou em voz alta que a avó teria falado desses salgadinhos com uma falta de piedade capaz de deixar a mesa inteira vermelha. Metade da mesa congelou. Na outra metade deu para ver o alívio, e Camila foi a primeira a rir, para se sentir péssima logo em seguida.

A diferença entre essas duas reações não estava em quem gostava mais da avó. Estava no que cada um precisava fazer com a perda naquele momento: um ainda precisava mantê-la séria, a outra já precisava respirar. Uma frase só entregou a mesa inteira em um segundo.

Humor negro não é um estilo, é um tema

Chama-se humor negro o riso apontado para as coisas que nos assustam: a morte, a doença, a desgraça, o próprio fim. Não se trata do jeito como você brinca, e sim do material com que a piada é construída. Essa diferença se embaralha quase sempre.

Os estilos de humor descrevem o endereço, não a matéria-prima. Você brinca com as pessoas, sozinho para si mesmo, à custa dos outros ou à sua própria? O humor negro pode ser contado em qualquer um desses quatro modos, com carinho e com veneno, para fora e para dentro. Deles trata o panorama dos quatro estilos de humor, aqui basta uma coisa: um tema sombrio, sozinho, não diz se a piada é gentil ou feia.

A frase de Rafael sobre os salgadinhos mirava no absurdo da situação e um pouco na avó, que ela mesma teria apreciado. Se no mesmo tom ele tivesse dito algo sobre a tia, que passou a manhã inteira preparando aquilo, teria saído humor ácido à custa de uma pessoa específica, e o tema da morte não mudaria nada nisso. Material sombrio e ataque são duas coisas diferentes que apenas se encontram com frequência na mesma sala.

Por que justamente o tabu funciona como combustível? A piada precisa de duas coisas ao mesmo tempo. Algo que ameaça ou quebra uma regra e, junto, um sinal de que aqui e agora nada de ruim vai acontecer. Quanto maior for o primeiro, maior é o alívio quando chega o segundo, e a morte é a maior quebra de regra que conhecemos.

Daí vem uma consequência desconfortável. O melhor material fica exatamente onde o tema é mais sensível, então entre “caiu perfeito” e “isso foi um vacilo” costuma haver a distância de algumas palavras. Quem brinca com coisas pesadas trabalha sem rede mesmo com a melhor das intenções.

O que Willinger e a equipe dele encontraram

Em 2017, Willinger e seus colegas publicaram um resultado que desde então é citado o tempo todo, em geral de forma imprecisa. Apresentaram humor negro a um grupo de pessoas e observaram duas coisas: o quanto elas entendiam e o quanto se divertiam. A isso somaram testes de inteligência e uma medida de agressividade.

Quem entendia melhor o humor negro e ao mesmo tempo se divertia com ele pontuava mais alto nos testes de inteligência. E mais baixo em agressividade, que é a parte surpreendente. Você esperaria o contrário: que as piadas pesadas fossem o prato de quem chega às pessoas com mais fio do que consideração.

Faz sentido quando você olha o que uma piada dessas pede de quem escuta. É preciso segurar duas leituras incompatíveis da mesma frase ao mesmo tempo, perceber qual regra foi quebrada e, no meio disso, saber que nada ali é para ser levado ao pé da letra. Quem se perde no caminho ouve só crueldade. Quem acompanha ouve uma construção.

E agora a observação honesta. É uma correlação, não uma causa, e é um estudo só. Não se conclui dali que o seu conhecido que despeja frases sombrias seja mais inteligente que você, nem que o humor negro deixe alguém mais inteligente. Mediram a compreensão e se a piada divertia, não a capacidade de inventá-la. À pergunta mais ampla, se pessoas engraçadas pensam mesmo mais rápido, é dedicado um texto à parte sobre humor e inteligência.

Vale a atenção também aquilo que saiu desses números ao contrário do que quase todo mundo esperaria. A inclinação pela piada pesada não se comportou ali como sinal de hostilidade. Parece mais que quem consegue brincar com o horror no plano das palavras precisa lutar menos com ele em outros lugares.

Humor de forca: por que se ri dentro da ambulância

Pergunte a qualquer pessoa do SAMU, dos bombeiros ou do pronto-socorro como é a conversa dentro do carro na volta de uma ocorrência pesada. Quase sempre você vai ouvir que ali se ri de coisas que ninguém diria em voz alta lá fora. Isso se chama humor de forca, e o nome é literal: dá nome ao riso de quem está diante de algo que não tem como resolver.

Quem é de fora e escuta essa conversa costuma ler como cinismo. É um engano quanto ao destinatário. A piada não mira na pessoa que está sendo levada, mira na situação, no absurdo das circunstâncias e sobretudo na própria impotência. É um jeito de recuperar por um instante um pedaço de controle sobre algo que levou o controle inteiro.

Existe aí uma função prosaica: a equipe sai de novo dentro de uma hora. Quem vivesse cada ocorrência por inteiro e sem sobra, depois de meio ano não sai mais nenhuma vez. E o riso dentro do círculo fechado funciona como uma checagem rápida de que todos ainda estão em condição de seguir. Ninguém pergunta “como você está aguentando”, sai uma frase, e por quem entra na piada já se sabe tudo.

O que decide é quem é o alvo e quem está ouvindo. As pessoas das profissões de cuidado conhecem essa diferença por instinto, e ela se transfere para a vida civil.

Alvo da piada O que ela faz com quem falou Como quem está em volta lê
A situação, o acaso, o absurdo das circunstâncias Reduz a ameaça a um tamanho com o qual dá para trabalhar. Alivia todo mundo que também está dentro. De fora pode soar duro.
A própria impotência e o medo Assume os dois sem precisar dizê-los a sério. No círculo isso vale como admissão, não como fraqueza.
Uma pessoa específica que se deu mal Alívio curto, gosto ruim longo. Fora do círculo fechado parece desprezo, e não há outra leitura possível.

A última linha é o ponto em que o humor de forca deixa de ser válvula. Enquanto a piada mira na situação, ela segura as pessoas juntas. Assim que o alvo passa a ser quem mais sofre ali dentro, vira outra coisa, e o círculo fechado costuma perceber isso antes de quem disse a piada.

O hospital e o quartel não estão sozinhos nessa. O mesmo mecanismo roda na equipe que passa a terceira noite consertando um sistema que caiu e entre os pais de uma criança com diagnóstico grave. Onde a aposta é alta e não há nenhuma possibilidade de mexer nela, nasce um humor que de fora soa impróprio e por dentro mantém as pessoas de pé.

Válvula ou fuga

George Vaillant, que acompanhou por décadas como as pessoas lidam com aquilo que a vida traz, coloca o humor entre os mecanismos de defesa maduros. Por maturidade ele entende algo bem preciso: graças a ele você continua enxergando a coisa desagradável, não precisa negá-la e ninguém mais paga por ela. A negação a esconderia, uma explosão de raiva a jogaria em cima de outra pessoa, a piada a deixa parada onde está e apenas tira um tanto do tamanho dela.

Só que essa mesma piada pode ser também o jeito de nunca chegar até essa coisa. A fronteira entre as duas não passa pelo tema nem pela dureza, passa pelo momento. A diferença está entre “dizer a sério e depois fazer piada com isso” e “fazer piada com isso em vez de dizer”.

Dá para reconhecer por uma coisa só: se existe também uma versão sem a piada. Quando quem está em volta conhece a sua doença, o seu divórcio ou a sua demissão exclusivamente como uma série de piadas, ninguém pergunta como você está de verdade. Do ponto de vista deles, você já contou. Param de perguntar antes de você perceber que nunca contou.

Tente responder com sinceridade: quando foi a última vez que você falou em voz alta de algo pesado sem enfiar ali nenhuma frase de alívio? Se não lembra, isso não precisa significar nada dramático. Vale saber que a piada é a sua posição de partida e não uma escolha. Como o humor funciona no papel de defesa e quando o apoio vira armadilha é o que destrincha o texto sobre humor como defesa.

A fronteira passa pela plateia, não pelo tema

O conselho mais comum diz que “alguns temas são tabu”, e na prática não funciona. Se valesse, não poderiam existir setores inteiros em que se brinca com a morte todo dia e ninguém se incomoda. A mesma frase passa numa sala e na outra não, embora as palavras sejam idênticas.

Quem decide é principalmente a distância, e ela vem em dose dupla. A do tempo: o quanto a ferida ainda está fresca. E a pessoal: o quanto quem escuta está perto dela. Diante da mesma desgraça, quem está dentro dela tem uma distância diferente do colega do terceiro andar, mesmo que os dois tenham pensado a mesma coisa.

Daí vem uma regra que na convivência se sustenta quase sozinha, sem que ninguém a formule: a licença para brincar pertence a quem paga a conta. Um paciente pode dizer sobre o próprio diagnóstico coisas que na boca de uma visita saudável soariam insuportáveis. Não tem a ver com quem é mais engraçado, e sim com quem carrega as consequências.

A complicação nova é que os círculos fechados hoje seguram mal. Uma frase que teria acabado no vestiário pode ser fotografada e repassada, e fora do público original perde todo o contexto. Um print não mostra quem estava sentado ali, quem tinha acabado de voltar da pior ocorrência da semana e por que todo mundo na sala ouviu aquilo como alívio.

O teste prático leva um segundo, antes de soltar a frase. Quem está sentado aqui e para quem isso pesa mais do que para mim? Quando você não souber a resposta, deixe a piada com quem aquilo mais atinge. Ficar calado numa hora dessas não é sinal de tédio, é uma leitura da situação.

Se você tem curiosidade sobre para onde o seu humor aponta, se aproxima, se protege você ou se procura um alvo, um breve teste de estilos de humor dá uma orientação. Ele pergunta sobre situações comuns, e o resultado vale ser lido como a descrição de um hábito com o qual dá para trabalhar, não como um veredito sobre o seu caráter.

Camila foi a primeira a rir naquela mesa e ficou incomodada com isso a tarde toda. Três meses depois, ela se pegou contando para uma amiga a frase dos salgadinhos, e pela primeira vez falou da avó por mais de um minuto seguido. A piada não foi o que tirou a avó dela. Foi o que a devolveu para a conversa.

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