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Psicologia e bem-estar

Humor e inteligência: quem é engraçado pensa mais rápido?

Uma tirada certeira é um problema resolvido em menos de um segundo. O que Greengross e Miller mediram em quatrocentos estudantes e onde é o limite.

Rafael quase não fala nas reuniões. Mas quando já faz quinze minutos que a mesa gira em torno de quem vai assumir a tarefa, ele solta uma frase e todo mundo cai na risada. Levou menos de um segundo, e nesse segundo fez mais operações mentais do que qualquer um ali saberia descrever de forma consciente.

Foi por causa dessa velocidade que o humor entrou na mira de quem pesquisa inteligência. Uma piada não é só tempero social. É um problema com tempo contado, e você precisa resolver antes que a conversa vá para outro lugar.

Meio segundo entre o desencaixe e a tirada

Uma boa piada trabalha em dois passos. Primeiro monta em você uma expectativa de como a frase vai terminar e depois quebra essa expectativa com algo que não pertence ali. Esse primeiro passo se chama incongruência e sozinho não basta para o riso; se bastasse, cada erro de digitação num e-mail seria comédia.

O riso chega só no segundo passo. O cérebro precisa achar outra leitura da situação em que a peça deslocada de repente encaixa, e no instante em que acha, recebe uma recompensa. É o mesmo clique de um enigma ou de uma cifra, só que embrulhado em uma frase e resolvido numa fração de segundo.

A frase de Rafael foi: “Prazos a gente já tem três, dá para tirar a média.” As primeiras palavras prometem um comentário operacional comum. As últimas transformam os prazos em números de uma planilha, e só nessa segunda leitura vem à tona o que o time realmente pensa dos próprios prazos.

E tempo para resolver isso você tem ridiculamente pouco. A conversa segue adiante em poucos segundos e leva junto todo o contexto em que a tirada se apoia. A mesma frase dita dez segundos depois já não é piada, é observação, e costuma dar para perceber pelo sorriso educado dos outros.

Daí vem uma propriedade desagradável do humor: piada explicada deixa de ter graça. Quando alguém entrega a segunda leitura pronta, o trabalho foi dele e a recompensa por resolver não chega. Divertido, no máximo, é ver a pessoa suar enquanto explica.

O que Greengross e Miller encontraram

Em 2011, Gil Greengross e Geoffrey Miller aplicaram a cerca de quatrocentos estudantes dois tipos de tarefa. Uma era um conjunto comum de testes de capacidade de raciocínio; a outra, pedidos do tipo “invente uma legenda para esta imagem” ou “responda a esta pergunta da maneira mais engraçada possível”. As respostas foram avaliadas depois por juízes independentes que não faziam ideia de como cada um tinha ido nos testes.

Quem produzia respostas mais engraçadas tinha, em média, pontuação mais alta em inteligência geral, e o encaixe era ainda mais apertado com a parte verbal. A ligação entre ser engraçado e a capacidade de raciocínio existe, portanto, e não é pequena.

Que o encaixe mais apertado aparecesse justamente no componente verbal faz sentido. As palavras carregam vários sentidos ao mesmo tempo, e quem as gira rápido tem material para montar a segunda leitura. A maior parte da tirada acontece no ponto em que dois sentidos distantes se encontram sem aviso, e procurar ligações distantes é exatamente o que as tarefas verbais cobram.

Um detalhe do desenho, porém, merece uma pausa. Sobre o que era engraçado não decidia nenhum gabarito objetivo, e sim as pessoas que liam as respostas. Media-se também, então, a capacidade de acertar o gosto de um grupo qualquer de desconhecidos, o que é uma habilidade por si só.

Agora a parte que costuma se perder na divulgação. Tratava-se de uma correlação, não de um sinal de igual. Entre aqueles estudantes havia gente com ótimas pontuações e legendas sofríveis, e gente com pontuação média cujas respostas derrubavam a banca. Graça e capacidade de raciocínio se sobrepõem, não se fundem.

Os autores tiraram dali mais uma coisa, e é por ela que o estudo continua sendo citado. Uma boa tirada na hora não se decora nem se finge, então a graça pode funcionar como sinal honesto de quão rápido alguém pensa. Um sinal que você ainda por cima lê na hora, sem currículo nenhum.

Humor negro: a mesma tarefa um grau mais difícil

Se a tirada é um enigma, o humor negro é um enigma com a dificuldade aumentada. À incongruência se soma um tema que na conversa comum queima: morte, doença, desgraça. Quem ouve precisa segurar duas coisas ao mesmo tempo, que aquilo é piada e ao mesmo tempo algo sério, sem escorregar nem para o nojo nem para a indiferença.

Muita gente trava exatamente nessa combinação e não ri. Não porque não entenda a tirada, mas porque acha deslocada, e essa sensação vence a vontade de terminar o enigma. Com isso o humor negro vira uma prova de sensibilidade incomum: passa apenas quem consegue segurar as duas metades juntas.

Em 2017, Willinger e colegas deram aos participantes um conjunto de charges pesadas e perguntaram o quanto as entendiam e o quanto se divertiam com elas. Quem pontuava alto nas duas coisas ia melhor em testes de inteligência e apresentava, junto, um nível mais baixo de agressividade. Não mais alto. Mais baixo.

Vale separar o tema da mira. O humor negro descreve sobre o que a piada fala; um estilo ácido descreve à custa de quem ela vai. Podem se encontrar numa mesma frase, mas não são dois nomes para a mesma coisa, como desenvolve com mais detalhe o texto sobre humor negro.

Por que não vale ao contrário

Camila lê três livros por mês e no trabalho a conhecem como a pessoa que enxerga as consequências antes de todo mundo. Numa mesa com amigos, porém, as piadas dela não pegam. Ou chegam três segundos atrasadas, ou ela mesma estraga antes com um “deve ser besteira, mas...”.

Faltam a ela três coisas que quase nada têm a ver com capacidade de raciocínio. A primeira é o volume. Frases engraçadas nascem aos montes e a maioria é fraca; quem nunca fala em voz alta não tem de onde escolher e nem descobre qual funcionou e por quê.

A segunda é a coragem. Uma tirada é uma aposta pública, e o silêncio depois de uma piada malsucedida dura, na cabeça de quem falou, muito mais do que na realidade. Quem não quer correr esse risco tem a frase na cabeça mas engole, e o pessoal em volta passa a conhecer essa pessoa como alguém que não brinca.

Some-se a isso algo que distingue o humor da maioria dos outros desempenhos da cabeça. Uma equação você resolve sozinho na mesa e sabe que está certa mesmo que ninguém veja. Na piada, a nota quem dá é a plateia, na hora e em voz alta, e contra esse veredito você não faz nada. Uma cabeça rápida produz o semiacabado; o produto pronto sai da reação dos outros.

E tem ainda a leitura do ambiente. A mesma frase engata a noite com os amigos antigos e, num almoço com cliente novo, fica pendurada no ar. Essa parte nem a cabeça mais rápida salva, porque não se apoia em velocidade e sim em atenção aos outros. Que dá para treinar igual ao volume e à coragem é o que desenvolve o texto sobre como ser engraçado.

A piada como pensamento rápido em voz alta

Quando você desmonta uma frase bem-sucedida em peças, sai dali uma lista de capacidades que à primeira vista não têm ligação entre si. Parte delas os testes de capacidade de raciocínio captam bem; outra parte, nem um pouco.

O que a piada exige O que está por baixo O quanto os testes medem
Notar o desencaixe Reconhecer que algo sai da regra Bastante, fica perto das tarefas de achar padrões
Achar a segunda leitura Flexibilidade com palavras e troca de perspectiva Bastante, principalmente na parte verbal
Segurar as duas leituras juntas Memória de trabalho, ou seja, quanto você carrega na cabeça ao mesmo tempo Em parte, entra na maioria das tarefas
Avaliar para quem você fala Leitura do clima e da situação do grupo Quase nada
Acertar o momento Timing: quando começar a falar e quando ficar quieto Nada
Arriscar o silêncio Disposição a passar vergonha diante dos outros Nada

A parte de cima da tabela explica por que a ligação apareceu para Greengross e Miller. A de baixo explica por que ela não saiu mais forte.

Vale parar em especial na memória de trabalho. Para a tirada encaixar, você precisa segurar por um instante as duas versões da frase ao mesmo tempo, a esperada e a outra. Quem está cansado ou irritado não tem essa capacidade livre, e por isso o humor não funciona nem como produção nem como recepção para quem está no meio de uma briga ou depois de uma noite sem dormir.

E agora, com sinceridade: quando foi a última vez que você tinha a tirada pronta na cabeça e não falou? O que te segurou? Se foi achar que não estava boa o bastante ou não ter certeza sobre as pessoas em volta, isso já indica bem qual peça manca em você.

Sinal, não diploma

A graça pode ser lida como sinal. Quem acerta a tirada com regularidade mostra de passagem que a cabeça dele pega rápido, que segura mais de uma leitura da mesma situação e que não perde o que acontece na sala. É informação, não certificado: fala de probabilidade, não da pessoa específica na sua frente.

A direção contrária é mais traiçoeira e vale dizer sem rodeios. Não ter graça não é marca de burrice. Muita gente é engraçada só por escrito, em mensagens curtas, onde dá para esperar a segunda leitura chegar. Outros são hilários dentro da própria área, onde a tirada se apoia em coisas que um punhado de pessoas entende, e no bar não sobra nada disso.

Isso fica mais claro numa língua estrangeira. Quem se muda para outro país perde o próprio humor primeiro e recupera por último, porque a tirada se apoia em nuances de palavras e no que naquele país todo mundo conhece. Por um ano ou dois a pessoa passa por séria e sem brilho, embora nada tenha mudado na cabeça dela. Mudou apenas o repertório disponível.

Em terceiro lugar está a diferença entre criar e apreciar. Tem gente que quase não conta piada mas ri primeiro e melhor do que todo mundo na sala, porque acha a segunda leitura antes dos outros. De fora parece alguém sem humor. Na prática resolve a mesma tarefa, só não entrega em voz alta.

Em que posição o seu jeito de brincar costuma cair é o que descrevem quatro estilos que se diferenciam pelo tom e pela direção da mira: o panorama está no texto sobre estilos de humor, e um enquadramento aproximado vem do breve teste de estilos de humor. Nenhum dos dois diz nada sobre o quanto você é inteligente. Ambos falam de um hábito que você criou ao longo dos anos, e hábito dá para ajustar.

Na próxima mesa em que sentar, tente reparar numa coisa. Não em quem fala mais, e sim em quem cai na risada meio segundo antes dos outros. Essa pessoa em geral não esperou a tirada, chegou nela sozinha.

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