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Trabalho e produtividade

Humor no trabalho: onde ajuda e onde queima

A mesma tirada une o time ou cala uma pessoa. O que a pesquisa achou sobre humor na equipe, por que rimos mais do chefe e onde está o limite.

A reunião já passa de uma hora e o prazo está desmoronando. Camila comenta que esse cronograma foi claramente montado por alguém que conta o mês com vinte dias, e a mesa ri. A tensão cede e as pessoas finalmente começam a falar do que ainda dá para salvar.

Duas semanas depois o mesmo time está no mesmo aperto e a piada vem de Rafael. Ele solta que o atraso é culpa da “abordagem criativa do Bruno para estimativas”. Silêncio. Bruno sorri do jeito que as pessoas sorriem quando não têm escolha, e o resto da reunião gira em torno de quem mandou o quê e quando.

As duas piadas foram igualmente rápidas e as duas miraram a mesma coisa: o fato de que ninguém vai entregar no prazo. Diferiam em um ponto só, ou seja, em quem era o alvo e se esse alvo podia responder. Essa diferença explica a maior parte do que o humor consegue fazer no trabalho e a maior parte de onde ele quebra com regularidade.

O que o humor faz de verdade com um time

O costume de tratar a risada como amaciante do dia de trabalho tem apoio na pesquisa, só que bem mais cauteloso do que costuma ser vendido. Uma metanálise conduzida em 2012 por Jessica Mesmer-Magnus revisou dezenas de estudos sobre humor no ambiente de trabalho e encontrou um quadro razoavelmente consistente. Onde as pessoas riem juntas e com boa intenção, o time costuma ser mais coeso, relata menos estresse e uma relação melhor com quem lidera.

Ao mesmo tempo, é honesto dizer duas coisas. O efeito é moderado, então o humor não é a alavanca que levanta um time quebrado; é mais parecido com lubrificante, perceptível na facilidade com que as engrenagens se encaixam. E trata-se de uma associação, não de prova de direção: pode valer igualmente que nos times em que as coisas fluem simplesmente se ria mais, porque há motivo.

Mais interessante ainda é do que a gente ri no trabalho. Robert Provine passou anos gravando conversas comuns na rua e em escritórios e, num livro de 2000, resumiu que a maior parte do riso não vem depois de piadas. Vem depois de frases completamente banais do tipo “então eu vou indo” ou “não acredito”. O riso, segundo os dados dele, é cerca de trinta vezes mais provável em companhia do que sozinho, o que faz dele mais um sinal social do que uma resenha da tirada.

Para uma reunião, daí sai bastante coisa. Quando oito pessoas riem do seu comentário, isso não é necessariamente uma avaliação da piada, e sim a informação de que aquela mesa torce por você. Por outro lado, o silêncio depois de uma boa tirada não quer dizer que ela não tinha graça, apenas que tem alguma coisa pairando na sala. E aparece repetidamente que as pessoas riem com mais facilidade de quem está mais acima na hierarquia, então a melhor proporção de risadas por piada na sala costuma ser a do chefe.

Quando foi a última vez que você riu no trabalho de algo que não tinha graça nenhuma? A maioria de nós faz isso quase toda semana e não sente como fingimento, porque não é. É um jeito de dizer “estamos de boa” num lugar onde a frase “estamos de boa” soaria estranha.

Daí vem também um aviso contra a simplificação. Muita risada num time não é, por si só, prova de que as pessoas estão bem ali. Na confraternização obrigatória também se ri, só que essa risada paga um pedágio à situação. A diferença costuma ser ouvida em quem começa a brincadeira: onde o time se acertou, entram também os mais calados, e não sempre as mesmas duas vozes.

Quatro registros na mesma mesa

O psicólogo Rod Martin descreveu em 2003 o humor como combinação de dois eixos independentes. O tom pode ser gentil ou afiado, e você pode mirar nos outros ou em si mesmo. Saem daí quatro posições e ninguém é só uma delas. A maioria das pessoas tem duas mais fortes e no trabalho ainda usa um registro mais estreito do que em casa.

Estilo Como soa na reunião O que faz com o time Onde desanda
Agregador O comentário que destrava uma discussão emperrada. Um caso do projeto anterior, uma piada sobre a situação e não sobre as pessoas. Constrói confiança rápido. Quem acabou de chegar relaxa perto desse colega já na primeira reunião. Quando a leveza vira obrigação, a má notícia fica mais difícil de dar e o assunto sério não acha por onde entrar.
Fortalecedor Costuma ser quase inaudível. Aparece como distanciamento na hora em que o servidor cai ou um cliente vai embora. Segura a calma onde os outros entram em pânico, e essa calma se espalha. O que já vira história na hora pode não chegar a ser resolvido. O distanciamento também encobre um problema que pedia solução.
Ácido O comentário certeiro que nomeia o que todo mundo vê e ninguém fala em voz alta. Entre pessoas que confiam umas nas outras, funciona como atalho para a sinceridade. O alvo não consegue se defender quando é novo, está sozinho ou dois andares abaixo. Aí não é piada, é recado sobre posição.
Autodepreciativo O próprio mico contado antes que outra pessoa consiga mencioná-lo. Desarma, encurta a distância e dá aos demais permissão para não serem perfeitos. Como posição padrão, ensina o entorno a não levar a sério as suas dificuldades. Na avaliação de desempenho isso volta.

Os eixos são independentes entre si, então você encontra com frequência alguém que na reunião agrega com gentileza e no cafezinho não poupa ninguém. O quarteto inteiro e suas combinações habituais aparecem com mais detalhe no panorama dos estilos de humor.

Humor de cima: autoironia sim, sarcasmo com cuidado

A piada de quem lidera não pesa o mesmo que a piada de um colega. Pesa mais, porque além do conteúdo carrega a informação sobre o que é permitido no time e sobre quem está em apuros no momento. Não dá para escapar dessa amplificação; dá só para contar com ela.

De cima, o que funciona melhor é o humor voltado para si mesmo. Quando Camila, como líder, abre a reunião admitindo que nem ela entendeu o próprio slide de ontem, faz duas coisas de uma vez. Reduz a distância de poder e mostra que aqui um erro assumido não custa a cabeça de ninguém. O time leva mais disso do que de um treinamento de duas horas sobre cultura aberta.

Existe uma condição que costuma ser esquecida. A autoironia de cima funciona enquanto ninguém duvida da sua competência, porque aí ela é lida como sinal de segurança. Quem assumiu o cargo há uma semana e já começa a se diminuir corre o risco de ser levado ao pé da letra, com o entorno completando o resto do próprio jeito.

Sarcasmo de cima é outro caso. Entre iguais é um jogo em que os dois lados devolvem o saque. Assim que a hierarquia segura um dos lados, o saque não volta: quem está abaixo ri porque rir é a reação mais barata, e sai com a sensação de ter levado uma bronca diante de testemunhas. Enquanto isso, quem lidera sai com a sensação de ter aliviado o clima.

O interessante é que a alfinetada em si não tem nada de burra. Os experimentos publicados em 2015 por Li Huang, Francesca Gino e Adam Galinsky mostraram que uma troca sarcástica aumentou a criatividade dos dois lados, de quem falou e de quem recebeu. A condição, porém, era confiança mútua. Sem ela, da troca sobra só a metade desagradável, e é exatamente nessa situação que um chefe cai com facilidade, porque não pode presumir confiança mesmo quando ele próprio a sente.

Onde termina a provocação

O humor afiado é o que mais se discute nos times e também o que se resolve pior, porque vira rápido uma briga sobre intenções. “Mas foi só brincadeira” contra “eu não achei graça”. Essa briga ninguém vence e ela é dispensável, porque a diferença não é feita pela intenção, e sim pela posição do alvo.

Dacher Keltner e seus colegas descreveram em 2001 a provocação como um jogo social com regras. Entre pessoas próximas funciona como demonstração de afeto: é dos dois lados, troca de alvo e carrega sinais claros de que “isto é brincadeira”, ou seja, o tom, o sorriso, o exagero. Sem confiança, da mesma frase sobra o conteúdo nu, e o conteúdo nu machuca.

No trabalho dá para observar algumas coisas, e elas se verificam mais fácil do que os pensamentos alheios:

  • Volta? Onde os dois lados provocam, é jogo. Onde as flechas vão sempre na mesma direção, é outra coisa.
  • Se repete? Um comentário mais afiado é um comentário; o mesmo pela trigésima vez é um papel que alguém recebeu sem ter pedido.
  • Um alvo que não tem como sair do jogo não está jogando nada. Quem chegou agora, ou está dois andares abaixo, não consegue mostrar que aquilo incomoda sem chamar ainda mais atenção.
  • A plateia também conta. A piada às custas de um colega ausente não aproxima o time, apenas redistribui por um tempo quem está de fora naquele momento.

Na maioria das vezes não há má intenção, e sim inércia. Alguém ganha um apelido na entrada, o apelido pega e um ano depois virou um papel que ninguém mais revisa, porque a pessoa aprendeu nesse meio-tempo a caber nele. Quem distribuiu esse papel em geral não percebe. Quem o carrega em geral não fala nada, porque a seus próprios olhos estaria confirmando que não sabe levar na esportiva.

Nada disso é convite ao silêncio precavido. Um time em que ninguém se arrisca a dizer nada não é mais saudável, só mais quieto, e um comentário afiado entre pessoas que confiam umas nas outras está entre as formas mais rápidas de colocar uma verdade incômoda na mesa. É questão de dose e de direção, e essa fronteira é fina o bastante para merecer um texto próprio sobre onde acaba a brincadeira e começa o deboche.

Entrevista e cliente: a dose conforme a sala

Na entrevista de emprego o humor ocupa uma posição estranha. É um dos poucos sinais com que se consegue mostrar calma e, ao mesmo tempo, uma situação em que você tem menos informação sobre a sala do que qualquer outro presente. Combinação desconfortável.

Sai bem o humor voltado para a situação: que você se perdeu no prédio, que é a quarta entrevista da semana, que o café aqui é mais forte que na média. Arriscado é se diminuir, mesmo que na vida comum você use isso como seguro. Ele só funciona onde o entorno já sabe do que você é capaz, porque só então soa como autoconfiança. Na entrevista ninguém sabe, e uma fraqueza assumida é lida ao pé da letra; é exatamente para isso que aquela hora existe.

Piada às custas do empregador anterior nunca dá certo, nem quando é verdadeira. Quem está do outro lado da mesa deduz automaticamente como você vai falar dele um dia, e esse pensamento não sai mais da cabeça.

Com clientes vale algo parecido, só que num prazo maior. O razoável é acompanhar o humor deles e se ajustar, não instalar o seu. Quando o cliente alivia, alivie também; quando não, mantenha o tom objetivo e não tente fabricar clima, porque graça forçada parece nervosismo. A piada sempre carrega também a informação de quão a sério você está levando a situação, e quem paga pelo seu trabalho lê essa informação com atenção.

Uma regra vale manter firme: sarcasmo por escrito não funciona. No e-mail faltam tom, ritmo e rosto, então uma alfinetada que na mesa passaria como exagero chega como cobrança. Rafael comprovou isso quando escreveu a um cliente que “o briefing de vocês está lindamente aberto a todas as interpretações”. Queria dizer aquilo como um suspiro sobre si mesmo e sobre quantas vezes já tinham refeito o trabalho. O cliente leu como acusação, e dois telefonemas seguintes foram gastos com algo que nunca existiu.

As videochamadas têm a própria armadilha. A piada depende do tempo e de você ver a reação dos outros, só que numa chamada de oito pessoas metade das câmeras está desligada, o áudio chega com um atraso mínimo e ninguém sabe se ri alto ou se basta balançar a cabeça. Um comentário que na sala passaria cai então no vazio, e quem falou sai com a sensação de que ninguém valorizou. À distância compensa brincar meio grau mais leve do que na mesa e guardar as versões afiadas para quando vocês se encontrarem pessoalmente.

Como descobrir o seu registro no trabalho

A maioria das pessoas tem no trabalho um humor diferente do de casa e o conhece bem pior. Em casa uma amizade de anos te corrige, porque pode se dar a esse luxo. No trabalho o retorno sobre uma piada quase nunca volta, já que ninguém quer dar: o colega a quem os seus comentários não agradam simplesmente não fala nada, só afasta um pouco a cadeira.

Para uma estimativa decente bastam catorze dias. Depois de cada reunião ou ligação, anote uma frase: o que você disse com intenção de fazer rir, quem era o alvo (a situação, você mesmo, uma pessoa específica, ninguém) e quem riu. Nada além disso, nenhuma avaliação. Depois de duas semanas, dessas anotações emerge um registro que você desconhecia e, para muita gente, também um nome que aparece na coluna do alvo mais vezes que os outros.

Um ponto de partida mais rápido é o teste de estilos de humor. Ele pergunta sobre situações comuns, e o resultado convém tomar como hipótese a conferir nas suas próprias reuniões, não como rótulo. Registro de humor é hábito que dá para afinar, não sentença.

E mais uma coisa que você consegue fazer já amanhã. Depois da próxima reunião, não recupere o que você disse, e sim quem naquele instante estava olhando para a mesa. Esse olhar é uma medida mais exata do que qualquer questionário e custa a você apenas olhar em volta antes que todo mundo se levante.

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