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Personalidade e autoconhecimento

Como descobrir o seu estilo DISC (e por que as pessoas erram o chute)

Como descobrir o seu estilo DISC: por que a autoavaliação erra, como preencher o teste, o que somar do que vem dos outros e como ler o resultado.

Rafael tinha certeza da própria letra antes de abrir a primeira pergunta. Decide rápido, não suporta reuniões longas e costuma ser o primeiro a falar. D na certa.

O teste deu outra coisa. No topo terminou a Influência, logo atrás a Estabilidade, e a Dominância só em terceiro. A primeira reação foi que o teste estava errado.

Mas, quando ele revisou os critérios com que tinha se avaliado, aquilo começou a fazer sentido. A rapidez que ele toma por decisão é principalmente a vontade de conversar sobre a coisa na hora e em voz alta. Ele fala primeiro na reunião porque o silêncio na sala o incomoda. E, quando é preciso vencer alguém pelo voto, em geral deixa isso para outra pessoa.

Estimar o próprio estilo parece uma tarefa simples. O problema é que julgamos a nós mesmos pela intenção, enquanto o DISC descreve o comportamento que se vê de fora. Entre uma coisa e outra costuma haver mais distância do que se espera.

Por que a autoavaliação erra tanto

Você se compara com as pessoas que tem em volta

Quando você responde no questionário que age rápido, não tem na cabeça uma medida absoluta. Tem na cabeça as pessoas com quem divide o escritório.

Os psicólogos Steven Heine, Darrin Lehman, Kaiping Peng e Joseph Greenholtz chamaram atenção para esse mecanismo em 2002, sob o nome de efeito do grupo de referência. Em escalas subjetivas, as pessoas se medem automaticamente com o meio em que vivem. Eles mostraram isso na comparação entre culturas, só que a mesma armadilha espera dentro de uma única equipe.

Uma contadora que trabalha entre analistas se sente a rápida e a ousada. A mesma mulher, em um departamento comercial, responderia de outro jeito às mesmas perguntas, porque estaria se medindo com gente que liga para o cliente antes de terminar de ler o escopo. Não mudaria ela, apenas a régua.

Você lê a descrição que gostaria de ter

As descrições dos estilos são escritas de modo que nenhuma pareça um defeito. Ainda assim, a maioria das pessoas deseja uma delas mais do que as outras. No ambiente de trabalho isso costuma ser o D, porque palavras como decisão, foco no resultado e responsabilidade soam melhor no currículo do que paciência. Quem quer se ver no estilo D lê a descrição através dos próprios dias bons e vai balançando a cabeça.

Tente responder agora com sinceridade: do que você diria em voz alta sobre o seu comportamento, quanto descreve como você age de verdade e quanto descreve como você quer agir?

Você responde a partir de um único papel

O comportamento pode ser ajustado, e a maioria das pessoas faz isso no trabalho por tanto tempo que a versão aprendida passa a parecer natural. Um técnico de manutenção que em casa não discute com ninguém negocia prazos com dureza no trabalho há dez anos seguidos, porque de outro jeito ninguém os cumpriria.

O resultado é o estilo que você tem treinado, não aquele que custa menos energia. A solução não é preencher o teste duas vezes e torcer para que os números se encontrem em algum ponto. Basta escolher de antemão um ambiente e responder o tempo todo a partir dele.

O que o questionário consegue e o que não

O questionário não conserta o modo como você se vê. Mas faz uma coisa útil: ele não pergunta a sua letra, pergunta sobre situações concretas. Com isso a estimativa se decompõe em dezenas de decisões pequenas, nas quais a autoimagem se sustenta pior do que em uma única pergunta do tipo “como eu sou”.

O nosso teste DISC tem 32 perguntas, oito para cada estilo, e responde-se em uma escala de cinco pontos. Cada estilo recebe o próprio número, de zero a cem, então dali não sai um rótulo, e sim quatro valores lado a lado. De onde vieram os quatro estilos e onde o modelo termina está resumido no texto sobre o que é o DISC.

Para que o resultado valha alguma coisa, vale cuidar de algumas coisas:

  • Responda com base no último mês, não nos seus melhores dias.
  • Fique em um único ambiente. Na maioria das vezes faz sentido o trabalho, que foi para o que o modelo nasceu.
  • Não pense mais do que alguns segundos em cada item; a primeira resposta costuma ser mais precisa do que a argumentada.
  • Não tente adivinhar o que cada pergunta mede. É justamente por isso que os itens estão misturados no teste.

A segunda fonte, de que todo mundo se esquece

A psicóloga Simine Vazire comparou, em 2010, quem acerta melhor o caráter de uma pessoa, ela mesma ou quem está em volta. A resposta depende do tipo de característica. Em coisas internas, como a ansiedade, o mais preciso é o próprio indivíduo. Em características que são avaliadas, como o intelecto, os amigos acertavam melhor. E na extroversão, ou seja, naquilo que se vê por fora, os dois lados foram mais ou menos igualmente precisos.

Para o DISC decorre daí uma conclusão bem prática. O modelo descreve o comportamento na superfície, então a opinião de um colega não é só impressão, é material de pleno valor.

Mas não pergunte “que estilo você acha que eu tenho”. A maioria não sabe do que se trata e vai responder de um jeito que não irrite você. Pergunte coisas concretas:

  • Quando eu mando uma mensagem para você, ela é mais curta ou mais falante?
  • O que você ouve de mim com mais frequência: quando isso fica pronto ou o que os outros acham?
  • Quando foi a última vez que eu atrasei você? E quando foi que eu atropelei você?
  • O que eu deveria parar de fazer para ficar melhor trabalhar comigo?

Pergunte a duas pessoas de ambientes diferentes, de preferência um colega e alguém da família. Se concordarem, você tem a resposta. Se divergirem, você ficou sabendo de algo ainda mais valioso: que o seu comportamento muda bastante entre esses dois mundos.

Terceira fonte: o seu próprio rastro

O comportamento deixa um registro que você lê sem ajuda de ninguém. Abra a caixa de enviados e passe pelas últimas vinte mensagens de trabalho. Qual é o tamanho delas? Começam pela conclusão ou pelo contexto? E, quando era preciso resolver alguma coisa, você escreveu ou pegou o telefone?

O segundo registro é a agenda. Quanto da semana passada você passou com pessoas e quanto sozinho em um trabalho no qual ninguém se metia? Quem já convoca a reunião se comporta de um jeito diferente de quem prefere mandar o documento e esperar comentários.

Rastro do último mês Aponta mais para
Mensagens de três frases, com a conclusão já na primeira linha D
Em vez de escrever, você pega o telefone, porque assim se conversa melhor I
Você pergunta o que a mudança faz com as pessoas que já estão nisso há uma semana S
Antes de responder, você busca os números e o link da fonte C

O último rastro é o cansaço. Qual dia deixou você mais esgotado: o de sete conversas ou o passado sozinho com uma planilha? O comportamento que custa menos energia costuma ser aquele em que sai a sua pontuação mais alta.

Como ler o resultado

O resultado não são letras, são quatro números, e as diferenças entre eles dizem mais do que a ordem. O estilo mais alto é o primário. Se o segundo colocado estiver até quinze pontos abaixo dele, conta como secundário, e juntos formam um dos dezesseis arquétipos; cada dupla está destrinchada no panorama dos perfis combinados.

Um perfil equilibrado, em que os quatro números ficam próximos, não é medição estragada. Em geral pertence a quem se adapta a quase qualquer situação, só que ao preço de os outros terem mais dificuldade de prever o que esperar.

O número mais baixo costuma ser tão útil quanto o mais alto. Ele não aponta um defeito a corrigir, e sim as situações em que cada passo custa a você mais força do que a qualquer outra pessoa na sala. Quem tem a Conscienciosidade na lanterna não trabalha de qualquer jeito; apenas se esgota conferindo detalhes antes de se esgotar com a própria tarefa.

E há a durabilidade. O DISC descreve comportamento, e comportamento muda com o ambiente, então depois de um ano em outra função o resultado pode ficar diferente. Não é falha do teste, é uma propriedade daquilo que ele mede. Nisso o modelo se diferencia das tipologias que miram preferências de pensamento mais estáveis, como mostra a comparação entre DISC e os 16 tipos de personalidade. Nos dois casos, tome a comparação com os demais como aproximada, não como norma.

Quando o resultado estiver na tela, faça um teste com ele. Leia a descrição do seu estilo em voz alta para alguém que trabalha com você todo dia e não comente nada até o fim. Se essa pessoa rir exatamente na frase que pareceu exagerada a você, você sabe mais sobre si do que saberia preenchendo o questionário uma segunda vez.

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