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Psicologia e bem-estar

Procrastinação crônica: quando adiar comanda a vida

Quando adiar deixa de ser um mau hábito e vira um padrão nocivo? Sinais da procrastinação crônica, ligações com a mente e quando buscar ajuda.

A declaração de imposto de renda que Camila adiou por dois anos. Ela entregou depois do segundo aviso e pagou uma multa do tamanho de umas férias decentes. Os formulários ela domina, cuida da contabilidade de uma empresa pequena, e era exatamente isso que ninguém à volta dela conseguia entender.

Todo mundo adia. Em parte das pessoas, porém, adiar não é humor nem uma fase difícil. É um padrão estável que se arrasta por anos e transborda de uma área da vida para a seguinte. A psicologia chama isso de procrastinação crônica.

Onde termina o mau hábito e começa o padrão

Adiar de vez em quando é situacional. Está à sua frente uma planilha chata, o dia está quente, você empurra para amanhã e amanhã faz. O prejuízo é nulo ou pequeno e a culpa evapora até a noite.

O adiamento crônico funciona de outro jeito. Joseph Ferrari, que estuda procrastinação há décadas, descreveu com colegas em uma pesquisa internacional de 2007 que cerca de um quinto dos adultos adia como tendência permanente, e não como uma oscilação ocasional. Não se trata de gente que perdeu um prazo uma vez. Trata-se de gente para quem “não vou conseguir” é um roteiro que se repete ao longo de anos.

A amplitude também pesa. Dos trabalhos de Ferrari se depreende que quem procrastina de forma crônica não adia apenas no trabalho. Adia em casa, na saúde, no dinheiro e nas relações. Quando o adiamento fica preso a uma única área, costuma dizer mais sobre aquela área do que sobre a pessoa: o cargo que não encaixa, uma tarefa mal passada, um chefe com quem não dá para conversar.

Do padrão crônico convém separar a simples sobrecarga. Quem tem três filhos, um emprego em tempo integral e um pai doente adia por outro motivo do que alguém com as noites livres. No primeiro caso não falta vontade, faltam horas na agenda. Uma boa pista é a pergunta sobre o que acontece quando a pressão alivia. A pessoa sobrecarregada põe as coisas em dia. No padrão crônico, o tempo liberado se enche de outra coisa.

Camila não adiava só os impostos. Adiava também renovar a carteira de motorista vencida, o telefonema para o irmão depois de uma briga e a decisão sobre sair ou não do emprego atual. Essa decisão levou quatro anos amadurecendo. Não porque ela fosse incapaz de tomá-la, mas porque cada tentativa gerava tanta pressão que era mais fácil voltar ao assunto da próxima vez.

Como reconhecer o adiamento crônico

Não existe fronteira nítida entre “às vezes empurro uma coisa” e um padrão crônico, porque isso é um contínuo. Alguns sinais, ainda assim, se repetem em quem carrega um padrão de longa data:

  • Duração medida em anos, não em semanas. O padrão sobreviveu a vários empregos, várias viradas de ano e várias promessas.
  • O adiamento se muda de área. Trabalho em dia, saúde negligenciada. Ou exatamente o contrário.
  • Prejuízos reais: multas, prazos perdidos, direitos não usados, oportunidades desperdiçadas.
  • Falha até o que ajuda os outros. Calendários, aplicativos e sistemas de planejamento duram uma semana e depois desmoronam.
  • O ritmo do dia: plano de manhã, cobrança à noite, e no dia seguinte tudo de novo do zero.
  • Você adia também aquilo que espera com vontade.

Esse último ponto costuma pegar as pessoas de surpresa. Adiar não atinge só as obrigações desagradáveis. A viagem que você pretende reservar há anos. O amigo para quem você sempre vai escrever. No armário está o equipamento lacrado de um hobby que você queria começar dois verões atrás. As coisas agradáveis têm uma desvantagem: ninguém marca prazo nem multa para elas, então dá para empurrá-las indefinidamente.

A segunda surpresa tem a ver com quem passa por isso. A imagem de uma pessoa indiferente, que não liga para nada, quase sempre erra o alvo. Com frequência, o adiamento se alimenta do oposto. A tarefa importa, a régua está alta e o resultado precisa se sustentar. Quanto mais uma coisa importa, maior a pressão que acompanha o começo e mais tentador fica empurrá-la por um dia.

Tente responder com honestidade: quantas das coisas que você adiou neste mês já vinha adiando no ano passado?

O que custa o adiamento crônico

O dinheiro é o item mais fácil de medir. Multas e juros por entrega fora do prazo, cobranças, prazos de garantia e de reclamação vencidos, benefícios não usados, a versão mais cara de tudo que se resolve na última hora. Uma passagem aérea comprada três dias antes custa outro dinheiro do que a mesma passagem comprada em março.

Entre os prejuízos está também o que nunca chegou a existir. A inscrição que não foi enviada. A proposta cuja resposta saiu um mês depois. Itens assim são difíceis de contabilizar, porque não há nota fiscal em lugar nenhum, apenas nada aconteceu. Depois de quatro anos hesitando, Camila fez as contas: a diferença de salário entre o cargo antigo e o novo somava, naquele período, o preço de um carro usado.

A saúde é o item mais silencioso. Fuschia Sirois e seus colegas descreveram em 2003 que pessoas com tendência à procrastinação cuidam pior da própria saúde e adiam consultas médicas, incluindo exames preventivos. Trabalhos posteriores dela ligam a procrastinação a níveis mais altos de estresse. Aqui o adiamento não custa multa, custa o tempo em que o problema seria resolvido com mais facilidade.

As relações pagam em falta de confiabilidade. O problema é que de fora ninguém enxerga o que se passa dentro. Vê-se apenas um “eu faço” repetido, depois do qual nada vem, e isso é lido como desinteresse.

Rafael prometeu à irmã que ajudaria a vender o apartamento deixado pelos pais. Ele falava sério. Em oito meses nada aconteceu, a irmã acabou resolvendo sozinha e desde então não pediu mais nada a ele. Nunca conversaram sobre o assunto. Ela acha que ele não se importava. Ele sabe que pensava naquilo quase todo dia e que fechava o notebook todas as vezes.

Procrastinação e saúde mental

Aqui cabe cautela. A associação entre adiamento intenso, ansiedade e quadros depressivos aparece nos dados repetidamente. O que daí não decorre é a direção da seta. As relações provavelmente correm nos dois sentidos, e correlação não é causa, ainda que textos de divulgação misturem as duas coisas com frequência.

Adiar pode ser um sintoma, e não a raiz do problema. Quando alguém atravessa um episódio depressivo, um esgotamento profissional ou um cansaço prolongado, a capacidade de começar coisas cai por si só. Falta energia, não vontade. Chamar isso de preguiça e ainda somar cobranças só piora a situação, porque as cobranças consomem o resto da capacidade.

A direção contrária também existe. Anos de pendências acumuladas criam um estresse que roda em segundo plano até nos momentos em que você não está fazendo nada. A correspondência sem abrir na gaveta não é só papel. É um lembrete que se manifesta às três da manhã.

Por baixo de tudo isso corre mais um mecanismo: a autocrítica. Depois de uma tarefa não cumprida vem o xingamento dirigido a si mesmo, esse xingamento piora o humor, e o humor pior reduz a chance de você voltar à tarefa hoje. Forma-se um laço em que o castigo pelo adiamento prolonga o próprio adiamento. Por isso a terapia costuma começar por como você fala consigo depois de falhar, e não pela agenda.

Consequência prática: se o adiamento apareceu de repente, junto com problemas de sono, perda de interesse por coisas que antes davam prazer ou cansaço permanente, não é primariamente uma questão de disciplina. É um sinal de que algo diferente precisa de atenção antes da lista de tarefas.

Quando faz sentido procurar um profissional

A autoajuda tem teto e é justo dizer isso. Se o seu adiamento vem prejudicando há muito tempo as suas finanças, a sua saúde ou as suas relações e você já tentou quebrá-lo sozinho várias vezes, não há motivo para seguir assim por mais um ano. Sessões com um psicólogo ou psicoterapeuta são, nessa situação, uma decisão prática, não a admissão de uma derrota.

Na procrastinação, dá bons resultados a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Ela trabalha com os padrões de pensamento que movem o adiamento (“tem que sair perfeito”, “preciso estar no clima”, “ainda não tenho informação suficiente”) e os complementa com treino concreto: dividir a tarefa, expor-se aos poucos àquilo que você evita e planejar contando com a sua capacidade real, não com uma versão ideal de você. Costuma ser um trabalho de meses, não de anos.

Para a primeira sessão você não precisa chegar com uma explicação pronta sobre por que faz isso. Basta descrever o que fica pendente no seu caso, há quanto tempo isso dura e o que você já tentou. O terapeuta normalmente percebe rápido se está diante de um padrão em torno de desempenho e julgamento, de uma esquiva de emoções desconfortáveis, ou de algo que só aparentemente se liga à procrastinação. Muitos profissionais hoje atendem on-line, o que tira um obstáculo de quem adia até o ato de marcar a consulta.

Quando o adiamento faz parte de um quadro depressivo ou de ansiedade, os dois são tratados juntos e um primeiro passo pode ser o clínico geral. Quando ele vem desde a infância e é acompanhado de dificuldade de concentração, impulsividade e caos nas coisas comuns, vale considerar uma avaliação de TDAH.

O menor primeiro passo possível

Escolha uma coisa. Não uma lista e não um sistema, um único item, e o menor que vier à cabeça. Não “resolver o imposto”, mas “achar a pasta com os comprovantes e deixar em cima da mesa”. O objetivo não é o progresso, e sim quebrar o automatismo em que a tarefa escorrega um pouco mais para a frente todo dia.

A segunda coisa é mapear o que dispara o seu adiamento. Adia-se de um jeito por tédio e rejeição ao trabalho em si, de outro por medo de que o resultado não seja bom o bastante, e de outro ainda porque a cada dez minutos uma notificação arranca você dali. Um panorama desses mecanismos está no texto sobre tipos de procrastinação. Se quiser uma estimativa mais rápida, o nosso teste de procrastinação tem 21 perguntas, leva cerca de três minutos e mostra qual das três fontes predomina em você e em que faixa se move o seu nível geral de adiamento. É uma ferramenta de autoconhecimento, não um diagnóstico.

Se a descrição que combina mais com você for a de atenção fragmentada e caos, em vez de perfeccionismo, veja a relação que o texto sobre procrastinação e TDAH destrincha. Os procedimentos concretos, do trabalho com o ambiente até a divisão de tarefas grandes, estão reunidos no guia sobre como parar de procrastinar. Num padrão crônico, porém, as técnicas sozinhas geralmente não bastam. Sem trabalhar a emoção que empurra o adiamento, elas desmoronam do mesmo jeito que todos os aplicativos anteriores.

Camila entregou a declaração seguinte fora do prazo também. Por duas semanas, não por dois anos. A terapeuta chamou isso de progresso, o que na hora a irritou, porque ela esperava que finalmente fosse normal. Sair de anos para semanas é, ainda assim, uma medida mais realista para um padrão de tantos anos do que uma mesa limpa.

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