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Trabalho e produtividade

Tipos de procrastinação: 3 motivos para adiar

Tédio, medo ou distração? As três fontes da procrastinação, como reconhecer a sua dominante e por que cada uma pede uma solução diferente.

Três pessoas do mesmo time precisam entregar a mesma apresentação até sexta. Rafael abre o arquivo na terça, lê o primeiro slide e fecha tudo, porque o assunto o entedia quase fisicamente. Camila abre esse arquivo cinco vezes por dia, reescreve um título e logo apaga. O colega deles, Bruno, começou de verdade, só que aí chegou uma mensagem, depois ele foi “dar uma olhadinha” em algo na internet, e já eram quatro e meia.

De fora é um único comportamento: na sexta de manhã ninguém terminou. Por dentro são três histórias completamente diferentes. É exatamente por isso que faz sentido falar em tipos de procrastinação em vez de tratar a procrastinação como uma característica só. O conselho que coloca Rafael de pé prejudica Camila sem falha.

O rótulo “procrastinador” não resolve nada

Chamar alguém de procrastinador descreve o resultado, não a causa. É parecido com dizer a três pessoas com febre que elas são “febris” e receitar o mesmo remédio para todas. O adiamento nasce de emoções diferentes, e é justamente a emoção que decide o que vai funcionar.

Piers Steel, na meta-análise de 2007, revisou centenas de estudos e concluiu que o preditor de personalidade mais forte do adiamento é a impulsividade. Entre os principais motivos situacionais aparece a aversão à tarefa, ou seja, o simples fato de a pessoa não estar a fim de fazer aquilo. Isso já sugere que, sob o mesmo comportamento, rodam pelo menos dois motores diferentes.

Fuschia Sirois e Tim Pychyl descreveram em 2013 o que une esses motores: a procrastinação funciona como um conserto de humor de curto prazo. Adiar elimina a sensação ruim na hora, e o cérebro guarda muito bem esse alívio. Adiar é, portanto, um problema de regulação emocional, não de gestão do tempo, e muito menos de preguiça.

Isso explica por que a maioria dos conselhos genéricos falha. A agenda, o aplicativo de tarefas e o sistema de prioridades resolvem o cronograma, só que o cronograma nunca foi o problema. Ninguém adia um telefonema desconfortável por não saber quando tem uma brecha livre.

Os tipos de procrastinação se diferenciam pela emoção da qual você está fugindo. No calendário, o tédio, o receio quanto ao resultado e a vontade de algo imediatamente mais interessante têm exatamente a mesma cara. Na cabeça, não. Você lembra da última coisa que empurrou para depois e, principalmente, do que sentia naquele momento?

Adiar por tédio e aversão à tarefa

A primeira fonte cabe em uma frase: “agora não, não estou com cabeça para isso”. A tarefa não é difícil nem ameaçadora. É sem graça. A prestação de contas de viagem, a transcrição das anotações de uma reunião, a atualização de uma planilha que ninguém lê mesmo.

Rafael, da abertura, é um caso de manual. Ele consegue passar três horas seguidas lapidando algo que o envolve, mas encalha num formulário de quinze minutos pelo quarto dia seguido. Não lhe falta energia nem capacidade: falta um motivo para fazer isso agora. Nesses momentos a mente oferece um acordo de aparência sensata: eu faço quando estiver de melhor humor.

Esse tipo se reconhece pela escolha do trabalho, não pela quantidade dele. Quem é travado pela procrastinação por tédio costuma chegar à noite com bastante coisa pronta. Só que não aquele item da lista, o que está parado ali desde a semana passada.

Alguns sinais que denunciam essa fonte:

  • a tarefa levaria vinte minutos e, mesmo assim, está na lista há três semanas
  • quando você finalmente começa, se surpreende com a rapidez com que termina
  • no lugar da coisa adiada você costuma fazer outro trabalho, não algo divertido
  • a primeira palavra que vem à cabeça ao pensar nela é “saco”

Ajuda qualquer coisa que dê estímulo à tarefa ou a encurte: um cronômetro de vinte minutos, trabalhar em dupla, música, juntar as tarefas chatas num único bloco com fim definido. Já um plano mais rígido e uma folga maior costumam piorar a situação, porque esticam o período em que dá para negociar consigo mesmo.

Adiar por medo e perfeccionismo

A segunda fonte fala de outro jeito: “ainda não está bom o bastante”. Aqui você adia algo que importa para você, e adia justamente porque importa. Enquanto não começou, o resultado continua teoricamente ótimo. A primeira versão imperfeita derruba essa ilusão.

Camila ficou circulando em torno da apresentação a semana inteira. Leu três apresentações parecidas da concorrência, ajustou o modelo duas vezes e escreveu duas vezes o slide de abertura, para depois selecioná-lo e apagar. Se alguém tivesse medido o tempo que ela gastou naquilo, daria mais do que Rafael e Bruno juntos.

E aqui vem a parte desconfortavelmente contraintuitiva: quem tem essa fonte em geral não parece um procrastinador. São pessoas conscienciosas, trabalhadoras e com jeito de ocupadas, porque passam horas em preparação, pesquisa e ajustes de forma. O adiamento se esconde dentro de um trabalho que parece útil, mas empurra para frente o momento em que algo avaliável precisa existir.

O que costuma destravar é o prazo. Quando faltam poucas horas para a entrega, a régua baixa sozinha e o cérebro enfim permite um trabalho “só bom”. Por isso o conselho “se dê mais tempo” fracassa com esse tipo: um prazo maior significa um período maior de dúvida e um final igualmente desesperado.

Funciona baixar a régua de propósito para a primeira versão, separar a escrita da revisão e combinar de antemão o que significa “pronto”. Melhor ainda: mostre o trabalho pela metade antes de sentir vontade de mostrar. O que envolve perfeccionismo e procrastinação merece leitura à parte, porque essa fonte adora se passar por virtude.

Adiar por impulsividade e distração

A terceira fonte tem a frase interna mais curta: “só vou dar uma olhada numa coisa”. A tarefa não incomoda você, e talvez você até tenha começado sem dificuldade. Só que no caminho apareceu algo que prometia recompensa imediata, e a atenção mudou de lugar antes que você registrasse qualquer decisão.

Bruno abriu a apresentação na segunda-feira, de verdade. Chegou uma mensagem de um colega que precisava de resposta, depois ele teve de conferir um número, e nisso o navegador acumulou onze abas enquanto do arquivo original sobraram dois parágrafos. À noite tinha a sensação de que o dia inteiro havia sumido em algum lugar, sem saber dizer exatamente onde.

A constatação de Steel sobre a impulsividade mira exatamente aqui. A diferença em relação às duas primeiras fontes está em onde fica o gatilho: ele não mora na tarefa, mora no ambiente. O adiamento, por isso, não acontece em dias, e sim em minutos que vão se somando.

O traiçoeiro é sobretudo o preço da volta. Cada desvio custa mais do que os poucos minutos que tomou, porque a gente volta devagar para um trabalho pela metade e precisa lembrar de novo onde parou. O ambiente ainda aproveita bem isso: aplicativos e mensagens são construídos para que a recompensa chegue antes de você conseguir avaliar se a quer.

Eficaz, então, é mexer no ambiente e não na motivação. Abas fechadas, celular em outro cômodo, uma única tarefa visível na tela, um bloco de tempo fixo. Quem trata procrastinação e distração com um discurso sobre disciplina briga com um sistema que tem uma vantagem enorme.

As três fontes lado a lado

A tabela a seguir resume no que os tipos de procrastinador se diferenciam na prática. Tente estimar, em cada linha, com que frequência isso acontece com você.

Fonte Gatilho Frase interna Manifestação típica O que ajuda
Tédio e aversão A tarefa é sem graça ou rotineira “Agora não, não estou com cabeça para isso.” O resto do trabalho anda bem, um item fica parado por semanas Blocos curtos com cronômetro, estímulo, juntar as tarefas chatas
Medo e perfeccionismo O risco de o resultado não ficar bom o bastante “Ainda não está bom o bastante.” Preparação infinita, reescrita do começo, espera por condições ideais Primeira versão tosca de propósito, definição clara de pronto, retorno cedo
Impulsividade e distração Um estímulo do ambiente com recompensa imediata “Só vou dar uma olhada numa coisa.” O trabalho começa, mas se despedaça em dezenas de desvios de um minuto Ajustar o ambiente, uma única tarefa visível, atrito entre você e a distração

A maioria das pessoas tem as três fontes no perfil, apenas com intensidades diferentes. Quem manda é a dominante, porque ela indica por onde faz sentido começar. A segunda colocada também diz algo: medo somado a distração tem outra cara que medo somado a tédio, embora as duas terminem num documento vazio.

E se você não se reconhecer em nenhuma

Às vezes o perfil sai equilibrado, ou seja, nenhuma fonte lidera com clareza. Não é erro de medida nem sinal de que o adiamento não seja um tema para você. Significa adiamento situacional: você reage conforme o tipo de tarefa, não conforme um padrão estável.

Uma pessoa assim empurra a declaração de imposto por tédio, a apresentação para a diretoria por receio de ser avaliada e a escrita de um texto por causa do chat aberto. Lidar com isso, então, pede outro caminho. Em vez de uma estratégia única, você precisa reconhecer de qual caso se trata agora e usar a solução correspondente da tabela acima.

A fonte ainda muda junto com o contexto. Num emprego que você curte, quem aparece mais é a distração; num estudo por obrigação, o tédio; e nas coisas em que alguém avalia você, o receio. Por isso vale rever o próprio perfil quando o trabalho ou a situação de vida mudam bastante.

Dá para descobrir a sua fonte principal de duas maneiras. A primeira é a observação: durante uma semana, anote ao lado de cada coisa adiada duas palavras sobre o que você sentia naquele momento. A segunda é um olhar estruturado de fora, porque costumamos explicar os próprios motivos de um jeito que soe mais razoável do que eles eram. É para isso que serve o nosso teste de procrastinação: 21 perguntas, cerca de três minutos, e como resultado a distribuição das três fontes e a dominante entre elas.

Encare como ferramenta de autoconhecimento, não como diagnóstico. O objetivo não é ganhar um rótulo mais preciso do que “procrastinador”, e sim saber qual emoção você está contornando na próxima vez que fechar o documento e for fazer um chá.

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