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Psicologia e bem-estar

Síndrome do impostor e perfeccionismo: o círculo que se fecha

Tarefa, tensão, madrugadas, sucesso, alívio curto e a barra mais alta. Como perfeccionismo e síndrome do impostor se prendem e onde cortar o círculo.

Diego reescreveu a apresentação pela quinta vez. Fechou a última versão à uma da manhã, apresentou de manhã cedo e o diretor disse no fim que era exatamente aquilo. Diego agradeceu e, no caminho para o almoço, ficou repassando o slide sete, aquele que deveria ter outro gráfico.

À tarde anotou na agenda que da próxima vez precisa reservar mais tempo para isso. Não porque a apresentação tenha dado errado. Porque deu certo, e ele não sabia explicar isso de outro jeito que não fossem aquelas cinco versões.

Encontram-se aqui duas coisas que separadamente quase todo mundo conhece: exigências impossíveis de cumprir e a dúvida silenciosa sobre se você dá conta. Juntas, no entanto, não formam uma soma, e sim um círculo. E esse círculo se fecha justamente quando a coisa dá certo.

O círculo que se fecha sozinho

A sensação de ocupar um lugar que não lhe pertence foi descrita pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978. Clance acrescentou mais tarde uma sequência que se repete e pela qual essas pessoas passam todas as vezes de novo. Não é diagnóstico nem transtorno, é mais uma trilha batida por onde os pensamentos andam porque já andaram por ali muitas vezes.

Fase O que acontece A frase na cabeça
Encomenda Chega uma tarefa cujo resultado alguém vai avaliar. “Agora vai aparecer como eu estou de verdade.”
Tensão Antes mesmo de começar surge a dúvida, não sobre a tarefa, mas sobre você. “E se desta vez eu não der conta?”
Reação Ou preparação muito além do necessário, ou adiamento até o prazo. “Melhor revisar mais uma vez.”
Resultado Normalmente bom, muitas vezes melhor do que os outros esperavam. “Passou.”
Alívio curto A tensão cai, mas dura horas, não semanas. “Graças a Deus, já era.”
Explicação O sucesso é creditado ao esforço, ao momento ou à boa vontade dos outros. “Deu certo porque reescrevi cinco vezes.”

O estranho está na última linha. O círculo não gira por causa dos fracassos, e sim apesar dos sucessos, porque toda volta termina em bom resultado e mesmo assim não prova nada. Na última fase o mérito é transferido para outro lugar, então na conta das capacidades nunca entra nada, e a encomenda seguinte encontra você na mesma linha de partida da anterior.

O inesperado é com quem isso acontece. Um impostor de verdade não tem esse círculo, porque o medo dele de ser descoberto é concreto e prático, não chega à uma da manhã diante de um trabalho pronto. Aparece, ao contrário, em quem acumula resultados, e quanto mais eles são, mais coisa fica para explicar. Uma promoção ou um elogio raramente suavizam a dúvida: aumentam sobretudo o número de coisas que precisam de justificativa.

A extensão do fenômeno é estimada de maneiras bem diferentes. Uma revisão sistemática de 62 estudos (Bravata e colaboradores, 2020) encontrou números de nove a oitenta e dois por cento conforme a quem os autores perguntaram e com o que mediram, ou seja, não existe um dado universal com que trabalhar. Com segurança dá para dizer apenas que é um padrão comum e que ele gruda em quem tem resultados nas costas.

Por onde entra o perfeccionismo

O perfeccionismo não é um traço só e a psicologia há muito deixou de medi-lo como uma grandeza única. De um lado estão os padrões pessoais altos, isto é, a exigência de qualidade no trabalho entregue. Do outro, as preocupações perfeccionistas: o medo do erro, a dúvida sobre o próprio desempenho e a sensibilidade a como o resultado fica aos olhos alheios. Um olhar amplo sobre as duas partes está no texto sobre quando o perfeccionismo é dom e quando é maldição.

No círculo descrito entra sobretudo essa segunda parte, e entra duas vezes: no início, quando levanta a barra tão alto que nem num dia excelente ela é alcançável, e no fim, onde decide como a coisa pronta vai ser lida.

A divisão de trabalho entre as duas é bem precisa. O perfeccionismo determina onde está a barra. A dúvida sobre si mesmo determina o que significa você ter passado por cima dela. Sem essa dúvida, um sucesso continuaria sendo sucesso, apenas alcançado com exigências maiores do que as dos outros.

O fim do círculo tem ainda três formatos diferentes, conforme para onde o mérito escorre. Tem quem sinta que as capacidades reais são menores do que parecem de fora e por isso se prepare com folga, para que não apareça. Para outra pessoa o sucesso simplesmente não fica na conta, porque ela o diminui na hora e move a barra. E tem quem veja atrás do resultado circunstâncias favoráveis, um bom momento ou uma banca mole. Tecnicamente fala-se em sensação de fraude, desvalorização do sucesso e acaso e circunstâncias: três fontes do mesmo padrão, que o texto sobre o que é a síndrome do impostor destrincha com mais detalhe.

Ralação ou adiamento

A reação à tensão na terceira fase tem duas variantes comuns e, de fora, parecem exatamente o oposto. Por dentro fazem a mesma coisa.

Diego é da primeira. O tempo a mais lhe dá sensação de controle, então as versões se acumulam até o prazo acabar. O trabalho entregue costuma ser bom, só que o preço dele sobe, e com ele a explicação de por que aquilo de novo não prova nada sobre capacidade. Quando a preparação vira um seguro contra ser descoberto, aproxima-se a fronteira depois da qual aquilo não é cansaço, e sim esgotamento. A como esse seguro se transforma num caminho para o esgotamento profissional, e onde pará-lo antes, é dedicado o texto sobre síndrome do impostor e burnout.

Camila é da segunda. Abre a encomenda, olha o primeiro parágrafo, lhe ocorre que assim não pode entregar e fecha o arquivo. Só se põe a trabalhar quando faltam tão poucas horas que já não sobra espaço para a preocupação com a qualidade e a única questão é se vai existir resultado. O adiamento, de passagem, fabrica proteção, porque uma coisa inacabada não pode ser julgada. O laço entre exigências altas e o ato de empurrar com a barriga está no texto sobre perfeccionismo e procrastinação.

Ninguém, aliás, pertence para sempre a uma variante. Diego também adia, só que nas coisas que ninguém vai ver, e Camila se preparou três semanas seguidas para a defesa do trabalho de conclusão. Costuma decidir o quanto está em jogo: numa encomenda pequena vence o adiamento, numa grande a preparação sem fim.

Os dois caminhos terminam na mesma explicação. Diego tem o sucesso creditado a cinco versões, Camila à pressão das últimas horas, e nenhum dos dois tem na mão nada que possa ser lançado na conta da capacidade. A encomenda seguinte é para os dois tão incerta quanto a anterior.

Por que noventa e cinco por cento é pouco para um e prova para outro

Imagine um trabalho pronto que objetivamente tiraria noventa e cinco pontos de cem. Com as preocupações perfeccionistas, a atenção vai na hora para os cinco que faltam. Não é modéstia nem vontade de melhorar: é que a coisa pronta tem um defeito, e o defeito vence o resto.

Com o padrão do impostor, porém, acontece mais uma coisa. Esses cinco por cento não são uma falta do trabalho, e sim um documento sobre a sua pessoa: aqui se vê como as coisas realmente são. E os noventa e cinco restantes não são a prova contrária, porque essa parte se explica pela preparação, pelo tempo ou pelo fato de a encomenda ter caído bem. Uma parte do resultado fala de você, a outra das circunstâncias.

Essa assimetria mantém o círculo girando com mais segurança do que qualquer erro. Um erro daria para corrigir. Uma explicação em que todo bom resultado escorre para outro lugar e todo mau resultado fica com você, não: ela não diz respeito ao trabalho, mas ao jeito como se conta sobre ele.

É honesto acrescentar que exigências altas, por si só, não são problema. O calculista que refaz a conta da carga pela terceira vez, ou a revisora que acha o erro de digitação na última página, fazem o trabalho exatamente como se faz. A diferença não está na altura da barra, e sim no que acontece depois que você passa por cima dela: se lança o resultado na sua conta ou se o desvia na hora.

Uma pergunta direta: quando foi a última vez que você entregou algo com a sensação de estar pronto? Não com o alívio de já ser tarde para mais ajustes, mas com a calma de que é isto. Se um momento assim não vem à cabeça no último semestre, não é motivo de alarme, mas é um dado com que dá para trabalhar.

Onde interromper o círculo

O conselho de baixar a barra soa lógico e quase nunca funciona, porque tira algo de que a pessoa se orgulha. Costuma render mais deixar as exigências em paz e mexer nas fases do círculo em que se decide a interpretação.

Um teto para a preparação

Decida de antemão quanto tempo você dá à tarefa e, quando esgotar, pare, independentemente do que sentir. O trabalho a mais em geral já não levanta a qualidade, só cala a tensão por um tempo e de quebra ensina a ela a se manifestar de novo na próxima. É desagradável umas duas vezes, depois a gente se acostuma. Na variante do adiamento o mesmo teto funciona ao contrário: um começo fixado no lugar de um fim fixado.

Escreva o seu “bom o bastante” enquanto está tranquilo

Antes de se meter na coisa, ponha numa frase o que precisa estar cumprido para a tarefa estar pronta. Três argumentos, uma tabela, dez slides. Um critério escrito antes não estica durante o trabalho, enquanto um guardado na cabeça estica quase sempre, e exatamente o tanto de tempo que ainda resta.

Anote junto do resultado o caminho

A cada coisa pronta anote três passos que levaram até ela: quantas versões, o que você teve de resolver, o que decidiu. Um resultado pronto parece simples até para quem o fez, porque o caminho até ele não aparece nele. Com o caminho escrito, a frase “não teve nada de difícil” não se sustenta diante dos seus próprios olhos.

A quarta coisa não é técnica, é conversa. Uma dúvida dita em voz alta encolhe, uma dúvida calada cresce, e quase sempre se descobre que a mesma coisa é conhecida por quem você achava seguro de si. Outros procedimentos, apontados diretamente para cada fonte de dúvida, estão reunidos no texto sobre como superar a síndrome do impostor.

Se você quer saber qual das três fontes fala mais alto no seu caso, uma imagem aproximada é dada pelo teste da síndrome do impostor. São vinte e uma perguntas e leva alguns minutos. Não é diagnóstico, só material para se observar. A diferença entre “tenho medo de que percebam” e “o sucesso nunca é lançado na minha conta” muda, isso sim, o que faz sentido tentar primeiro.

Meio ano depois, Diego reserva para uma apresentação duas versões e uma noite, não cinco versões e três madrugadas. O slide sete continua ficando um pouco diferente do que ele queria. A diferença é que agora ele diz isso do slide, não de si mesmo.

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