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Trabalho e produtividade

Sono depois do almoço: por que dá e o que resolve

O sono da tarde aparece mesmo sem almoço. Por que a cabeça desliga às duas, o que funciona em dez minutos e a partir de que hora o café rouba sua noite.

Camila trabalha com contabilidade e, às duas e meia da tarde, está lendo a mesma linha da planilha pela terceira vez. Ela vê os números, só que eles não param na cabeça. Sobre a mesa está o terceiro café do dia, morno, porque na última meia hora ela nem levantou a xícara.

Esse estado tem uma curva própria e dá para prever. O estado de alerta não cai de forma uniforme da manhã até a noite, cai em duas ondas: uma chega no meio da madrugada, a outra por volta de sete a nove horas depois de você acordar. Na maioria das pessoas isso cai em algum ponto entre uma e quatro da tarde. O sono depois do almoço não é uma falha de disciplina, é uma parada já prevista.

A queda aparece mesmo sem almoço

A explicação mais comum culpa a comida. O sangue vai para o estômago, a cabeça fica sem combustível, fim da conversa. Soa lógico e é só parte da verdade.

Timothy Monk, da University of Pittsburgh, resumiu em 2005 as pesquisas sobre o tema, e a conclusão dele desconcerta quase todo mundo: a queda de desempenho no início da tarde aparece também em quem não almoçou nada. Nos experimentos em que os voluntários pulavam a refeição, a atenção despencava no mesmo horário em que despenca no escritório depois de um prato cheio. O almoço não causa a queda. O almoço aprofunda a queda.

As medições de facilidade para pegar no sono apontam na mesma direção. Mary Carskadon e William Dement verificaram com que rapidez as pessoas adormeciam quando recebiam a oportunidade a cada duas horas no laboratório. Saiu um padrão com dois picos: a maior facilidade para dormir fica no meio da madrugada, e a segunda, menor, no começo da tarde. Ela apareceu inclusive em quem tinha uma noite bem dormida nas costas.

O mecanismo já foi descrito em 1982 pelo pesquisador suíço Alexander Borbély. Duas coisas correm em paralelo: a pressão do sono, que cresce a cada hora acordado, e o sinal do relógio interno, que durante o dia mantém você de pé. Só que esse segundo sinal não é plano ao longo do dia. No começo da tarde ele afrouxa por um tempo, a pressão do sono já cresceu nesse meio-tempo, e a distância entre os dois você sente como pálpebras de chumbo.

Que não se trata apenas de uma sensação subjetiva, mostram os dados de fora do laboratório. A equipe de Merrill Mitler descreveu em 1988 que os acidentes causados pelo próprio motorista têm dois picos ao longo do dia. O grande fica entre duas e seis da madrugada. O segundo, menor e bem menos esperado, cai mais ou menos entre duas e quatro da tarde.

As culturas em volta do Mediterrâneo chegaram a isso antes dos laboratórios. A sesta não é preguiça nem folclore, é um ajuste prático do dia ao jeito como a cabeça funciona. Há séculos ela se segura com mais força justamente onde o calor da tarde agrava ainda mais a queda.

O que transforma uma queda leve numa parede

A queda básica todo mundo tem, mas a profundidade dela depende bastante de você. Quatro coisas influenciam isso e todas estão ao alcance da mão.

O almoço pesado é a mais visível. Uma porção grande com predomínio de carboidratos rápidos, o clássico prato de arroz com macarrão e pão, empurra e depois derruba o açúcar no sangue bem na hora em que o relógio interno já estava afrouxando sozinho. Comer mais leve não cancela a queda, mas a diferença entre “hoje estou lento” e “preciso deitar” costuma ser só o tamanho do prato.

A segunda coisa é a luz, ou melhor, a falta dela. Um escritório parece iluminado, e medido em lux é uma caverna na penumbra. A iluminação interna comum dá trezentos a quinhentos lux, enquanto na rua, mesmo com céu fechado, você mede vários milhares. O relógio interno lê a luz como principal informação sobre a hora do dia, e na caverna ninguém lembra a ele que são duas e meia.

Uma noite mal dormida move a queda da categoria de incômodo para aquela em que a cabeça se desliga sozinha. A pressão do sono começa a manhã num valor mais alto, então o tombo da tarde parte de uma posição pior. Quem dormiu cinco horas não tem menos força de vontade à tarde. Tem mais sono atrasado. O cronobiólogo alemão Till Roenneberg tem uma imagem certeira para isso: boa parte das pessoas atravessa vários fusos horários todo fim de semana e volta na segunda sem ter saído do lugar.

O último item é a imobilidade. Duas horas na cadeira sem se levantar uma única vez derrubam até quem dormiu bem e almoçou com bom senso. Um corpo sem movimento lê a situação como preparação para o descanso e se comporta de acordo.

O que funciona em dez minutos

Quase todo conselho contra o cansaço da tarde termina no café. O café tem regras próprias e elas vêm daqui a pouco, mas as alavancas mais rápidas estão em outro lugar.

Dez minutos na rua. Não é uma caminhada pela saúde, é uma dose de luz. Dez minutos lá fora dão aos olhos uma ordem de grandeza a mais de luz do que uma hora ao lado da janela num escritório aberto, e o relógio interno responde praticamente na hora. Quando o tempo está horrível, já ajuda sentar bem junto à janela e levantar a cabeça do celular.

Andar depois do almoço funciona por outro motivo. Dez a quinze minutos de caminhada depois da refeição suavizam aquela queda brusca de açúcar que chega cerca de uma hora depois do prato grande. O bônus é que no caminho você costuma pegar também aquela luz.

O que nunca funciona é o doce da tarde. Um chocolate às três levanta o açúcar por uns vinte minutos e depois manda você um andar abaixo de onde estava. Uma fruta com um punhado de castanhas segura muito mais tempo, porque o corpo libera essa energia mais devagar.

A terceira alavanca não custa nada e mesmo assim é a menos usada: troque o tipo de trabalho. A hora em que a cabeça não anda é péssima para escrever uma proposta e excelente para emitir notas, para organizar a caixa de entrada ou para aquele telefonema que você empurra desde segunda. Quando o pensamento rende mais e quando vale recorrer à rotina é o que o texto sobre as oscilações de desempenho ao longo do dia destrincha com mais calma.

E a água. Parece lugar-comum de revista, só que uma desidratação leve se manifesta exatamente com o que você chama de cansaço à tarde: concentração pior e peso na cabeça. Um copo de água custa quinze segundos. Se em vinte minutos nada mudar, pelo menos você descartou a causa mais simples.

Vinte minutos que fazem a ponte

O cochilo curto é a única coisa da lista que não contorna a queda, mas encurta ela de verdade. Dez a vinte minutos bastam para o estado de alerta voltar a um nível utilizável, e nesse tempo você não chega a afundar no sono profundo, aquele do qual a gente acorda quebrado.

A diferença entre vinte minutos e uma hora aqui é a diferença entre uma ferramenta e um problema. Um sono mais longo à tarde baixa tanto a pressão do sono que à noite isso volta na hora de dormir. Como encaixar o cochilo no dia e o que fazer quando o sono não vem é o que um artigo à parte sobre o cochilo curto da tarde resolve.

O café das duas e o das quatro não são a mesma coisa

A cafeína bloqueia os receptores de adenosina, a substância que se acumula ao longo do dia e avisa ao cérebro que já deu. Ela não elimina o cansaço, só desliga o aviso por um tempo. A adenosina continua se acumulando enquanto isso e, quando a cafeína passa, se manifesta de uma vez.

O que importa é um número que pouca gente conhece. A meia-vida da cafeína num adulto fica em torno de cinco a seis horas. Se você tomar um café grande às cinco da tarde, às onze da noite ainda tem metade da dose no corpo. Christopher Drake e colegas deram cafeína a voluntários seis horas antes de dormir em 2013 e mediram uma redução de sono de mais de uma hora. Os próprios participantes afirmavam que o café não tinha efeito nenhum sobre eles.

A consequência prática é simples. Cafeína no começo da tarde, digamos até uma ou duas horas, alivia a queda de verdade e dá tempo de sair do corpo até a noite. Café depois das quatro em geral rouba um pedaço da noite de hoje, o que aprofunda a queda de amanhã, e o círculo passa a girar sozinho.

Também conta qual xícara é aquela. Quem toma cinco cafés por dia tem o nível de cafeína espalhado pelo dia inteiro e à noite ele nunca cai de fato a zero. O café da manhã então não acorda ninguém. Ele só repõe o que falta desde ontem, e contra o sono da tarde já sobra pouca reserva.

Camila passou três anos nesse círculo. Terceiro café às duas, quarto às cinco, sono depois da meia-noite, de manhã o despertador. Quando ela puxou o último café para uma hora e, no lugar do café da tarde, passou a dar dez minutos de volta no quarteirão, o cansaço não sumiu. Mas encolheu para uns trinta minutos e parou de levar a tarde inteira.

Planeje junto com a queda, não contra ela

A coisa mais útil que dá para fazer com o tombo da tarde não é vencer ele. É contar com ele na agenda.

A reunião em que se decide sobre dinheiro ou sobre o rumo de um projeto pertence à manhã. Às duas da tarde, em volta da mesa senta um grupo de pessoas com a pior atenção do dia, e as decisões que saem dali mostram isso. Para as duas servem bem, ao contrário, as coisas que não se decidem e apenas se fazem: um status curto ou trabalhar em dupla em algo concreto.

O que você tem na agenda amanhã às duas da tarde? Olhe agora, não amanhã. Se estiver ali alguma coisa que exige cabeça fresca, você tem o dia de hoje inteiro para mexer nisso.

Atrás da queda ainda espera uma recompensa da qual se fala pouco. Assim que o tombo passa, na maioria das pessoas chega uma segunda onda de alerta, e ela costuma ser surpreendentemente boa para trabalho concentrado. Quem tenta furar a queda na força bruta chega nessa onda exausto e a desperdiça no caminho de casa.

Entra em jogo também o deslocamento individual. A queda não chega a todo mundo na mesma hora, porque está presa ao horário em que você acordou e ao ponto em que você fica no eixo cotovia, pombo e coruja.

CronotipoQuando a queda costuma chegarComo planejar a partir disso
Cotovia (matutino)orientativamente das 13:00 às 14:30deixe o pensamento exigente para a manhã, depois do almoço rotina e luz
Pombo (intermediário)orientativamente das 14:00 às 15:30a segunda onda de foco costuma vir por volta das quatro, guarde o importante para ela
Coruja (vespertino)orientativamente das 15:00 às 17:00administração de manhã, tarefas pesadas só no fim da tarde

A segunda coisa que opina aqui é a estabilidade do ritmo. Quem tem ritmo fixo costuma ter a queda cravada no mesmo horário todo dia e pode contar com isso ao planejar a semana. Quem tem ritmo flexível sente cada tarde um pouco diferente, e mais do que regras fixas ajuda o próprio registro das duas últimas semanas.

Se você não sabe onde fica nesse eixo, em poucos minutos o teste de cronotipo dá uma orientação. O que é de fato o relógio interno, como o cronotipo muda ao longo da vida e por que ele não se reprograma na base da vontade é o que o texto básico sobre cronotipos destrincha.

Amanhã às duas da tarde vai acontecer uma de duas coisas. Ou você vai ler a mesma linha pela terceira vez xingando a si mesmo por dentro, ou vai passar dez minutos na rua e, na volta, pegar algo que não precisa de ideia genial. Qual das duas tardes será a sua se decide hoje, enquanto você olha a agenda de amanhã.

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